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“No holerite da vida, quanto lhe sobra de tempo líquido?”

- 16 de junho de 2017
Quanto tempo de vida e de carreira você joga fora em atividades que não trazem nada nem para você nem para ninguém? Maurício Barros fez essa conta. O resultado é assustador. (foto: Ramón Vasconcelos).
Quanto tempo de vida e de carreira você joga fora em atividades que não trazem nada nem para você nem para ninguém? Maurício Barros fez essa conta. O resultado é assustador. (foto: Ramón Vasconcelos).

 

por Maurício Barros

Não sei onde anda a meia dúzia de contos que escrevi. Na nuvem, talvez. Ou em algum cesto de lixo eletrônico. Compunham uma série chamada “Contos de iPhone”. Não gravei, não mandei por email para mim mesmo, não imprimi. Foram-se junto com o aparelho, alguns anos atrás.

Não eram contos quaisquer, mas desafios literários. Cada frase deveria trazer pelo menos uma palavra dita por alguém ao redor da mesa. E só valia produzi-los durante aquela reunião de trabalho, e naquele celular que a empresa entregou para viver na minha mão. Às vezes, eu mesmo achava um jeito de dizer um clichê para ganhar uma nova sentença. Tipo digital first.

Lembro só do primeiro conto, e vagamente. Era sobre um casal de enamorados corporativos, que combinavam de se encontrar para pensar fora da caixa, ficar junto na mesma página, validar a relação, definir a to do list. Ele até tomava um negocinho para otimizar os recursos e maximizar os resultados. Mas cada um incluiu na troca de emails uma cópia oculta, e aí o caso foi bater no Compliance.

Consegui assim acelerar vários minutos inúteis naquelas reuniões, períodos nos quais o assunto tomava um rumo completamente improdutivo, desviado do real motivo do encontro – isso quando um motivo real, de fato, havia. Nem me constrangia em ficar olhando a telinha. Essa postura detestável era comum entre todos. Praxe.

Suspeito que um dos principais problemas da produtividade planetária seja o tempo desperdiçado em uma engrenagem corporativa

Calculo que, nos 12 anos dentro daquela empresa, eu perdi por baixo três horas diárias de frescor produtivo preso em afazeres dissociados da minha função objetiva. Em um ano com 250 dias úteis, tirando 20 para as férias, dá 8.300 horas jogadas no lixo, ou 345 dias. Imagine o que Veríssimo não faria com meu iPhone e todo esse tempo. Fernando Pessoa teria 18 heterônimos. Camões emplacaria “O Retorno dos Lusíadas”. Eu escrevi seis contos, e os perdi. Melhor para a literatura.

Trezentos e quarenta e cinco dias úteis, quase um ano inteiro de vida inútil. E olha que produzi nos 12 anos muitas coisas das quais me orgulho. Mas, reconheço, foram toneladas de aparas de vida jogadas no cesto de não recicláveis.

Quando você chega aos 40, o tempo vira um dinar do Kwait, moeda de reis. Há muita coisa legal acontecendo, você se sente no auge da fase produtiva, tem recursos e saúde para realizar sonhos pessoais, filhos com quem quer estar, um amor para amar, pais que demandam cuidados. Você não pode perder todo aquele tempo. A segunda metade da vida já chegou, não dá para esperar o assistente levantar a placa de acréscimos e só aí avançar e marcar os gols que planejou.

Sim, 345 dias. Isso porque nem contabilizei as horas somadas ao redor de um bom queixume, o principal prato servido nos cafés de empresas mundo afora. Papos onde se reclama de tudo: do chefe, da empresa, do colega, do subordinado, da equipe, de você mesmo. Todos sabemos fazer um bom queixume, e somos ingrediente, claro, dos queixumes alheios. E você precisa de uns 30 minutos para se recuperar de um bom queixume e voltar a produzir. A inhaca demora para sair, como caspa em malha preta.

Já tem mais de dois anos que estou fora do esquema corporativo. Entre prós e contras, há um ouro cujo brilho tenho notado. Minutos e horas que disponibilizo para o trabalho são todos gastos com… trabalho

Essa consciência de tempo líquido, sem lista de descontos, vem mais nos intervalos. Quando encerro uma tarefa ­– seja um texto para meu blog, a edição de uma revista, o pagamento para algum colaborador ou um programa ao vivo na TV ­–, as outras coisas que amo além do trabalho estão à mão, seja em casa ou no escritório: a lição de guitarra da semana, a corrida no parque, a ajuda na lição das crianças, o telefonema para a mãe, o livro e a rede na varanda, a caminhada ao acaso.

Levo também a noção de tempo líquido quando o trabalho me reconduz ao mundo corporativo. Com um cliente ao redor da mesa, tento ser um mediador da conversa, construindo um trilho reto por onde a reunião não descarrilha.

Não me lembro de ter ficado mais de uma hora discutindo o mesmo assunto com alguém nesses últimos meses. A não ser no bar, e sobre futebol – mas aí é tempo, literalmente, líquido

Não sei para onde vão caminhar as relações de trabalho, o que será das corporações, ainda mais com as mudanças em vista nas leis trabalhistas. Havia coisas boas naquela empresa, e às vezes sinto falta delas. Mas profissões essencialmente criativas sofrem demais com esse desconto enorme no “holerite da produtividade”. Muito tempo bruto de presença física e gasto inútil de energia, pouco tempo líquido de ideias. Acabou o artigo para o Draft. Vou pegar a guitarra.

 

 

Maurício Barros, 47, é jornalista (PUC-SP) e mestre em Ciência Política (USP), com especialização em Gestão e Liderança (Insper). É comentarista e blogueiro dos canais ESPN, colunista da revista VIP e dirige a Dardanelos Comunicação, empresa dedicada a construir narrativas empresariais. Entre outros veículos, foi editor e diretor de redação das revistas Placar e Runner’s World (Editora Abril).

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