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O que o mundo da música pode ensinar ao mundo dos negócios

- 2 de dezembro de 2015
O jornalista Ricardo Alexandre encontrou um novo formato para fazer jornalismo: palestras. E conta como histórias protagonizadas por Paul McCartney, Titãs e Miles Davis estão impregnadas de conceitos sobre vocação, cooperação, liderança e propósito. (Foto: Daniel Lenço.)
O jornalista Ricardo Alexandre encontrou um novo formato para fazer jornalismo: palestras. E conta como histórias protagonizadas por Paul McCartney, Titãs e Miles Davis estão impregnadas de conceitos sobre vocação, cooperação, liderança e propósito. (Foto: Daniel Lenço.)

“O que faz um jornalista?” – era, naturalmente, uma pergunta retórica, mas suspensa naqueles segundos planejados para dar cadência à palestra, permitiu que eu corresse a vista pela plateia, e enxergasse todas aquelas sobrancelhas arqueando, os olhos escaneando memórias recentes sobre, afinal, o que faz, o que tem feito, um jornalista.

Destruir reputações, evitar um golpe da elite branca, espalhar boatos, derrubar o governo bolchevique. OK, suspense encerrado, já é tempo de esclarecer: “Um jornalista entrevista, estuda, entrevista de novo, extrai de sua fonte o que ela não diria em situações corriqueiras, apura, busca dados oficiais e extra-oficiais, contrapõe pontos de vista divergentes e complementares e, finalmente, escolhe a melhor plataforma, o melhor veículo para contar de maneira sedutora e provocante o que de mais relevante apurou.”

Um livro, para quem é dos livros. Uma série de rádio, para quem é do rádio. Um documentário, para quem é do audiovisual. Uma grande reportagem numa revista ou jornal. Enquanto exemplifico, é a vez da minha mente vagar, trazer de volta o frio na espinha exato de cada primeira vez em que publiquei, ao longo desses vinte e poucos anos, em todas essas mídias. Meu pensamento recupera a velocidade rapidamente para que chegue, impressionantemente a tempo, a acompanhar minha língua pontuando o final do raciocínio: “Ou, como neste caso, um jornalista escolhe contar o que apurou em uma palestra.”

É quase um fenômeno de metalinguagem. Eu, em cima do palco, com um microfone auricular conversando a respeito do significado do trabalho, vivendo diante da platéia a parte mais importante do que falava para ela. Do lado de fora daquele auditório, faz frio para as empresas jornalísticas onde construí minha carreira. Grandes corporações encolhem mês a mês, revistas e jornais tombam como se fossem estátuas de eras depostas, mas o jornalismo que defendo diante do meu público – aquele que apura, que joga luz na confusão – e a produção de conteúdo, a curadoria, o storytelling continuam mais vivos, necessários e desejados do que nunca.

Desde que, no início de 2013, deixei a direção de redação da revista Trip – ou, melhor dizendo, desde que a Trip entendeu, acertadamente, que não cabia mais em seu organograma o cargo de “diretor de redação” –, que a reinvenção e a reinterpretação do ofício se plantaram atrás da minha nuca, sisudas e impacientes como nunca haviam se mostrado.

Resolvi cercar o monstro por todos os lados: pela esquerda, em tributo à música que me conduziu ao jornalismo cultural no início dos anos 1990, criei um programa de rádio para falar e tocar música nova, de artistas desconhecidos – ao qual dei o nome de Ouve Essa, hoje transmitido semanalmente pela 89 FM de São Paulo.

E, em nome de tudo o que vivi e aprendi pelos muitos anos seguintes como gestor, cuidando de pessoas e marcas, desarmando conflitos e mediando áreas diferentes das grandes empresas, criei uma palestra, Trabalhando por Música: o que os maiores artistas de todos os tempos nos ensinam sobre equipe, liderança, vocação e criação.

Percebi desde muito cedo que o que eu estudava sobre administração e gestão – especialmente entre os iconoclastas como Gary Hamel, Dee Hock, Meg Wheatley, ou, no Brasil, Oscar Motomura – tinha sintonia muito fina com o que eu já havia estudado na história da música popular, nos bastidores das artes, nas relações entre músicos. Não era incomum que eu abordasse algum professor ou palestrante para dividir o quanto certo conceito celebrizado nos anos 1990 era idêntico a certo pensamento de Robert Fripp de 1974.

Porque a música é um espelho eficiente da vida, porque a música é a vida em si – uma “lei moral”, como dizia Platão.

E porque a visão não-ortodoxa da administração é pós-moderna o suficiente para admitir que não há comando-e-controle algum sobre o que nos cerca, sobre nossa humanidade, sobre o acaso. E faz da gestão algo muito próximo da arte – ou, no mínimo, daquilo que Erwvin McManus vai chamar de “alma artesã” do ser humano.

Quando, há alguns meses, me sentei diante da tela em branco, exatamente como me sento para escrever uma reportagem, diante da mesma angústia e solidão, estruturei Trabalhando por Música a partir de grandes canções, e, destas, os causos incríveis dos bastidores da indústria cultural e, nos ramos destes, o que de fato é diretamente relacionado com o mundo corporativo. Parte razoável das entrevistas e pesquisas vieram de uma longa reportagem que assinei para a revista Trip, numa edição especial sobre trabalho e minha própria experiência como executivo.

Com Trabalhando por Música pronta, logo nas primeiras apresentações ficou claro que as histórias protagonizadas por João Gilberto, Oasis, Miles Davis ou Mahalia Jackson ajudavam a tangenciar conceitos sobre vocação, cooperação, liderança e, especialmente, sentido de trabalho. A música esclarecia o quanto de artístico e belo há no mundo corporativo; os gurus da administração ajudavam a mostrar o quão orgânico é o que insistimos em enxergar como mecanicista; e tudo isso nos levava à reflexão e inspiração sobre como recuperar o sentido mais elevado e espiritual do trabalho.

Afinal, se Paul McCartney, no auge da adoração beatlemaníaca, pôde ser acometido por um dilema de sentido de seu trabalho, muito mais eu e você. Paul transformou seu dilema em força criativa, em desafio, não por ser o gênio que é, mas por ser humano, como nós muitas vezes nos esquecemos de ser. Ao mesmo tempo, se dançamos tanto ao som dos Titãs nas danceterias dos anos 80, talvez seja hora de notar que eles eram oito cabeças se movendo harmoniosamente em torno de uma sentença, sem líder aparente, sem opressão hierárquica, sem controle-e-comando, sem crachá, absolutamente eficazes como tradução perfeita do que Dee Hock chamou de regime “caórdico”.

(Pensando desse jeito, talvez você nunca mais ouça Õ Blesq Blom do mesmo jeito, talvez você encare seus colegas de repartição como artistas tanto como você – e ambas as possibilidades me encantam, para falar a verdade.)

“Muito obrigado” – disse eu, como devemos dizer, ao final da primeira apresentação, embaixo dos aplausos que, de certa forma, vingavam tudo aquilo em que sempre acreditei e me moveu. De que a música não serve apenas para escalar paradas de sucesso e ativar marcas na Cidade do Rock. De que o trabalho não é apenas uma troca monetária entre lucro para o acionista e remuneração para o assalariado. De que as relações pessoais são, de fato, a raiz de tudo, seja em uma orquestra sinfônica ou numa fábrica de parafusos – não é à toa que usamos termos como “harmonia” e “afinação” em ambos os universos. E de que a beleza de sermos humanos se reflete igualmente em um solo de John Coltrane, na criação de um novo produto, na decoração de um novo restaurante, no sorriso de uma recepcionista atenciosa ou no disco mais bonito de Chico Buarque.

Nossa alma é a mesma, nossa alma sempre será a mesma, só muda o instrumento que nascemos para tocar e inspirar pessoas.

 

Ricardo Alexandre, 40, é jornalista, escritor, documentarista e palestrante. Dirigiu revistas como “Época São Paulo”, “Trip” e “Bizz” e atualmente apresenta o programa “Ouve Essa” na 89FM de São Paulo. É autor, entre outros, de “Dias de luta: O Rock e o Brasil dos anos 80”, em sua quarta edição, e de “Nem vem que não tem: A vida e o veneno de Wilson Simonal”, prêmio Jabuti de melhor biografia de 2010. Seu site é o www.ricardoalexandre.jor.br e você pode contratar sua palestra aqui.

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