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Nunca foi tão fácil – e barato – publicar um livro. Conheça o mercado da autopublicação

- 12 de julho de 2017
Raphael Secchin, da Bibliomundi: "Todos devem ter o direito e facilidade para publicar".
Raphael Secchin, da Bibliomundi: "Todos devem ter o direito e facilidade para publicar".

Janaína é uma professora de história que sempre gostou de escrever contos eróticos. Eles iam se amontando ali, no canto do quarto. Um dia, incentivada por uma amiga, decidiu reunir tudo e publicar na internet. Era dezembro de 2012, mesmo ano em que a Amazon chegava ao Brasil. Não por acaso, ela escolheu o KDP (Kindle Direct Publishing), ferramenta de autopublicação da Amazon para estrear como autora. Escolheu, também, seu nome artístico: Nana Pauvolih. Ela conta que no primeiro mês como escritora, recebeu pelas vendas do livro o equivalente a um salário de professora. Seis meses depois, quando já era um fenômeno da internet, abandonou a carreira de magistério para se dedicar em tempo integral à carreira de autora.

Nana não é um caso isolado. Assim como ela, muita gente tem o sonho de escrever um livro, mas não consegue vencer o principal obstáculo entre a produção e a publicação: a necessidade de uma editora. “As ferramentas digitais chegam para eliminar esse gargalo”, acredita Ricardo Garrido, gerente geral de conteúdo para Kindle da Amazon Brasil. Nós trabalhamos em duas pontas: no consumidor, oferecendo a leitura desse conteúdo em um produto como o Kindle, ou aplicativo do Kindle; e, na outra ponta, com o KDP, que é uma ferramenta muito simples de manejar e permite que um autor, uma pessoa que tem um livro escrito ou alguém que tem um blog, consiga em meia hora publicar um livro online, e de graça”, conta Garrido.

“Meia hora” não é força de expressão. A ferramenta é realmente amigável, assim como outras similares, como o Publique-se!, da Saraiva; e o Bibliomundi. Com uma ou outra variável, funciona assim: a pessoa faz o upload do arquivo em formato texto e um assistente virtual permite ao usuário escolher a capa, o título, o tipo de fonte (família de letra) que vai usar. No caso da Amazon, o autor escolhe até em quais países vai comercializar. “O autor decide também o valor que vai cobrar”, diz Garrido.

A liberdade no valor a ser cobrado é outro ponto comum entre as ferramentas de autopublicação. Na maioria dos casos, o modelo de negócio da empresa que oferece o serviço é a cobrança de uma participação nas vendas. Raphael Secchin, fundador da Bibliomundi, fala sobre esse tipo de acordo:

“A gente só ganha quando o autor está ganhando também. Assim, eles podem ousar em suas histórias, pois acreditamos que todo conteúdo tem sua audiência”

O segredo, portanto, é estar disponível para alcançá-la. A Bibliomundi trabalha com autores autônomos e, segundo ele, não filtra autores nem gêneros. “O mercado editorial está recheado de histórias escritores que foram recusados por diversas editoras antes de virarem sensações mundiais. Para nós, todos devem ter o direito e facilidade de se publicar, pois desta forma poderão ser encontradas as obras fora da curva”, afirma Raphael.

O aplicativo dele surgiu em 2015, mas antes disso ele já trabalhava no mercado editorial digital, com o atual sócio, Pedro Lopes. “Diariamente recebíamos pedidos de autores autônomos em busca de instruções para terem os seus e-books à venda na loja. Foi quando decidimos empreender e atender este mercado”, conta.

COMO TORNAR A AUTOPUBLICAÇÃO ALGO PROFISSIONAL

Além da autopublicação pura e simples, há um mercado surgindo especificamente para ajudar novos autores – e mesmo os já estabelecidos – na publicação digital. Até a chegada do e-book no Brasil, os quatro fundadores da e-galáxia prestavam serviço para grandes editoras como revisores, capistas, ilustradores e editores. Com a expansão do uso da tecnologia, isso mudou. Tiago Ferro, um dos sócios da editora, diz: “A chegada dos leitores digitais mostrou que este não era um produto B das editoras, que passaram a ter o mesmo cuidado que tinham no formato tradicional com a versão digital”. Ele diz que, neste momento os sócios então decidiram oferecer diretamente aos autores o serviço que ofereciam para as editoras, “mas para a publicação digital, abrindo espaço para publicações independentes”.

Um astronauta divulga a e-galaxia na última Flip. A editora vai além de oferecer a autopublicação e também ajuda autores iniciantes a se situarem no mercado.

Um astronauta divulga a e-galáxia na última Flip. A editora digital vai além de oferecer a autopublicação e também ajuda autores iniciantes a se situarem no mercado.

“Nós recebemos o autor e mostramos qual a melhor forma do livro dele ser editado. A partir daí, oferecemos algumas opções de colaboradores”, diz, e prossegue: “Fazemos o meio de campo entre o autor e os prestadores de serviços e realizamos a distribuição para as lojas. Nesta etapa, nos comportamos exatamente como uma editora tradicional”. Portanto, ao contrário do que acontece nas demais plataformas de autopublicação, aqui há um custo variável por tipo de livro, número de páginas etc. Apesar disso, Tiago exemplifica que para publicar um livro de 100 páginas, apenas com texto – sempre no formato digital, vale lembrar —, o autor vai desembolsar cerca de 3 mil reais.

O que muda, no caso, é a remuneração: o autor fica com 40% do valor de venda, a editora com 10% e a livraria online, com 50%. Na publicação tradicional, em papel, o autor normalmente fica com 10% e a editora, com 40%. Tiago fala dessa mudança de modelo, em que só permanece igual o percentual da loja:

“Na autopublicação, invertemos a proporção dos royalties porque é o autor que está financiando o próprio livro”

Nas diferentes ferramentas, esse percentual é bastante semelhante. No caso da Amazon, o autor fica com 35% do preço cobrado. “No nosso caso, se o autor optar em fazer parte do KDP Select, que é manter seu livro exclusivamente na Amazon, passa a ganhar até 70% do valor das vendas”, diz Garrido, da Amazon.

CONTROLE NA PALMA DA MÃO

Ter autonomia e controle sobre as vendas é outra vantagem de se autopublicar. Foi isso que fez a escritora Gisele Mirabai, mesmo já tendo publicado por editoras tradicionais, optar pelopelo KDP para publicar dois livros: Guerreiras de Gaia (juvenil) e Machamba – que venceu o 1º Prêmio Kindle de Literatura, realizado em dezembro do ano passado. Ela conta que escolheu a mudança principalmente porque o autor não consegue acompanhar as vendas pelas editoras tradicionais, especialmente nos primeiros títulos. “Com a autopublicação a gente acompanha a performance através de gráficos que a própria ferramenta fornece”, diz Gisele, que prepara a continuação de seu Guerreiras de Gaia. O título também está à venda também em livro físico, mas ela diz que “provavelmente” vai lançar o novo, antes, por autopublicação.

Ricardo Garrido, da Amazon, que por meio do KDP permite que um autor consiga publicar um livro online em meia hora. Sério.

Ricardo Garrido, da Amazon, que por meio do KDP permite que um autor consiga publicar um livro online em meia hora. Sério.

A venda dos livros – ou downloads – é uma métrica que as editoras evitam abordar, embora admitam que representa uma parcela “considerável” dos negócios. Segundo Adriano Tavollassi, diretor de e-commerce da Saraiva, que disponibiliza o Publique-se!, a ferramenta tem apresentado um crescimento significativo. “Quando comparamos o primeiro semestre de 2015 com o mesmo período de 2016, observamos que a plataforma teve um salto de 74% na publicação de obras. Isso mostra o potencial de crescimento nos próximos anos e a aderência dos autores, que encontraram no Publique-se! um meio de fazer seus livros chegarem ao público leitor”, diz ele.

Para se ter ideia, o Publique-se! conta com cerca de 21 mil autores cadastrados e um catálogo com mais de 11 mil livros (sempre e-books) publicados. Além disso, a plataforma recebe aproximadamente 12 milhões de acessos mensalmente. Nada mal se considerarmos que no Brasil, a tiragem média de um livro é de 3 mil exemplares. A Amazon também não revela o número de vendas pelo KDP, mas diz que na lista dos 100 livros mais vendidos na Amazon Brasil, pelo menos 30 são de autopublicação.

São números que mostram que a ferramenta chegou para ficar. E, mais importante, democratizar a leitura. “Aos poucos os autores começam a perceber que o digital não é ‘lado B’ do impresso, nem a única saída para quem não conseguiu publicar na editora tradicional. Passam a ver o digital simplesmente como outra forma de ser lido”, diz Tiago, do e-galáxia. Simples assim. Ah, e o contos da Nana estão aqui. Boa leitura.

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