O que aprendi em 4 anos numa startup, depois de 27 no mercado financeiro

- 30 de dezembro de 2016
Alberto Gonçalves Neto, fundador da Mondial Brands, fala da dificuldade de encontrar investidor, da pressão por diversificar produtos, das limitações de ser pequeno, e compartilha algumas lições.
Alberto Gonçalves Neto, fundador da Mondial Brands, fala da dificuldade de encontrar investidor, da pressão por diversificar produtos, das limitações de ser pequeno, e compartilha as lições que aprendeu.

 

por Alberto Gonçalves Neto

Minha história profissional começa em 1985, quando entrei na faculdade de Administração e iniciei no mercado financeiro como Assistente III, e vai até 2012, quando “terminei” como Superintendente Comercial. Nesse intervalo, trabalhei em diversas instituições, desde o extinto Bamerindus, até o Banco Real, o espanhol BBVA, o Bradesco e outros. Meu objetivo era um só: crescimento profissional. Por isso, nunca fiz apenas aquilo para que fui contratado. Olhava sempre a floresta, nunca só a árvore.

Diz o provérbio português que “Enquanto descansa, carrega pedra”, então, além do mercado financeiro, me tornei professor. Tenho muitos sonhos e um deles era poder fazer uma Pós-Graduação, algo que consegui realizar em 2000, na FGV-RJ. Passei a trabalhar no banco no horário comercial e a lecionar à noite, em diversas faculdades do Brasil (eu me mudava muito, por causa do banco, e sempre buscava uma faculdade para dar aula onde estivesse). Hoje, sou professor convidado e leciono Finanças na Pós-Graduação do Mackenzie, em São Paulo. Tenho prazer em passar as experiências vividas nos anos de minha carreira profissional.

Como sou neto de português e bisneto de sírio-libanês, na minha veia circula sangue e também uma célula conhecida como “hemácia empreendedora”. Depois de 27 anos no mercado financeiro, passando por compra e venda de bancos, mudanças daqui para lá, de lá para cá, em 2011 comecei a planejar minha saída do mundo corporativo.

Vislumbrava uma carreira solo. Era a veia empreendedora falando mais alto

Foi aí que, em setembro de 2012, fundamos a startup Mondial Brands, que é uma Distribuidora de produtos alimentícios orgânicos e saudáveis, com dois canais de atuação, B2B e B2C. É quando começa minha história como empreendedor. 

A Mondial Brands começou distribuindo café gourmet, em grãos, para espresso. No início era dedicação, foco, empolgação e, claro, muito trabalho. Até que um ano e meio depois, após almoçar com um grande player deste mercado, resolvi seguir o conselho que me deu: “Se você continuar neste mercado sem aumentar seu mix de produtos, vai quebrar”. A partir daí passamos a incluir vários itens em nosso mix. Mesmo assim, as coisas não andavam na velocidade que precisávamos. Tínhamos necessidade de um maior volume de vendas.

No início de 2015, iniciamos uma parceria com a Fazenda da Toca, até então uma pouco conhecida empresa de produtos orgânicos, que tem como carro chefe sucos orgânicos. Como tínhamos tido uma experiência não muito boa com outra marca de sucos antes, começamos meio desconfiados. Mas não podíamos descartar nenhuma oportunidade, pois ali poderia estar o “pulo do gato”. E, estava! Deu super certo, as vendas foram aumentando, outros fornecedores de produtos orgânicos passaram a nos procurar para distribuirmos seus produtos também.

Em paralelo, nossa equipe foi crescendo. Mudamos para uma sede maior e chegamos ao estágio atual da empresa: 800 clientes, 250 produtos em nosso catálogo e mais de 35 fornecedores. Continuamos a buscar investimento para expansão com a meta de, nos próximos cinco anos, sermos a maior distribuidora de produtos alimentícios orgânicos e saudáveis do Brasil.  

Nos últimos quatro anos, enfrentei muitos desafios e vários, mas vários, testes para saber se eu realmente era um profissional resiliente

Vivi situações como a saída do primeiro investidor, que no primeiro semestre não acreditou na operação e saiu fora. Como se não bastasse, na época, além de eu ser sócio fundador e gestor da startup, recebi as chaves de um imóvel residencial, comprado na planta quando eu ainda estava no mercado financeiro. O imóvel estava sendo entregue no piso e, como eu precisava me mudar, tive que investir toda a minha poupança na decoração. Eu estava sem garantias financeiras, mas mesmo com todos os contratempos, me sobrava vontade e eu acreditava que a startup daria certo.

Outra situação decorrente da saída do investidor foi que passei a buscar capital, inicialmente em bancos, para manter a operação de pé até que chegássemos ao break-even. Mas, com o faturamento baixo, nosso limite era pequeno, nos restringindo ao crescimento, e as taxas eram muito altas. Não tínhamos escolha: passamos a buscar no mercado um outro investidor.

Em abril de 2015, por meio de um site que conecta startups a investidores, fizemos uma pequena captação, num momento muito delicado para a empresa. Depois desse investimento, fomos destaque na mídia, mas o crescimento nos empurrava a buscar mais capital. Chegamos a tentar uma operação de crowdfunding. Cadastramos uma campanha, mas não atingimos o valor total solicitado. Após alguns meses, abrimos mão do valor arrecadados e decidi que voltaria a captar em outro momento.

Com o foco em orgânicos e saudáveis, o faturamento da Mondial Brands começava a decolar. Nessa época o destaque que tivemos na mídia chamou a atenção de um grande fundo de investimento brasileiro, que nos convidou para uma conversa. O fundo atuava em grandes empresas, o que não era o nosso caso, então só participamos de uma pesquisa, realizada por eles, para saber como estava o mercado.

A gestão de uma startup é uma verdadeira montanha-russa de situações e sentimentos

Um dia seu negócio bomba de faturar, no outro nem tanto. Um dia sua equipe está ali firme e forte, no outro um funcionário com função estratégica operacional falta e você fica sem saber o que fazer, já que a equipe é muito enxuta.

As diversas situações que acontecem no cotidiano da startup fizeram com que eu parasse para refletir sobre uma questão: que legado posso deixar para aqueles que querem empreender no Brasil?

Essa reflexão foi o impulso para que começasse a escrever um diário contando os acertos, erros, vitórias, derrotas, conquistas, momentos de ansiedade, descontração, entre outros, que acontecem na Mondial Brands. Logo, vão estar em um livro. Além dessas histórias, o meu dia a dia como gestor fez com que eu aprendesse lições importantes que podem levar uma startup ao sucesso ou ao fracasso. Abaixo, adianto algumas dicas que também vão fazer parte desse livro.

1) Planeje, execute, execute, execute.

2) Não desista dos seus sonhos.

3) Como empreendedor é necessário estar ligado 24 horas no seu negócio, sempre pensando em como melhorar e aumentar vendas e resultado.

4) Procure estar atento e participativo no mercado. Não fique trancado no escritório. Saia e veja o que está acontecendo.

5) Busque por especialistas que possam auxiliá-lo. Afinal, ninguém sabe tudo.

6) Não insista em um negócio apenas pelo romantismo. Analise a viabilidade sempre.

7) A mudança é importante em nossa vida, portanto, não tenha receio em mudar.

8) Para ser um excelente empreendedor você precisa abrir mão de muitas coisas que têm hoje.

9) Não pense que vai ganhar dinheiro e fazer sucesso nos primeiros meses ou anos. O trabalho é árduo.

10) Você é a mola propulsora do seu negócio, mas aprenda a delegar, caso contrário não sairá do lugar.

Esse será o meu primeiro livro. Busquei me informar com algumas pessoas que já haviam publicado e com outras do segmento para saber como deveria proceder, mas o retorno não foi dos melhores. Mesmo assim, não desisti. Fui atrás de outros profissionais da área que pudessem me ajudar e me apoiar na ideia. Consegui evoluir bastante e, em pouco tempo, tive o sinal positivo de uma editora.

Pretendo, com a obra, deixar meu legado para o empreendedorismo brasileiro contribuindo de uma forma simples, clara e que vai fazer com que o leitor possa entender o que é empreender no Brasil.

 

Alberto Gonçalves Neto, 52, é sócio gestor da Mondial Brands, especializada na venda e distribuição de produtos alimentícios orgânicos e saudáveis, com atuação B2B e B2C.