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Nova Brasil Ambiental: para criar um negócio, ela teve que inventar uma máquina de reciclar vidro

- 27 de novembro de 2017
Juliana Maia criou a Nova Brasil Ambiental e está movimentando a cadeia da reciclagem de vidro laminado em Pernambuco.
Juliana Maia criou a Nova Brasil Ambiental e está movimentando a cadeia da reciclagem de vidro laminado em Pernambuco.

É dia em Olinda (PE). Aqui, o sol nasce primeiro, nos equinócios, no Brasil. Antes das cinco da manhã, o clarão já virou pleno na cidade alta e na orla. É hora da engenheira ambiental Juliana Maia, 35, colocar o corpo para trabalhar. Primeiro, com uma pedalada à beira-mar, depois, na jornada em que mescla mulher de negócios, engenheira e, eventualmente, coletora de vidro reciclável. Ela é fundadora da primeira unidade recicladora de para-brisas e vidros laminados da região Nordeste, a Nova Brasil Ambiental.

“Te confesso que minha vida aqui é muito corrida. Sou eu, mais três funcionários e a faxineira, que vem uma vez por semana, para fazermos todo o trabalho”, conta Juliana, explicando não ter tido tempo de ler os exemplos de conteúdos que o Draft produz, enviados como referência na véspera da entrevista. “Hoje, furou o pneu da carregadeira, tive que ir consertar e depois acoplar o reboque no carro para pegar garrafa, porque a gente está fazendo um teste com restaurantes que começaram a separar garrafas para a gente.”

Formada pela Faculdade Oswaldo Cruz, em 2012, Juliana teve sua principal experiência profissional na maior empresa de destinação privada de resíduos sólidos da cidade de São Paulo. Na Essencis, ela era a responsável pelos clientes da zona Oeste da capital paulista e coordenava uma carteira que faturava, à época, cerca de 2,5 milhões de reais ao mês, a maior área da empresa.

Sua tarefa era encontrar soluções para o descarte adequado de diversos tipos de resíduos: de tonéis de mercúrio a lixo hospitalar, passando por remédios vencidos, terra encharcada de combustível ou toda forma de rejeito que a indústria e o comércio da região metropolitana de São Paulo podem gerar.

Lidando com desafios inesperadamente complexos, conheceu a dificuldade que é a destinação adequada de parabrisas de carros e outros tipos de vidros laminados. Usados em fachadas de prédios e em diversos acabamentos arquitetônicos internos, esses produtos têm uma película de plástico interna, para evitar que o vidro, quando quebrado, se estilhace e cause ferimentos. Se, por um lado, o material é mais resistente e seguro que o convencional, sua reciclagem é um problema considerável para a cadeia de reaproveitamento de vidro.

Descobrir como fazer a separação do vidro e da película plástica tomaria os quatro anos seguintes da jovem, em uma jornada típica dos pioneiros de qualquer setor, com seus altos e baixos:

“É um misto de alegria e angústia contar a história desde o começo, porque muita coisa aconteceu. Eu quebrei muito a cara”

Foi em 2013 que Juliana resolveu fazer o caminho inverso de seus pais e empreender uma vida nova no Nordeste brasileiro. Paulistana, filha de baianos que migraram para São Paulo na década de 1960, ela é a caçula de dona Alba e seu Chico, que criaram os cinco filhos como costureira e gráfico, na Freguesia do Ó, bairro da zona Norte paulistana.

A FILHA DE MIGRANTES QUE FAZ O CAMINHO DE VOLTA

“Na sabedoria deles, eles deram a maior força para eu vir para cá. Meu pai disse ‘também fiz isso, mas eu era um pouco mais novo e não tinha avião toda hora’. Uso isso para me dar forças aqui, porque sinto muita saudade da minha família. Ficar distante é uma barra, mas tenho o exemplo deles para me fortalecer”, diz.

Foi com as próprias economias (cerca de 100 mil reais) que Juliana decidiu se mudar para Pernambuco e estabelecer a base da primeira unidade recicladora de para-brisas e vidros laminados do Nordeste. Antes, pesquisou e descobriu que só havia serviço semelhante em São Paulo e Curitiba, atendendo basicamente as regiões Sul e Sudeste. Ela fala da decisão:

“Não abri o negócio em São Paulo porque na cidade as coisas estão muito bem acabadas, muito bem exploradas. Já aqui em Pernambuco, há uma necessidade maior. Me sinto muito mais útil”

Na primeira temporada que passou no Recife, a empreendedora fez um grande esforço para movimentar empresas e órgãos públicos, a fim de costurar o estabelecimento da Nova Brasil Ambiental. Por um lado, precisava mobilizar lojas de autopeças e construtoras a fornecer para ela o material a ser reciclado. Por outro, ia descobrindo quem seriam os compradores do material processado, ao mesmo tempo em que desenrolava a burocracia institucional, incluindo as licenças necessárias para operar.

O ano era 2013. Fez bons contatos com autoridades estaduais, estabeleceu um arranjo com as fontes de sua matéria-prima e vislumbrou como clientes potenciais as empresas do novo Polo Vidreiro de Pernambuco, que estava sendo instalado na cidade de Goiana, ao norte da capital pernambucana. A utilidade de seu negócio estava mais que demonstrada. “Todos queriam que a gente começasse a funcionar logo”, lembra Juliana, que a esta altura havia elaborado um estudo de viabilidade econômica com a ajuda de uma amiga empresária.

TUDO PRONTO PARA COMEÇAR, OS PROBLEMAS SÃO OS PRIMEIROS A CHEGAR

Tendo estimado a necessidade de vender um volume mínimo de 200 toneladas de vidro em grão, a cada mês, para cobrir os custos de operação, e pensando que bastaria adquirir o maquinário e colocar as engrenagens da cadeia para rodar, vieram os primeiros contratempos: logo Juliana descobriria que não existem no mercado máquinas prontas para separar vidro laminado. “Não tinha como eu chegar numa loja e pedir ‘uma máquina que separa vidro de plástico, por favor’. Não existem essas máquinas prontas, disponíveis”, conta, rindo.

Vidro moído, limpo e separado do plástico: este é o produto da Nova Brasil Ambiental.

Vidro moído, limpo e separado do plástico: este é o produto da Nova Brasil Ambiental, que é vendido para a indústria e volta a se transformar em novas peças.

Com a sinalização de poder ter um espaço próprio para operar dentro do Polo Vidreiro, já com um CNPJ criado, ela teve que alugar um galpão para comprovar endereço e conseguir financiamento para aquisição do maquinário. Para tal, optou por estabelecer-se no formato de empresa individual de responsabilidade limitada (Eireli), que pode ser criado por uma pessoa apenas, sem a necessidade de sócios.

Vivendo em uma pensão em um bairro recifense com altos índices de violência, Juliana teve que repensar todo o seu projeto depois que quase todos os quartos do local foram invadidos — pelo mesmo assaltante. Só faltou o dela. Isso preservou o laptop (repleto de contatos, planilhas e todo o planejamento do negócio), mas era um sinal de que ali as coisas não iam bem. Além da insegurança pessoal, veio uma má notícia na vida profissional: na mesma época ela soube que o primeiro cliente do Polo Vidreiro ainda levaria mais de um ano para começar a operar.

Quando cogitava desistir de tudo, Juliana foi acolhida por um amigo que a convidou para dividir um apartamento no centro da capital pernambucana.

Reinstalada e de fôlego recuperado, a engenheira (que se formou também técnica em Elétrica, no ensino médio), decidiu, então, criar o que faltava: pôs-se a desenhar as máquinas e a elaborar o projeto para concretizar o sonho — crucial para que o negócio funcionasse — de ter uma separadora eficiente de plástico e vidro.

NÃO EXISTE MÁQUINA QUE FAZ ISSO? DEIXA QUE EU DESENHO

“Eu podia pegar meu dinheiro e dar entrada em um apartamento ou um sítio, mas resolvi pagar adiantado o aluguel do galpão e entrar com 20% do investimento inicial para conseguir o financiamento da Agência de Fomento do Estado de Pernambuco (Agefepe) e do Banco do Nordeste para as máquinas”, lembra.

Com as máquinas desenhadas, um financiamento a juros baixos, por se tratar de investimento no setor de reciclagem e também por ser mulher, Juliana conseguiu, depois de muitas etapas vencidas, um bom empréstimo, com seis meses de carência para começar a pagar. Contratou fornecedores para fazer o moinho e a separadora em São Paulo e, no final de 2014, já estava com o equipamento pronto para funcionar no galpão alugado na cidade de Paulista, no Grande Recife.

Depois de mais alguns milhares de reais investidos na adaptação elétrica do espaço, com uma pilha de parabrisas recolhidos nas lojas de autopeças de Recife já aguardando para serem moídos, era hora de colocar tudo para funcionar, e também de ter mais algumas decepções. “Os testes da máquina em São Paulo foram feitos com parabrisas quebrados, mas retos, esticados; e a verdade é que o material chega de todos os jeitos possíveis, dobrado, amontoado, sujo…”

Dois dos três funcionários da Nova Brasil Ambiental, no galpão da recicladora de vidro.

Dois dos três funcionários da Nova Brasil Ambiental, no galpão da recicladora de vidro.

O equipamento não dava conta de processar o material, demandando esforço manual não previsto, e produzindo um volume insuficiente para viabilizar o negócio. “Tive que botar a cabeça para funcionar, chamei outro parceiro que me ajudou a redesenhar e modificar a máquina. Mudamos a forma de entrada do material, realocamos a esteira, giramos o cabeçote, fizemos várias adaptações e, quando terminamos e ligamos o equipamento era um sábado, onze horas da noite, a máquina parecia uma pipoqueira, voava vidro pra todo lado”, conta, lembrando que, nesse instante, não resistiu e chorou.

Suas economias estavam se esgotando, em breve deveria começar a pagar o empréstimo, pessoas ofereciam oportunidades para ela voltar a trabalhar em São Paulo, o principal cliente ainda não operava plenamente, tudo conspirava contra, e Juliana caiu em febre delirante, dessas que só carinho de mãe consegue curar. Assim, dona Alba se abalou para Recife para ajudar a filha e dar mais um sopro de energia no projeto.

Recuperada e pronta para seguir a batalha, com engenhosidade, Juliana resolveu instalar uma pré-trituradora, fez uma última modificação na máquina e voilà, a mágica aconteceu: vidro e plástico saíam do equipamento inteiramente separados, sem pipocar — mais de dois anos depois do início do processo.

Juliana se animou, começou a incrementar o galpão, organizou em uma área coberta por brita a estocagem da matéria-prima que se acumulava, firmou uma equipe de assistentes, conseguiu uma empresa parceira para entrar como sócia e passou os meses seguintes a recolher e moer vidro. O Polo Vidreiro finalmente começava a receber o valioso material da Nova Brasil, que reduz brutalmente os custos de fabricação de vidro novo, dispensando as caras etapas de mineração e processamento do feldspato (a matéria-prima do vidro).

O QUE FAZER DEPOIS DE CAIR TRÊS VEZES? LEVANTAR TRÊS VEZES

Tudo parecia bem quando, após alguns meses, o cliente apontou uma grave falha na qualidade do material. Além de vidro moído, as remessas estavam vindo contaminadas com restos de brita e também de metal. O revestimento colocado para melhorar a estética do galpão estava sendo moído junto com o vidro, que já desgastava o material metálico da própria máquina trituradora, resultando em um insumo que não poderia ser utilizado pelo cliente.

Com o novo baque, a empresa que havia entrado em sociedade retirou-se, abrindo mão do investimento e dos equipamentos que havia viabilizado. Além disso, o cliente indicava que desistiria da parceria, preferindo usar a matéria-prima bruta em seu processo de fabricação. Teria o sonho acabado?

Juliana insistiu. Retirou toda a brita do galpão, substituiu todas as peças desgastadas do maquinário e pediu uma última chance ao cliente, que cedeu. Ufa.

Juliana Maia, da Nova Brasil Ambiental, saiu de São Paulo para "ser muito mais útil" no Nordeste, onde criou um negócio de reciclagem de vidro (foto: Carina Calixto).

Juliana Maia, da Nova Brasil Ambiental, saiu de São Paulo para “ser muito mais útil” em Pernambuco, onde criou um negócio de reciclagem de vidro (foto: Carina Calixto).

Como Juliana bem nos avisou, a história é longa mesmo: somente em abril deste ano é que a Nova Brasil conseguiu fornecer a primeira carga entregue exatamente do jeito que o cliente precisa. “Achei uma peça em um ferro-velho e acoplei à máquina no final do processo, para retirar os fragmentos de metal que estavam gerando a contaminação”, afirma. “Agora, o produto está em 98% do que nós queremos”, diz, e conta que fará testes para descontaminar o material já enviado ao cliente, sem custos adicionais.

Com as contas se estabilizando, a empresa consegue gerar hoje cerca de 140 toneladas de vidro em grão, por mês (a tonelada pode custar de 100 a 200 reais). Este volume ainda está abaixo do necessário para alcançar o ponto de equilíbrio financeiro e, para completar o volume, a Nova Brasil Ambiental passou recentemente a recolher garrafas de vidro para reciclar, atacando assim um outro problema que incomoda Juliana, que hoje vive na festeira cidade de Olinda:

“Eu e meus amigos criamos a regra de só ir a bares e restaurantes que separam vidro para reciclagem. É um absurdo a gente levar meia hora para tomar uma cerveja e isso gerar um resíduo que fica milhares anos no meio ambiente”

Com planos para ampliar o volume produzido, diversificar a clientela (já conquistou mais dois clientes), e, finalmente, poder levar todo o negócio para dentro do Polo Vidreiro de Pernambuco, a empreendedora também conseguiu estabelecer uma cooperativa de catadores junto ao centro espírita que frequenta. Lá, com este projeto, cerca de 40 pessoas conseguem infraestrutura para gerar uma renda importante para suas famílias.

Há quatro anos à frente de uma empreitada que se mostrou complexa e que exigiu de Juliana forças que ela nem sabia que tinha, a jovem reflete sobre esta jornada. “Me preparei para algo que eu nem tinha muita noção do que era e as coisas foram acontecendo. Realmente gosto do que faço, então isso é natural”, diz, e prossegue: “Acho que alguma coisa vai dar muito certo. Não que não tenha dado, mas algo vai dar muito mais certo e vou conseguir ter minha vida aqui e também minha vida em São Paulo”. Brilha, Juliana.

DRAFT CARD

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  • Projeto: Nova Brasil Ambiental
  • O que faz: Reciclagem de vidro comum e vidro laminado
  • Sócio(s): Juliana Maia
  • Funcionários: 4 (incluindo Juliana)
  • Sede: Paulista (PE)
  • Início das atividades: 2013
  • Investimento inicial: R$ 100.000
  • Faturamento: R$ 300.000 (projeção para 2017)
  • Contato: jmaia@novabrasil.eco.br
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