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“No pior e melhor ano da minha vida, aprendi que sucesso é subjetivo, felicidade é escolha e coragem é essencial”

- 27 de outubro de 2017
Laura Glüer conta como enfrentou o pior ano de sua vida, e os aprendizados colhidos nesta fase.
Laura Glüer conta como uma sequência de demissões (duas!) a levou a viver o pior e também o melhor ano de sua vida. Para ela, 2017 já a acabou e é hora de olhar com coragem para 2018.

 

por Laura Glüer

Estamos no último trimestre do ano. Posso dizer que 2017 FOI o pior e também o melhor ano da minha vida. O verbo está no passado, de propósito, pois para mim o ano já acabou e tudo o que vem a partir de agora são os bons auspícios do 2018 que chega.

Um balanço, no entanto, é necessário e saudável: 2017 foi o ano em que entrei definitivamente para as estatísticas do desemprego. Um ano em que sofri por perder referências profissionais, pessoais e familiares e que senti várias vezes o chão desaparecer.

O ano começou intenso. Em janeiro, o susto. Doze meses depois de ter sido demitida do cargo de coordenadora de uma Faculdade de Comunicação, fui demitida novamente, desta vez de uma autarquia federal, onde coordenava o Departamento de Comunicação. Estava confortável e bem acomodada neste lugar, atuando como jornalista, em funções burocráticas, fazendo termos de referência para licitações e revisando contratos. Mas a vida desacomodou, de novo.

Meu principal erro? Não soube gerenciar as relações de poder na organização

Trocando em miúdos: foquei demasiadamente nos processos da comunicação e não prestei a devida atenção nas pessoas. Não observei o jogo da micro e da macropolítica que acontecia nos bastidores. Ao tentar ser uma gestora competente, zelosa por uma comunicação tecnicamente excelente, não percebi que a organização buscava principalmente uma gestora política.

Hoje, nove meses depois, vejo que aquele lugar não era para mim, mas uma leitura adequada de cenários teria me poupado embates desnecessários. Logo eu que defendo tanto essa premissa no estudo das crises.

Da mesma forma, a falta de leitura de cenários tinha sido também um dos meus erros no meu emprego anterior. Não dei a devida atenção ao jogo político, ainda mais forte no ambiente acadêmico, cercado de disputas de ego e poder entre detentores do saber.

Lá também acreditei que processos bem desenhados resolveriam tudo. Essa forma de gestão valeu por alguns anos, rendeu reconhecimentos de três cursos com nota máxima junto ao MEC. Entretanto, foi só a crise financeira no ensino superior privado brasileiro apertar para demitirem a doutora boa em gestão, mas não tão hábil no jogo político.

Depois destas duas demissões em um curto espaço de tempo, fui ao fundo do poço

Sempre me orgulhei de tomar a decisão de sair dos lugares de forma planejada, controlando minuciosamente os passos seguintes da minha carreira. E nos dois casos, pela primeira vez em vinte anos de carreira, não foi minha a decisão. Em julho, tive ainda a barra do falecimento do meu pai. Tudo aquilo me nocauteou.

Foi aí que aprendi que a vida nem sempre pode ser controlada. Aliás, na maioria das vezes, não. Podemos tentar controlar parcialmente o rumo das coisas, mas existe um curso natural que precisamos aprender a compreender e conviver, de forma mais leve e tranquila. Custei muito a aprender isso.

Em meio a todas essas situações, uma voz interna me dizia que eu precisava nascer de novo, virar essa página, de forma resiliente, adaptando-me ao novo contexto sem perder a essência. E, assim, fui obrigada a me reinventar e a simplificar a vida ao máximo neste momento de incertezas e busca de novos caminhos.

Foi duro, cortei na carne. Voltei a investir na construção de minha marca pessoal, preservando e enfatizando os valores que considero importantes – comprometimento, profissionalismo, ética. Com o coaching e a terapia aprendi a valorizar os meus pilares, dominando o ego e a necessidade de controlar o que não depende de mim.

Aproveitei o tempo livre no home-office para renovar o conteúdo das minhas aulas e palestras, publiquei um guia de gestão do tempo, comecei a trabalhar na segunda edição do meu livro de assessoria de comunicação.

Aos quase 45 anos, virei youtuber. Criei um canal chamado Café Espresso para uma Comunicação Expressa, onde falo sobre comunicação em diferentes cafeterias. O canal cresce aos poucos, está muito longe de virar uma fonte de renda, mas me dá visibilidade, ajuda a criar desenvoltura para videoaulas e palestras, além de me divertir.

Das muitas sementes plantadas, algumas floresceram, outras não. Projetos bacanas como a Academia do Discurso, em parceria com uma amiga de faculdade, não tiveram – ainda – o êxito esperado, talvez porque parte dos líderes empresariais e políticos não despertaram, ainda, para a necessidade de afinar suas falas públicas, evitando crises e construindo reputação positiva.

Outros projetos pululam, alguns ainda guardados a sete chaves e tão diferentes do que sempre fiz que até me questiono se estou pronta a assumir. Mas o frio na barriga de fazer algo completamente novo e desafiador, ainda que seja no já conhecido campo da comunicação, supera qualquer medo.

Venci o orgulho e pedi ajuda, inclusive a muitos que um dia ajudei. Mostrei-me frágil e vulnerável, sem me importar com as aparências, e, com isso, me fortaleci

Claro que senti na pele muita ingratidão, mas também tive gratas surpresas. Aos poucos, o próprio curso natural das coisas foi se encarregando de me afastar de pessoas e instituições tóxicas e de me reaproximar de amigos e colegas fieis, ao mesmo tempo em que me apresenta novos contatos promissores.

A falta de uma base financeira mais sólida e de um salário certo no início do mês me obrigou a encontrar um novo estilo de vida. Buscando o maior desconto nos aplicativos de transporte, fazendo comida em casa para economizar, comprando diretamente de quem produz, cortando totalmente os cartões de crédito e pagando tudo à vista (mesmo que atrasado). Doeu muito tirar a filha adolescente do piano, mas ela também cresceu com isso e, com seu talento, acabou virando autodidata. Dívidas foram renegociadas: o que é justo pagarei e o que não é plausível, seguirei questionando.

Por incrível que pareça, toda essa transformação me tornou uma pessoa mais feliz e leve

Percebi que consumia produtos e serviços desnecessários, comecei a pensar muitas vezes antes de fazer um novo gasto, passei a valorizar ainda mais o investimento naquilo que me dá prazer e tem retorno.

Na vida pessoal e profissional, consegui reafirmar a escolha de ser feliz muito mais pelo que sou e amo e, cada vez menos, por títulos, cargos ou bens materiais. Comprovei que o SUCESSO, palavra tão subjetiva, é muitas vezes efêmero e ilusório. A FELICIDADE, essa sim, é escolha.

Minha história é similar a de muitos brasileiros neste momento, principalmente nas grandes e médias cidades, onde os efeitos da crise são mais evidentes. Muitos da minha geração X (e também de outras gerações) estão passando por situações parecidas. Gente qualificada, com graduação, mestrado e doutorado e muita experiência profissional.

Ouso dizer, contudo, que a minha geração e suas sólidas referências, se estiver aberta a se reinventar em muitos aspectos, tem maiores chances de superar a crise, pois PERSEVERANÇA é uma de suas marcas mais fortes.

Como diz o grande Guimarães Rosa, o correr da vida embrulha tudo, sossega e desinquieta. O que ela quer de nós é CORAGEM. E esta talvez deva ser a nossa palavra de ordem em 2018.

 

 

Laura Glüer, 44, é jornalista, especialista em Comunicação Organizacional, mestre e doutora em Comunicação. Docente universitária e assessora de comunicação há mais de 20 anos, autora do livro Assessoria não é Acessório. Consultora no programa Academia do Discurso e idealizadora do programa Café Espresso para uma Comunicação Expressa

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