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“Olá, liberdade. Adeus, férias. Você conseguiria trabalhar assim?”

- 18 de agosto de 2017
Erica de Carvalho conta o que ganhou e o que perdeu ao abrir mão do modelo de carreira tradicional. Sim, é um privilégio trabalhar viajando pelo mundo. Mas mesmo isso precisa ser conquistado.
Erica de Carvalho conta o que ganhou e o que perdeu ao abrir mão do modelo de carreira tradicional. Sim, é um privilégio trabalhar viajando pelo mundo. Mas mesmo isso precisa ser conquistado.

 

por Erica de Carvalho

O título deste artigo é uma provocação. Você trabalharia sem direito a férias? Ou, como os otimistas perguntariam: você trabalharia com total liberdade de horários, de qualquer canto do mundo, rodeado pela família ou amigos, sempre que quisesse?

Em tempos de reformas trabalhistas, quando temas como terceirização, PJ e afins estão tão em voga (e sem contar as várias influências da Nova Economia, com seus coworkings e cocriações), faço uma pequena reflexão sobre a forma que trabalho hoje.

Para entender meu modelo de trabalho hoje (assim como sobre muitas coisas na vida), faz bem olhar para trás. Comecei a trabalhar no mercado de agências de propaganda há mais ou menos 20 anos. Vim para São Paulo estudar Propaganda e Marketing na ESPM e Artes Plásticas na USP. Acabei não concluindo o curso de Artes Plásticas, porque a vontade de começar a estagiar falou mais alto. A fase dentro das agências de publicidade foi marcada por muito aprendizado, alegrias profissionais, trabalho pesado (incluindo noites e finais de semana virados em concorrências e campanhas sem prazo) e contato com pessoas que me fizeram aprender muita coisa, algumas delas que tenho a sorte de ter em minha vida até hoje.

A paixão pelas ideias e formas visuais me fez passar de estagiária e assistente a diretora de arte. E aí, outra paixão se somou à minha vida: viajar. Em todos os anos de trabalho, nunca consegui vender um único dia de férias. Ao contrário: era comum eu entrar no RH e perguntar se não dava para comprar da empresa uns diazinhos a mais de férias. E assim foi.

Entre 2003 e 2004, passei meu primeiro mês na Índia, uma jornada que transformou completamente minha forma de ver o mundo

Depois de retornar para a Índia algumas outras vezes, em 2009 tirei um semestre sabático e fui morar lá. Já tinha me apaixonado pelo yoga e pela meditação. Decidi então experimentar me ver em um ambiente completamente diferente, imersa em uma cultura milenar, trocando a jornada de trabalho em ambiente fechado, com ar condicionado, por algo mais amplo. Escolhi ser voluntária em um ashram (espécie de monastério) no Sul da Índia. Estava disposta a fazer tudo que me colocasse em contato com o novo e me tornasse um ser humano melhor: lavar o chão, descascar cebolas etc.

Acima, Erica no Butão, um dos muitos países que conheceu em sua jornada de autoconhecimento.

Acima, Erica no Butão, um dos muitos países que conheceu em sua jornada de autoconhecimento.

Mas no segundo dia fazendo seva (como é chamado este trabalho voluntário) na lavanderia, escovando golas, punhos e outras partes de roupas encardidas, descobrem que sou diretora de arte… E lá vou eu de novo pra salinha com ar condicionado. Estava decidida a dar uma domada mais forte no ego, e achava que pra isso tinha que buscar fazer trabalhos que envolvessem menos o intelecto, mas naquele momento eles precisavam muito de profissionais de design gráfico que integrassem uma equipe para trabalhar nos projetos desenvolvidos ali. Estava no ashram da mestra espiritual e humanitária Amma, em Amritapuri, reconhecida pela ONU como sede de uma das maiores obras humanitárias do planeta.

Tudo isso aconteceu bem no começo da viagem e, de repente, me vi trabalhando de 3 a 4 horas por dia com um time de pessoas superantenadas. Foi uma espécie de reciclagem profissional com gente que vinha do mundo todo e com os indianos – super à frente em tecnologias e uso de haptics (tecnologia para retorno tátil/sensitivo de comandos em dispositivos móveis). Passei por desafios curiosos, como ter que escolher tipografias para os layouts no alfabeto malaialo — que mais se parece com um conjunto de desenhos encaracolados do que com letras —, e aprender a fazer ilustrações para animações, usadas em treinamentos, utilizando os tais haptics (naquele caso, usados para cursos de ensino profissionalizante).

O melhor da experiência no ashram foi compreender o quanto o meu trabalho está ligado à minha evolução como um todo. Inclusive, espiritual

Naquela época também surgiram oportunidades de trabalhos remotos feitos diretamente com uma agência de endomarketing superlegal aqui do Brasil (eu era a unidade “Hare Baba” do grupo de comunicação deles): enquanto eu trabalhava nos projetos para empresas como Unilever e Kimberly Clark, meus clientes dormiam do outro lado do mundo, e vice-versa.

No restante do tempo, me dedicava a investigar mais sobre minha natureza, praticar yoga, meditar, nadar na piscina do ashram, estudar sânscrito e música indiana. Foi uma fase bem feliz e de muitas descobertas, principalmente porque ao tirar o trânsito e caos de São Paulo, a pressão dos chefes e a poluição do ar, pude perceber que o caos, a pressão, a poluição, tudo isso está muito mais dentro do que fora. Mesmo em meio ao maior paraíso tropical e espiritual desse planeta, eu tinha meus dias com a pá virada.

E chega a hora de voltar.

De volta à Matrix, lá vou eu de novo encarar o dia a dia de São Paulo, coordenando o departamento de criação de uma agência de publicidade juntamente com minha dupla. Naquele momento, de retorno da imersão na Índia, foi bom me sentir segura e acolhida, enraizada em uma agência que eu amava e na qual passei a ser sócia. Em algum tempo, porém, veio um certo desconforto. A experiência de trabalhar viajando, conectada a pessoas de diferentes partes do mundo, misturando em um mesmo dia atividades de lazer, estudo e contemplação, tinha acabado por semear uma vontade de mudança que não passou mais.

Depois de um tempo, passei a ter muitas indicações de pequenos e médios clientes, que queriam um trabalho de qualidade, mas sem pagar pelos altos custos que se paga pela estrutura das grandes agências. Era também um momento em que eu começava a ouvir pela primeira vez termos como inovação aberta, cocriação, modelo de negócios líquido. Sentia que se aproximava a hora de trabalhar de um jeito completamente novo – mais conectado, ágil, livre, sustentável, próximo, compartilhado e alinhado com a Nova Economia.

Dizem que, quando você não muda, a mudança se faz por si só. Com alguns tropeços, erros para converter em aprendizado, apoio de amigos e uma dose grande de energia e vontade, comecei a trilhar um caminho completamente novo. Como uma flor, que não se força a abrir – mas que de uma hora para outra já não pode continuar botão, de uma hora para a outra, chegou uma outra estação.

Não sei por quanto tempo a semente da vida profissional que tenho hoje ficou embaixo da terra, aguardando o momento certo de germinar

Pode ter sido desde 2009, pode ter sido muito antes disso. Assim como uma semente tem seu momento de romper a casca, sair daquele modelo de trabalho foi uma ruptura, com suas doses de sofrimento, despedida e desapego. Tive que deixar de lado os vários anos de convívio diário com minha dupla de criação, os “bons dias” dos colegas de trabalho, o cargo… tudo isso foi meio que como acabar um casamento – que durante muito tempo trouxe uma felicidade imensa, mas que em um dado momento passou a não fazer mais sentido.

Olá, liberdade. Adeus, férias.

Passada a fase de frio na barriga, com meses de “salário” mais baixo, caí completamente de amores pela nova fase: liberdade criativa, liberdade para aprender coisas novas, liberdade de horários, liberdade de trabalhar de qualquer lugar do mundo (experimentando desenvolver trabalhos direto de Tóquio, Genebra, Paris, Barcelona, Dubai, San Francisco, Nova York, Inhotim, Bilbao, Myanmar, Butão…) e também da casa da minha família em Rio Preto, no interior de São Paulo, entre um almoço na casa da vó e um passeio na pracinha com os sobrinhos.

MAS… e sempre tem um MAS.

Nessa nova forma de trabalhar, tive que dar adeus também às férias como eu conhecia antes, quando desligava o computador e só voltava a ler emails semanas depois — e ainda recebia salário! Isso acabou

Posso dizer que consigo trabalhar remotamente uma grande parte do ano. Mas nunca mais viajei sem meu Macbook e HDs externos a tiracolo. Nunca mais cheguei em um lugar distante sem deixar o celular conectado. E sei que ficar umas horinhas a mais na frente do laptop nos hotéis ou Airbnbs da vida, dando andamento a campanhas ou mesmo fazendo reuniões por Skype, faz parte. Mas a vista pela janela sempre faz tudo valer a pena.

Obviamente que não ter filhos, ter parentes morando longe e ser casada com alguém com asinhas nas costas – que começou a fazer viagens de aventura sozinho aos 13 anos e hoje é dono de uma produtora de viagens de conhecimento  — e de quebra ainda ter uma guru, a Amma, que faz duas grandes turnês mundiais por ano espalhando ensinamentos e abraços por vários continentes, foi fazendo com que o trabalho remoto ficasse cada vez mais presente na minha vida. E isso tudo, claro, só é possível graças à confiança dos clientes que atendo hoje e à rede de parceiros super profissionais e conectados que vem sendo tecida dia a dia.

Sabe outra grande alegria dessa forma de trabalhar? Se sentir parte de um movimento de pessoas que conciliam e equilibram melhor suas buscas, projetos pessoais e paixões com a vida profissional.

Se falta aquele “bom dia” em um departamento cheio de gente, sobram mensagens, ligações, skypes e convites para reuniões-café dos novos colegas de trabalho.

São pessoas como a Priscila Cotta, fundadora da Agência Fervo e que, entre um projeto e outro, está em Alter do Chão (PA), dando andamento à construção de sua futura casa. Já fechamos diversos projetos de comunicação juntas: ela em Floripa, eu em São Paulo; ela em “quase retiro” na Itália, eu em Montevidéu, ela da Praia da Pipa (ali sofremos um pouquinho com a conexão, mas deu tudo certo no final!), eu de sei lá onde, e assim vai.

Teria vários outros exemplos de amigos que trabalham dessa forma mais livre hoje em dia, como o Heitor Matos, programador master dos melhores que já conheci, que hoje é mestre de Tai Chi Chuan e sitarista, entre outras coisas. Tem também a Ceci (Maria Cecília Pinheiro), minha eterna dupla, que seguindo seu coração, se mudou para Des Moines, nos EUA, onde vive hoje rodeada por seus gatos, seu marido Marc, e muitos jobs de criação daqui do Brasil.

Como diria Zygmunt Bauman: “Vivemos em tempos líquidos. Nada é para durar”. Mas se essa forma de trabalhar pudesse durar para mim, juro que não acharia ruim. Porque no final, hoje em dia sinto um misto de estar sempre a postos, trabalhando full time, e de estar sempre em férias também.

Flor de Lótus.

Fui colher no oriente a inspiração para o nome de meu estúdio de criação, em uma flor símbolo da transformação da matéria em criação, aquela que nasce em águas escuras para abrir-se ao céu em pétalas delicadas e precisas. Essa flor que nasceu é minha homenagem ao amor pelo trabalho.

Aqui em São Paulo, quando não estou nos clientes ou em reuniões no espaço do estúdio, bem perto de casa, trabalho a maior parte do tempo rodeada por meu piano e meu cantinho de meditação. Conectada a uma rede de parceiros de trabalho que resolveram fazer o mesmo: trocar o ambiente corporativo tradicional e criar seus próprios espaços de trabalho. Conectada com meus clientes, que hoje são principalmente ligados à área da saúde, turismo, arte, ensino e ao universo do yoga, do ayurveda (a medicina milenar indiana) e meditação. E o melhor de tudo: muito mais conectada com o meu coração.

 

 

Erica de Carvalho, 39, é formada em Propaganda e Marketing pela ESPM. Trabalhou em diversas agências de propaganda de São Paulo e atualmente se dedica em tempo integral às criações do Estúdio Flor de Lótus, projetos em parceria com Inkuba e Agência Fervo, praticar yoga, meditar, curtir a família. E viajar pelo mundo.

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