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“O que aprendi depois de largar minha empresa e investir em um negócio de impacto social”

- 24 de agosto de 2017
Maurício de Almeida Prado hoje é diretor da Plano CDE. Ele fala da mistura de planejamento e loucura que usou para abrir mão de um negócio de 12 anos, voltar a estudar e, depois, empreender em algo com mais propósito.
Maurício de Almeida Prado hoje é diretor da Plano CDE. Ele fala da mistura de planejamento e loucura que usou para abrir mão de um negócio de 12 anos, voltar a estudar e, depois, empreender em algo com mais propósito.

 

por Maurício de Almeida Prado

“Ou você é muito corajoso ou está ficando louco mesmo”. Ouvi essa frase do Aloisio, meu amigo, quando contei que ia me mudar com minha família para Londres para fazer um mestrado em Antropologia Digital. Parecia loucura mesmo, por vários motivos.

Eu tinha dedicado os últimos 12 anos de vida para o desenvolvimento de minha empresa, uma agência de comunicação que fundei com meu irmão. Desde crianças, sonhávamos em empreender e montar o nosso próprio negócio. E no momento em que a empresa estava estruturada, com uma equipe de 70 colaboradores, grandes clientes e reconhecimento do mercado, eu ia jogar tudo para o alto para estudar antropologia em Londres?

Para complicar ainda mais a minha decisão, meus dois filhos ainda eram bem pequenos, o Miguel, o caçula, estava com 1 ano, e a Isabela, com 3. A pitada final de loucura foi o prazo no qual tudo ocorreu. Em junho daquele ano, descobri esse curso de mestrado e poucos meses depois, em setembro, já embarcava com toda família para Londres. Indiscutivelmente, precisei de bastante coragem para embarcar nessa aventura. Mas é importante essa decisão não foi tomada do dia para a noite. Três anos antes eu já me sentia insatisfeito com os rumos da minha trajetória profissional.

Percebi que havia alcançado meu sonho de empreender, mas que isso não era mais o suficiente

Faltavam duas coisas. A primeira estava relacionada com o tipo de trabalho: sou uma pessoa mais analítica, mas na agência, no dia a dia, acabava sendo bastante operacional. Eu ficava realmente entusiasmado quando participava de pesquisas. Nessas horas, nem parecia que estava trabalhando, mas isso era apenas uma parte da minha rotina na agência. A segunda coisa que faltava era o propósito social. Eu me aproximava dos 40 anos e sentia cada vez mais a necessidade de fazer algo que me possibilitasse contribuir mais para o desenvolvimento da sociedade.

Com essas duas ideias em mente e uma grande insatisfação, procurei uma especialista em coaching de carreira, a Ana Raia. A contribuição dela foi marcante para eu pudesse enxergar que ainda seria possível mudar minha carreira para algo que tivesse mais a ver com meu propósito. E ao mesmo tempo conheci o conceito de negócios de impacto social e me interessei muito pelo tema. Nesse processo, concluí que gostaria de trabalhar com pesquisa ou consultoria relacionada a negócios de impacto, ou seja, conciliar a ideia de um trabalho analítico, com minha experiência empreendedora e propósito social. A ideia era ótima, porém, o difícil seria encontrar uma empresa que aliasse todos estes fatores.

Por coincidência (se é que existem coincidências), meu irmão estava fazendo uma pesquisa para o seu novo site e, ajudando-o no processo, conheci a Plano CDE. Era o lugar perfeito, certamente, para realizar minhas novas metas profissionais. Na mesma época, fiz dois cursos de antropologia em São Paulo e me interessei muito pela metodologia de etnografia em pesquisa, pela qual a Plano CDE já era reconhecida, e ambos citaram o antropólogo Daniel Miller, da UCL University College London, como uma referência no assunto.

Voltando ao meu coaching. Ana Raia trazia suas indagações provocativas: o que você faria se ganhasse na Mega Sena, se dinheiro não fosse problema? Concluí que passaria um ano fora do País fazendo mestrado em Antropologia na UCL em Londres. Logo em seguida, eu e meu irmão, que era meu sócio, acertamos com duas diretoras da agência para assumirem a empresa e ficarem com 50% do negócio. Quando fizemos as contas, a empresa tinha um dinheiro em caixa maior do que imaginávamos para ser levantado. Pronto, esse era o recurso inesperado que possibilitaria meu mestrado em Londres (apesar de ser um valor bem longe de uma Mega Sena, dava para pagar a viagem e manter uma vida simples por lá). Daí para embarcar com toda família, foram aqueles três meses de correria.

O curso foi incrível e a estada com a família em Londres trouxe vários aprendizados e uma visão mais aberta do mundo. Literalmente, saímos da zona de conforto e enfrentamos situações difíceis, sem o suporte de babás e avós, que tínhamos por aqui, mas a experiência foi inesquecível.

De volta ao Brasil, comecei a procurar as empresas de pesquisa e consultoria que trabalhavam com etnografia. Quando fui ver mais a fundo, descobri que o mercado era muito menor do que imaginava e que a maioria dos profissionais que trabalhavam com etnografia eram freelancers. Mas eu sabia que havia uma empresa que atendia todas as minhas demandas: a Plano CDE.

Após alguns contatos, a Plano CDE me chamou para fazer parte de sua equipe, pois precisavam expandir o negócio e queriam alguém com perfil empreendedor.

Na época, a empresa tinha quatro sócios e fiquei receoso de como seria ser funcionário após 12 anos sendo proprietário

Entretanto, depois de seis meses de empresa, dois sócios resolveram deixar a sociedade e comprei a participação deles. A sociedade ficou, então, comigo, mais uma sócia e um fundo de investimento em negócios sociais, a Vox Capital. Mais um ano se passou e essa sócia recebeu um convite irrecusável para trabalhar na ONU.

Eu estava há um ano e meio à frente da empresa e já entendia bem o negócio, realmente tinha muito a ver comigo e me sentia muito realizado. Porém, o desafio seria grande, pois minha sócia era reconhecida no mercado e tinha um bom relacionamento com os clientes. Como seria fazer essa transição?

Preocupado com os grandes desafios, voltei a conversar com a coaching Ana Raia, que me disse que como eu havia canalizado tanta energia em meu projeto, as “coincidências” foram acontecendo, uma atrás da outra.

Era a minha vez de assumir essa responsabilidade e mostrar a razão de tantas oportunidades se abrirem para a realização do meu sonho. Não foi um ano fácil

A empresa carregava dívidas da gestão anterior e tive que me virar sozinho. Só que, logo, percebi que eu poderia contar com pessoas. Olhei para minha equipe e vi um grande potencial em alguns profissionais, então reestruturei o time e promovi alguns deles. Mais do que isso, dei um maior protagonismo a toda equipe. Muitas vezes eles coordenavam todo o projeto, mas na hora de apresentar ao cliente, ficavam no papel de coadjuvantes. Mudei essa mentalidade e tive ótimas surpresas: talentos despontaram e mostraram todo seu potencial.

A Plano CDE precisava mostrar que era uma companhia madura e consolidada, com amplo conhecimento em pesquisa sobre o comportamento das classes CDE, e que não dependia mais de apenas uma pessoa. Após um primeiro ano de muitos desafios, com enormes obstáculos, percebemos que conseguimos obter a confiança de nossos clientes, conquistar novos e entregar projetos com aprovação e excelente avaliação de todos.

Já estou há mais de três anos à frente da Plano CDE e a empresa vem consolidando seu posicionamento de instituto de pesquisa com grande conhecimento em impacto social. Hoje somos uma empresa B e participamos ativamente deste movimento no Brasil. Ainda teremos muitos desafios para enfrentar, mas fico muito realizado em dar continuidade a essa missão. Nossa visão alia o conhecimento da antropologia, que é muito importante para as pesquisas qualitativas, com a visão quantitativa de economistas. Minha formação acadêmica, administrador e antropólogo, mescla bem essas duas visões complementares.

Sempre me pergunto: o que eu aprendi com essa história toda?

Aprendi que meus 12 anos de experiência como empreendedor foram extremamente importantes quando assumi a Plano CDE. Apesar de ser um trabalho bem diferente, a lógica do negócio é muito parecida. Já que em ambos é preciso construir uma marca, conquistar clientes, gerenciar projetos, entender a fundo as necessidades de nossos clientes, fazer análises estratégicas, entregar relatórios interessantes, em formatos modernos e, também, gerenciar a equipe de forma aberta e transparente. Tudo isso valeu para meu negócio anterior e vale agora.

Aprendi que quanto maior o desafio que enfrentamos, maior é a satisfação quando o superamos. Afinal, empreendedor de sucesso é aquele que toma porrada e não cai. Acho que aprendi a ter muita resiliência com meu negócio anterior. Gosto de lembrar a frase do Winston Churchill, duas vezes Primeiro-ministro do Reino Unido: “Sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo”.

Aprendi que empreender não basta para realização de um sonho

Hoje, muitos jovens sonham em empreender, porém é preciso investir e dedicar-se a algo que tenha a ver com seu perfil, suas aptidões e sua missão de vida. Aprendi também que ser irresponsável e louco pode valer a pena em alguns momentos da vida. Se eu tivesse avaliado a fundo o mercado para pesquisa etnográfica, é bem provável que eu tivesse desistido do meu sonho. Finalmente, aprendi que, sim, é possível manter um padrão de vida legal para minha família trabalhando com foco em propósito social.

 

 

Maurício de Almeida Prado, 44, é administrador de empresas pela FGV, fez mestrado em Antropologia pela University College London. É sócio e diretor-executivo do instituto de pesquisa focado em avaliar ações de impacto social Plano CDE.

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