O que há de bom e o que falta ao Google Campus, em São Paulo, que já é uma referência para empreendedores

- 8 de setembro de 2016
O espaço de trabalho compartilhado do Google abriu em São Paulo há três meses. A tecnologia, a gratuidade a estrutura física impressionam, mas ainda não dá para dizer que a comunidade é integrada.
O espaço de trabalho compartilhado do Google abriu em São Paulo há três meses. A tecnologia, a gratuidade a estrutura física impressionam, mas ainda não dá para dizer que a comunidade é integrada (foto: Rafael Nepô).

Há cerca de três meses, no dia 13 de junho, o Google abriu as portas do tão esperado Google Campus São Paulo, o primeiro campus da América Latina. São seis andares de um prédio na Rua Oscar Porto, número 70, Paraíso, zona sul, próximo ao metrô Brigadeiro. Algumas coisas a gente pode ver entrando no prédio: a estrutura, as pessoas, a movimentação, a dinâmica de funcionamento. Mas outras, só vivendo o dia a dia do Campus com um olhar mais apurado. Passei alguns dias lá para contar aqui o que só dá para sentir na pele.

O primeiro impacto vem da estrutura e do funcionamento do lugar. Uma construção verde, que conta com torneiras econômicas, uso de materiais e móveis regionais e de conteúdo reciclado, automação do sistema de condicionamento e iluminação, entre outras coisas. Já no térreo, a recepção confere seu cadastro feito pelo site (basta entrar e indicar nome, email e informações sobre sua área de atuação) e te dá um crachá permanente de visitante. O acesso é permitido a qualquer pessoa, de segunda à sexta, das 9h às 19h.

Passando a catraca, os elevadores dão acesso a seis andares e dois subsolos. As áreas principais, abertas a todos, estão no quinto e sexto andares. O quinto tem uma área de trabalho, composta por uma bancada e cadeiras, uma “área de silêncio”, com mesas e cadeiras, além de cabines fechadas para skypes e ligações com isolamento acústico. Também ali, uma área ampla divide espaços com um sofá cheio de almofadas, sinuca, pebolim e tiro ao alvo. A internet — nem precisa dizer — é poderosa: três redes de wi-fi com uma velocidade de 100Mb, segundo o meu teste online. O sexto andar abriga um café, o Sofá Café, uma área de mesas e cadeiras e um terraço semi-aberto, com bancos de madeira e balcões.

É BEM LEGAL, E POR ISSO VIVE CHEIO

Todos os dias em que estive por lá, esses espaços de trabalho estavam lotados. Para se acomodar e encontrar uma tomada disponível, por exemplo, é preciso uma certa paciência. Se você estiver sozinho, a saga é mais fácil. De manhã, os lugares também são mais abundantes. Já em grupo ou a partir da hora do almoço, o Campus fica bem mais cheio e barulhento.

Os espaços compartilhados são bem equipados, e vivem cheios.

Os espaços compartilhados são bem decorados e bem equipados, até por isso, vivem cheios (foto: Rafael Nepô).

Além desses espaços de trabalho, as estrelas do Campus são um auditório no térreo e um espaço de workshops no quarto andar. O auditório é amplo (para cerca de 100 pessoas) e equipado com tudo que alguém poderia querer para organizar um evento ou uma palestra: tela wide-screen, microfones de lapela, head-sets e microfones de bastão, além de uma cabine de controle de som e vídeo na parte de cima. “Esse é o auditório dos sonhos”, diz Rafel Nepô, 30, designer, fotógrafo e empreendedor da área de educação e novas tecnologias, frequentador do Campus.

O auditório tem uma estrutura completa para transmitir eventos ao vivo, com câmera de 180 graus com zoom voltada para o público e controlada da cabine, e uma câmera para os palestrantes. “A estrutura de transmissão online é incrível e o equipamento é todo importado. Uma das coisas mais legais do Campus”, conta Luiz Leão, 34, course manager da plataforma de cursos online Udacity, integrante da Google Developer Group (grupo de entusiastas em tecnologias Google), parte da comunidade de voluntários do Campus e também parceiro do Google em suportes para streamings ao vivo.

Para usar o auditório, basta mandar um email com a proposta do seu evento para a equipe do Campus, que faz uma avaliação rápida através de um critério simples — basta que o evento seja voltado para a comunidade empreendedora. A agenda, atualmente, está com a lotação preenchida pelo próximo mês. O mesmo processo vale para usar a sala de workshops, no quarto andar. Esta é um pouco mais simples: abriga cerca de 50 pessoas e também conta com projetor e um espaço modular, com cadeiras e mesas desmontáveis, para permitir tipos diferentes de eventos.

HÁ AMPLO APOIO PARA A COMUNIDADE EMPREENDEDORA

Não há custo nenhum para usar esses espaços. Se o evento precisar de coffee break, este fica por conta do realizador, e o fornecimento tem de ser feito por uma das empresas de catering parceiras, indicadas pelo Google, que faz isso para tentar manter um padrão de qualidade no serviço.

Os eventos aprovados vão todos para o ar no site do Campus e usam plataformas externas de inscrições e pagamentos, como o Eventbrite e o Sympla. As inscrições têm se esgotado em cerca de 24 horas a partir da publicação de cada evento, ou seja, além da estrutura para realização, o site do Campus acaba servindo como meio de divulgação.

Uma dica de insider: se você quiser muito participar de um evento e não conseguir se inscrever a tempo, vá até o Campus com pelo menos 1 hora de antecedência. As vagas que sobram são liberadas para quem está esperando, por ordem de chegada.

A sinalização é onipresente e a organização tenta conduzir o uso do espaço: um desafio permanente entre ordem e espontaneidade.

A sinalização é onipresente e tenta conduzir o uso do espaço: um desafio permanente entre ordem e espontaneidade (foto: Rafael Nepô).

Olhando para o público do Campus, vemos empreendedores de todas as idades, mas prioritariamente quem está na faixa de 20 a 45 anos. Não há crianças circulando pelo espaço nem cantinhos dedicados a elas, além da sala de amamentação disponível no quarto andar do prédio.

“Aqui é cheio e agitado, fica difícil trazer crianças. De qualquer modo, paras as mães empreendedoras, é ótimo ter um lugar como esse: gratuito, aberto, cheio de pessoas e possibilidades de respiro”, conta Juliana Mariz, 42, jornalista e fundadora do Co.madre, um grupo de troca e acolhimento para mães empreendedoras.

No último dia 22, o Campus abriu inscrições para o Campus for Moms, um curso “baby-friendly” para ajudar mães e pais a tirar suas ideias do papel e empreender. A equipe de organizadores informou que a estrutura do prédio será adaptada para receber crianças de até 18 meses. A diversidade é um ponto forte do Campus e a preocupação em acolher a todos também. Fábio Santos, 29, consultor de projetos, fala sobre isso:

“Nunca vi um público tão variado num coworking antes. Tem desde pessoas com iniciativas bem incipientes até negócios em fases bem mais avançadas de operação”

Além dos andares abertos ao público em geral, os três primeiros andares do prédio são dedicados aos chamados “residentes”. Segundo o time do Google, residentes são as startups com potencial de alto impacto social e de negócio, com modelos de atuação ou tecnologias únicas e disruptivas, selecionadas através de um programa do Google.

O primeiro grupo de residentes tem 15 startups bem diferentes, selecionadas entre 857 candidatas, entre elas: Bliive, plataforma colaborativa que conecta pessoas para usem o tempo como moeda para a troca de serviços e habilidades e a Scicrop, startup de tecnologia voltada para o agronegócio.

Esses residentes ficarão no Campus por seis meses. Durante este tempo, terão acesso aos melhores recursos de lá: de workshops e treinamentos exclusivos até mentoria e suporte de executivos e profissionais do Google. A data de inscrições para a segunda turma de residentes, de 2017, será anunciada ainda este ano. Os andares reservados para os residentes também acolhem alguns programas parceiros do Google, como o Startup Farm, TechStars e a aceleradora Launchpad Accelerator. Para estes, o acesso ao prédio é irrestrito: 24 horas por dia, 7 dias por semana.

COISAS QUE A GENTE SÓ SABE VIVENCIANDO O CAMPUS

O Campus é um espaço aberto de trabalho compartilhado, semelhante a um coworking, mas não é um espaço colaborativo e nem se parece, ao menos por enquanto, ser uma comunidade integrada. Esta é uma impressão que tive, até por comparação à minha experiência pessoal de empreender e atuar em rede — com o Cinese e, atualmente, com a Comum —, e de ter vivido e acompanhado o ciclo da comunidade Laboriosa89.

O uso do Campus é livre e a administração é centralizada por uma equipe do Google. Toda a dinâmica do lugar, assim como a organização dos ambientes, comunica algo: há regras claras e  pouco espaço para criar, inventar, ocupar com liberdade e, até mesmo, interagir. A área de balanços, no quinto andar, por exemplo, tem uma placa que diz: “evite balançar”. Em geral, espera-se silêncio e todas as áreas têm indicações claras ou sutis de como devem ser usadas.

O painel "ofereço, procuro" é uma tentativa de aproximar as pessoas para uma comunidade.

O painel “ofereço e procuro” é uma tentativa de aproximar as pessoas para uma comunidade (foto: Rafael Nepô).

Poucos espaços convidam as pessoas para a interação, como a área de lazer do quinto andar, com pebolim e sinuca. As outras tentativas são limitadas, como, por exemplo, o painel “ofereço e procuro”, que coleciona milhares de cartões de visita sobrepostos, numa estratégia visualmente impactante, mas que conta pouco sobre as pessoas por trás deles e as habilidades que elas oferecem. Mas mesmo essa área não parece contar com uma renovação frequente, que poderia dar espaço a novos projetos e pessoas.

Como resultado, as pessoas se restringem aos seus grupos de trabalho ou à concentração individual. Não se conhecem, não conversam, não se apresentam e potencializam seus projetos como poderiam. Não há tanto incentivo à troca e circulação de conhecimento — se ela acontece, é um acidente de percurso.

O DESAFIO DE CRIAR PERTENCIMENTO

A interação real acontece, ironicamente, nos bares e estabelecimentos ao redor do Campus, como a padaria e restaurante Porto Caires, na esquina da Rua Oscar Porto com a Rua Manoel da Nóbrega, onde grande parte dos frequentadores do Campus vai almoçar, lanchar e fazer um happy hour.

Um espaço realmente colaborativo precisa ser pensado para isso, ou seja, ter a intenção clara de conectar pessoas e ideias. Isso se faz espacialmente, mas não só. A forma como o espaço é ocupado materialmente e a estrutura de administração e controle influenciam muito no modo como as pessoas se comportam e interagem ou não entre si.

Se a administração do espaço é centralizada e curada por uma equipe, ou, ainda, se não há incentivo para que as pessoas se apropriem do lugar, há grandes chances de haver menor comprometimento delas em cuidar desse espaço. Não à toa, ao sentar nas áreas de trabalho do sexto andar do Campus, por exemplo, é comum se deparar com xícaras usadas de café e embalagens de produtos da lanchonete. Em um local colaborativo as pessoas se sentem responsáveis pelo todo, pela manutenção dos espaços comuns.

Uma comunidade precisa de um trabalho focado para se construir. Não basta um espaço que una as pessoas

É necessário que elas descubram a cola entre elas e produzam coisas juntas. Elas precisam de espaços, atividades, processos e interações para se conhecer e, a partir daí, potencializar trocas e criar em conjunto.

Ideias simples poderiam abrir espaço para mais encontros e conexões no Campus. Áreas de descanso mais modulares e sem restrições de uso, por exemplo, ou áreas com placas que incentivassem e facilitassem a interação, como “busco alguém/um grupo”, “conheça pessoas aqui” ou até “apresente/conheça um projeto”. Para além do espaço, o Campus poderia proporcionar encontros temáticos, workshops e grupos, pontuais ou frequentes, facilitados de forma a provocar interações entre os empreendedores.

De qualquer modo, o Campus é uma iniciativa importante de fomento da comunidade empreendedora brasileira. Vemos um movimento nacional, onde cada vez mais espaços nascem propondo um processo menos individual e mais coletivo de trabalho (coworkings, casas colaborativas, cafés e empresas abrigando startups e abrindo suas portas ao público). Nesse contexto, o Campus veio para ser uma referência, um centro agregador. E, com pouquíssimo tempo de vida, já está cumprindo sua missão.

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