O teatro ajudou Patrícia a retomar o controle do diabetes

- 9 de janeiro de 2017
Patrícia, agora com a glicemia controlada: "Antes, eu agia como se não tivesse diabetes”
Patrícia, agora com a glicemia controlada: "Antes, eu agia como se não tivesse diabetes”

 

 

Foi aos nove anos de idade que a atriz Patrícia Vieira Costa, 29, natural de Tupi Paulista, descobriu que tinha diabetes, condição em que o corpo não produz ou não consegue utilizar a insulina, hormônio que controla a quantidade de glicose no sangue. Quase vinte anos depois da descoberta, ela encontraria no teatro uma ferramenta para se fortalecer e controlar a doença, abrindo uma nova janela de amizades e auto-conhecimento em sua vida.

Patrícia se recorda de ter começado a sentir os efeitos negativos do diabetes tipo 1 nas festas de final de ano, ainda criança. “Perdi peso, não conseguia comer nada”, diz. Ela se lembra que foi uma leva de bolinhos de chuva, dias antes do réveillon, que a levou à descoberta.

“Minha glicemia estava acima de 500 mg/dl. Só não fui internada porque tinha padrinhos médicos. No consultório, a médica me explicou o que era.” Começava aí uma jornada de controle e cuidados que a acompanharia por toda a vida. “É um dia após o outro”, diz a atriz, uma entre os mais de 16 milhões de brasileiros que convivem com a doença, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Patrícia conta que até por volta dos 13 anos manteve os níveis glicêmicos bem controlados. “Meus pais sempre estavam em cima. Não comia quase nada de doce.” Quando chegou à adolescência, aos poucos foi se tornando independente. “Aprendi a aplicar insulina sozinha, e no colegial já dei uma pisada na bola.” Ela passou a consumir mais doces do que até então, e a usar insulina de maneira menos regrada. “Foi na época da faculdade o maior descontrole.”

As medições de glicemia, que deveriam ser diárias, ficaram mais esparsas, e o consumo de açúcar aumentou muito. A taxa de hemoglobina glicada, usada para medir a glicemia ao longo dos meses, também subiu e Patrícia ganhou peso. “Foi uma bola de neve. Engordei 10 quilos na faculdade”, diz. “Nessa época meu organismo ainda não dava tantos sinais. Às vezes passava mal, mas o problema é que conforme a glicemia permanece alta, ela provoca lesões pelo corpo.”

Depois de se formar, Patrícia mudou-se para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde continuou a batalha para manter os níveis glicêmicos sob controle. “Encontrei uma nova médica e passei a lutar contra o peso, mas ainda era difícil. Continuava comendo muito doce e resistia ao tratamento. Descontava tudo no açúcar.” Foi quando ela se mudou para São Paulo, há cinco anos, que os sinais mais sérios da glicemia alta começaram a surgir no organismo. Mas foi também nessa época em que a arte entrou com força na vida dela, e Patrícia decidiu mudar de vez a maneira como encarava a doença.

“O teatro me ajudou a ver o quanto a vida é boa, que eu posso ser feliz fazendo o que gosto. Isso me abriu os olhos”, diz a atriz, que já interpretou personagens do romancista russo Máximo Gorki e do romeno Matéi Visniec nos palcos paulistanos. “Eu me perguntava, como é que eu vou perder algo de que gosto tanto? O teatro me deu uma força muito grande. Nunca fui tão feliz.”

Antes da retomada, Patrícia havia começado a sentir sinais de neuropatia periférica, condição em que os nervos não funcionam corretamente, e provocam sintomas como dormência nos membros, uma consequência comum do diabetes. A visão turva também sinalizou a presença de lesões oculares, outra consequência séria dos altos níveis glicêmicos por um período prolongado. “Me bateu um desespero”, diz Patrícia. Ela percebeu que algo precisava mudar drasticamente.

“Numa manhã que acordei mal, liguei para minha irmã, que me ajudou a achar uma nova médica. Foi um encontro”, conta Patrícia. “Ela tem diabetes também. Estamos juntas há menos de um ano, mas já mudei 70% da minha vida.” Ela não sente mais dormência nas pernas, e faz um tratamento a laser para curar as lesões oculares. A glicemia está controlada, e os hábitos melhoraram. “Faço exame de ponta de dedo cinco vezes ao dia. Antes, eu agia como se não tivesse diabetes.”

Os avanços tecnológicos no setor médico também têm facilitado a vida dela. “Eu tinha parado no tempo. Não fui atrás de coisas novas para me ajudar a fazer o controle”, diz Patrícia. Simultaneamente, ela iniciou uma busca espiritual e recentemente participou de um retiro de silêncio. “Para mim, a experiência da espiritualidade passa por aceitar a doença, entender como meu organismo funciona, e saber que posso ser atriz, seguir meus sonhos e realizá-los. Isso é libertador.”

 

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