“O mercado de trabalho não acolheu a mãe. Mas só seremos acolhidas quando escancararmos a verdade”

- 20 de novembro de 2015
Cinthia e as filhas Eva e Aurora. A maternidade a obrigou a repensar seu papel de profissional, de mãe e, finalmente, de mulher.
Cinthia e as filhas Eva e Aurora. A maternidade a obrigou a repensar seu papel de profissional, de mãe e, finalmente, de mulher.

 

 

por Cinthia Dalpino

 

Primeiro Ato – a profissional

Antigamente as mulheres não tinham muita opção. Casavam, tinham filhos e ficavam em casa para cuidar deles enquanto os maridos saiam para trabalhar.

Tempos mudaram, mulheres foram conquistando espaço, e também o mercado de trabalho.

Só que o mercado de trabalho não tinha mudado.

Logo, essas mulheres se anulavam de todas as maneiras, como mulheres, para conquistarem um espaço predominantemente masculino.

Adiavam a gravidez em nome da carreira, ou simplesmente criavam uma “máscara protetora” que não as fizesse perder vantagem num mercado competitivo.

Ou seja: a sensibilidade, e outras características femininas que poderiam ser grandes aliadas, acabaram sendo eliminadas. Ou melhor: sufocadas.

Criou-se o mito de que quanto menos as mulheres mostrassem a essência feminina, maiores seriam as chances de crescerem na carreira. Só que essas mulheres tiveram filhos

E esses filhos não puderam contar com elas.

O lance dessas mulheres foi voltar ao trabalho como se nada tivesse acontecido nos quatro meses de licença. Tentar “enganar” com o discurdo de que a maternidade “não tinha mudado nada em sua vida”. Que ela continuava a mesma. E a tal história, “separe a vida profissional da vida pessoal”, ficou martelando na cabeça de todo mundo. Como se as pessoas tivessem dupla identidade. E se eu não posso ser eu mesma no meu trabalho, quando sou mãe, como faço?

Assim começou a onda da terceirização da maternidade.

Mais escolas abrindo às sete da manhã e fechando às sete da noite, desde o berçário para acomodar as crianças cujas mães e pais estavam ocupados demais trabalhando.

Mais mulheres massacrando a vida e a vida dos filhos, para não perderem espaço no mercado de trabalho. Mais atividades extracurriculares para crianças ficarem ocupadas no tempo que os pais estão fora. Mais “necessidades” inventadas.

Tudo isso porque o mercado de trabalho não acolheu a mãe. E ela não tentou modificá-lo, porque percebeu, a duras penas, que se chorasse no dia em que fez o primeiro ultrassom, se levasse a foto do filho, se seu peito escorresse leite numa reunião, se ficasse sufocada com saudade da criança quando ouvisse sua voz ao telefone, se a levasse ao médico quando estivesse doente, e se a acompanhasse na escola, levasse, buscasse, seria como se a “profissional” tivesse dado espaço a um outro ser.

Um ser desconhecido no mercado de trabalho.

A mãe.

É aí que eu entro na jogada. Engravidei acreditando nisso. Que ser bem sucedida na carreira envolvia ser fria no mercado de trabalho. Já tinha trabalhado em algumas emissoras de tevê, em rádio, em internet, e visto muita coisa.

Aquilo era tão arraigado em meu subconsciente, que me repreendi quando senti vontade de chorar numa gravação, ao me ver grávida. No percurso para casa, chorei durante uma hora e meia. E achei estranho. Aquilo me desqualificaria como profissional? Chorar no ambiente de trabalho?

Por via das dúvidas, não contei para ninguém que estava grávida

Para minha surpresa, quando comuniquei minha chefe do ocorrido, ela me abraçou com felicidade. Comemorou minha gravidez. Vale lembrar que minha chefe era ninguém mais ninguém menos que a Ana Maria Braga.

Ela era mãe. Ela era mulher. Ela me entendia. E tê-la me apoiando era uma conquista e tanto.

Passei uma gravidez tranquila, me permitindo vivenciá-la. E antes de entrar em licença, surgiu uma conversa no camarim. Perguntaram quando eu voltaria de licença. Suei frio. Não tinha pensado em como seria minha vida profissional depois de ser mãe. Não queria que a maternidade interferisse no meu rendimento. Me impedisse de ser uma profissional competente. Mal queria tocar naquele assunto nas rodas de conversa.

Mas ali estava a pergunta e eu precisava responde-la o mais rápido possível.

A Ana virou-se para mim e respondeu no meu lugar: “Quando ela quiser. Ela vai levar a Eva com ela no escritório até ela ter idade de ir para a escolinha”.

 

Segundo ato – aprendendo a ser mãe

Sempre fui o tipo de mulher que colocava a carreira em primeiro lugar. Gostava de trabalhar. No trabalho era onde eu me encontrava, colocava meu talento em prática, e ainda ganhava dinheiro com isso.

Quando comecei a namorar, eu disse “você sabe que, se um dia eu tiver que escolher entre você e o trabalho, escolheria o trabalho, né?”. Rimos. Era verdade. E ele respondeu “eu sei disso”. Na minha concepção, nada nem ninguém seria capaz de me afastar do meu trabalho.

Quando Eva nasceu eu ainda era a profissional que estava de licença maternidade. Demorou um tempo para entender o que era ser mãe. Aquela entrega toda, falta de controle, sensibilidade exacerbada, amor incondicional. Tudo aquilo me tirava do eixo.

Não sabia se ia dormir naquela noite, nem se conseguiria almoçar com ela mamando 24 horas por dia. Mas estava enamorada.

Nem imaginava o que viria a seguir. Apesar de ter vontade de retornar ao trabalho, eu tinha medo. Medo de sair de perto da minha filha. Não imaginava como poderia me dividir.

Eu sabia ser uma excelente profissional. Mas queria ser uma excelente mãe, também

E não imaginava como poderia ser as duas coisas. O mito da super mulher me fazia acreditar que voltar ao trabalho era a coisa mais simples do mundo, que eu era a mesma pessoa, e que, se eu realmente quisesse me dedicar à maternidade, teria que fazer uma escolha. E ponto.

Só que a Ana fizera uma promessa. E cumpriu. Cheguei no escritório e ela tinha tirado o departamento financeiro e feito uma sala para minha filha. Um pequeno berçário com papel de parede, berço, trocador, tapete de EVA, entre outras coisas.

Aquilo era mais que um sonho. Poder trabalhar tendo minha filha ao meu lado. Eu continuava trabalhando, amamentando em livre demanda. E, com o apoio da Ana, ninguém olhava torto se eu interrompia uma reunião para ir amamentar, quando não amamentava na reunião mesmo.

Só que, vejam só que ironia: para que aquilo desse certo para mim, eu tinha contratado uma cuidadora chamada Janaina que deixava diariamente na creche os próprios filhos, de 2 e 3 anos, e retornava para casa às sete da noite.

Um certo dia, o navio naufragou.

Em prantos, a Janaina disse que ficava poucas horas por dia com os filhos. Que ela queria buscá-los na creche. Dar jantar, colocá-los para dormir. Que eles tinham apenas 2 e 3 anos. E ela tinha decidido parar de trabalhar para poder cuidar deles.

Fiquei estarrecida. Eu não imaginava que uma mãe com filhos ‘maiores’ pudesse sentir essa ausência. Logo eu que, não desgrudava da minha filha por um minuto.

Coloquei a Eva na escola. Ela estava com 1 ano. Não imaginei o que viria a seguir.

No primeiro dia, chorei. Na primeira semana fui convidada pela diretora a me retirar — porque devia ser constrangedor que uma mãe chorasse tanto no parque onde as crianças brincavam.

E, ao invés de me acostumar, sofri. “Todas as mães fazem isso”, me diziam.

Mas eu não era todas as mães. E se todas mães faziam aquilo, todas as mães estavam escondendo alguma coisa. Não era possível que fossem felizes assim.

 

Terceiro ato – a crise          

Nesse meio tempo, não consegui me readaptar ao trabalho. Chegava chorando, ficava sufocada com a possibilidade de estar longe da minha filha o dia todo, e imaginava como a Janaina tinha sofrido longe dos filhos pequenos durante os meses em que cuidara da minha filha.

Mas eu não tinha coragem de expor meu sofrimento para ninguém.

Então, tomei a decisão de largar tudo. Eu ia abrir mão da carreira e me dedicar à minha filha.

Comuniquei a Ana, que ficou surpresa e tentou me convencer a ficar. Propondo maneiras de conciliar os horários.

Mas eu estava tão dividida, como mãe e profissional, que não queria mais representar um papel. Eu queria ser eu mesma. Queria me assumir como mãe. Só não sabia que podia ser mãe no mercado de trabalho. Que podia continuar no trabalho com as características da maternidade que tinham me enriquecido como mulher. E que estas características não me desqualificavam como profissional.

 

Quarto Ato – a maternidade

Em casa, 24 horas por dia exercendo a maternidade, senti na pele o preconceito. Fora o limbo social.

Uma mãe fora do mercado de trabalho tem poucos amigos que a veem com bons olhos

Mulheres que continuavam com seus empregos também torciam o nariz quando eu contava que estava em casa com a Eva.

Isso foi uma tremenda desconstrução. Porque descobri o pior lado da maternidade ao mesmo tempo que me deliciava com a presença de minha filha. Sentia culpa por estar no parque com ela no horário em que as pessoas estavam trabalhando. E, por mais que eu não parasse um minuto do meu dia, as pessoas me viam como se eu estivesse de férias com minha filha.

Tudo bem, hoje eu não ligo para o que “as pessoas” dizem. Mas quando ecoa dentro de você, é porque você está muito mal resolvida com toda a situação.

Aí resolvi entrar de cabeça na maternidade. Engravidei novamente, tive outra filha, a Aurora, e, em casa com uma recém-nascida e uma criança de três anos, me senti sufocar. Aprender, na prática a exercer a maternidade e estar 100% disponível o tempo todo me deixava exausta.

Eu não percebia que, na tentativa de fugir da Cinthia profissional, tinha criado um outro extremo, a Cinthia mãe.

Continuavam os rótulos. Eu continuava sem entender a Cinthia mulher. Que não era nem mãe, nem profissional. E precisava do espaço dela.

Eu precisava integrar essas mulheres dentro de uma só. Precisava respeitar a profissional que amava sua profissão, e ao mesmo tempo, acolher a maternidade dentro de mim. O feminino, o humano, que tanto era sufocado no ambiente de trabalho.

E, assim, me assumi como uma pessoa só. Mas como trabalhar com duas filhas a tiracolo? As opções existentes ainda eram trabalhar feito louca para bancar uma estrutura para as crianças serem cuidadas integralmente ou ficar em casa.

Comecei a fazer uma pesquisa, e percebi que 90% das mulheres estavam no mesmo barco. As que trabalhavam estavam em conflito, porque terceirizavam o cuidado com a criança integralmente. As que estavam em casa também sentiam vontade de voltar ao trabalho, mas não viam oportunidades. Muitas acabavam empreendendo, abrindo pequenos negócios para ter o tal tempo ao lado dos filhos. Mas seria a solução? E quem não quer, não pode ou não sabe empreender? Se contenta com uma das duas opções? Ou fica em casa com os filhos ou trabalha em tempo integral sem vê-los crescerem?

Foi quando criei o Mãe At Work, para contar da minha angústia em resolver essa questão. Ao trazer isso à tona, atrai milhares de mulheres que se identificaram com a história.

Comecei a fazer freelas, de casa, por meio período, chamei a Janaina para ficar com as crianças pelas manhãs, para que eu pudesse trabalhar e para que nós duas pudéssemos ter as tardes livres com nossos filhos, e contei com o apoio da Ana para colocar o projeto no ar. Ela colocou como um canal dentro de seu site, e alavancou a audiência através das redes sociais.

Isso fez com que o projeto ganhasse forma e visibilidade. E, embora seja uma causa, ainda pretendo que seja minha fonte de renda e que uma empresa motherfriendly possa apoiá-lo para que eu possa me dedicar integralmente a ele.

Enquanto isso, sigo reunindo relatos. De mulheres que sofrem com a discriminação logo que engravidam, de outras que são hostilizadas e discriminadas no ambiente de trabalho porque têm filhos. Das que são demitidas logo que voltam de licença maternidade. Das que abriram seus negócios próprios.

A cada relato, percebo como a maternidade ainda causa estranheza no mercado de trabalho. E talvez ainda sejamos coniventes demais com isso

Quando ignoramos uma criança chorando e saímos para trabalhar, quando terceirizamos nossos filhos por tempo demais para que sintamos saudades. Quando inventamos desculpas para sair para levar a criança ao médico, ou buscar na escola.

Porque só seremos acolhidas quando escancararmos a verdade. Somos mulheres, somos mães. Somos profissionais. E temos muito orgulho de tudo isso.

 

 

Cinthia Dalpino, 33, é jornalista e criadora do Mãe At Work. Mãe da Eva e da Aurora, percebeu que a maternidade era feita de escolhas assim que se viu grávida pela primeira vez. Trabalhou com a Ana Maria Braga, com quem aprendeu muito na carreira e na vida. 

 

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