Os fundadores do Quintal da Cachaça venderam o clube para vê-lo crescer, mas não foi fácil desgarrar

- 17 de fevereiro de 2017
Depois de meses enfrentando cancelamentos e novas tarifas do mercado, Giuliana Wolf e Thiago Tavares deram adeus ao negócio que começaram do zero.
Depois de meses enfrentando cancelamentos e novas tarifas do mercado, Giuliana Wolf e Thiago Tavares deram adeus ao negócio que começaram do zero.

Há quase dois anos, Giuliana Wolf 25 anos, e Thiago Tavares, 26, um casal de jovens empreendedores, resolveu transformar uma paixão em comum, a cachaça, em negócio. Entre viagens e visitas a alambiques, eles criaram o projeto do Quintal da Cachaça, um clube de assinaturas que entregava aos membros duas novas garrafas por mês – o “Kit Cachacier”. O vínculo deles com o universo da bebida era forte, assim como a admiração pelos produtores do destilado. Por isso, quando chegou a hora de abrir mão do sonho e abandonar o Quintal, vendido no ano passado para uma distribuidora, foi difícil separar negócio e vida pessoal. É o que eles contam agora.

Em 2015, o Draft contou a história do Quintal da Cachaça (clique na imagem para ler o texto).

Em 2015, o Draft contou a história do Quintal da Cachaça (clique na imagem para ler o texto).

A venda para a Phenix (distribuidora de bebidas com 15 anos de mercado) aconteceu quando o Quintal sofria com o cancelamento crescente de assinaturas. “Sempre perguntávamos aos clientes o motivo da desistência, e muitos diziam que estavam desempregados”, conta Giuliana.

Até o início daquele ano, o número de novos assinantes por mês superava os de cancelamentos, mas os sócios interpretaram a tendência como um sinal para mudar a estratégia do negócio e depender menos da receita advinda das assinaturas.

Não seria o único problema. Thiago conta que os preços dos Correios subiram na mesma época, e que o mercado da cachaça artesanal passou a ser tributado de maneira diferente. A tributação, que antes era fixa e tinha como referência a quantidade produzida, passou a ser sobre o valor do produto, o que aumentou o final preço das garrafas. Nestas condições, o Quintal dificilmente se manteria saudável nos meses seguintes.

Revisitando a reportagem do Draft de 2015, eles lembram que tinham uma visão a longo prazo do negócio, mas colocaram os pés no chão pouco tempo depois. Giuliana fala:”Tentamos nos planejar para manter uma operação saudável, porque era a nossa única fonte de renda”.

Como o dinheiro em caixa diminuía a cada dia, era a hora de tentar acelerar os planos. Os sócios pretendiam, além de continuar com a entrega de duas cachaças por mês aos assinantes, inaugurar um e-commerce e, depois, abrir uma distribuidora da bebida. Estas medidas dariam mais opções aos clientes mas, segundo Thiago, eles não conseguiriam colocar esses planos em prática sozinhos. Ou seja, para o negócio sobreviver seria preciso abrir mão de parte dele.

DOEU. MAS ERA VENDER OU MORRER

A busca por possíveis parceiros começou começou com uma série de reuniões, nas quais os sócios tentavam enxergar novos caminhos para o Quintal. Mas o casal não conseguia chegar a uma solução que fosse capaz de salvar a empresa e ao mesmo tempo seguir o plano inicial. Thiago fala dessa “peregrinação”:

“Fizemos oito reuniões com empresários do ramo. A cada uma, eu sentia uma fisgada no coração”

Como eles tinham apenas um ano à frente do negócio e pouca experiência, temiam que a venda do Quintal pudesse transformá-lo em um negócio sem identidade, ou sem respeito pela cachaça. “Não queria que todo o trabalho de que fizemos fosse modificado”, diz Giuliana.

Depois de seis meses de busca por uma alternativa, com o planejamento financeiro sendo colocado à prova a cada dia, eles ouviram a primeira proposta realmente tentadora. Thiago conta: “A Phenix tinha os mesmos planos para o Quintal. Então, ofereceram para comprar 100% da empresa e topamos”.

O valor da transação é confidencial (por normas contratuais), mas eles dizem que as condições foram “boas para as duas partes”. Para não se deixar levar no calor do momento e nem se perder na burocracia, o casal pediu para que Roque Wolf – o pai de Giuliana, que sempre foi o terceiro sócio do Quintal, mas ficava mais afastado da operação – ajudasse no fechamento do contrato. “Ele tinha mais experiência em vendas e nos orientou para criarmos um contrato junto com a distribuidora”, ela conta.

A venda foi concluída em junho de 2016. No mês seguinte, em julho, o Quintal da Cachaça, que nasceu no quintal da casa da família Wolf, abandonou o escritório que ocupava havia pouco mais de um ano, em Campinas (SP).

O QUE FAZER QUANDO SEU NEGÓCIO NÃO É MAIS SEU?

Descansar. “Um mês de total descompromisso com tudo.” Essa foi a primeira recompensa para os fundadores do Quintal da Cachaça após a venda da empresa, segundo Giuliana. Ela, que é jornalista de formação pela PUC-Campinas, optou por investir a sua parte do dinheiro da venda em cursos e voltar à carreira na área de comunicação. Na sequência, aceitou um emprego em uma empresa de tecnologia e design. “Nos próximos cinco anos, pelo menos, quero investir em conhecimento”, diz.

O clube segue sob a direção da distribuidora Fênix, oferecendo dois novos rótulos por mês.

O clube segue sob a direção da distribuidora Phenix, oferecendo dois novos rótulos por mês aos assinantes.

Thiago, que desde 2013 se interessa por startups de tecnologia – e já se viu encantado por palavras importadas do Vale do Silício como “IPO”, “unicórnio”, “venture capital” (como acontece com uma parte de empreendedores de primeira viagem) – ainda quer ter o próprio negócio, mas diz não ter pressa, pois concluiu que a prática é mais difícil do que a teoria.

“Tentei validar algumas ideias, mas logo vi que não eram relevantes para o mercado, mas depois de três meses buscando uma nova proposta, entendi que o melhor caminho é trabalhar em uma startup que esteja crescendo”, conta ele.

Hoje, o Quintal da Cachaça mantém não só o nome, mas a essência do que o casal fundador criou. O produto oferecido pela Phenix segue o mesmo modelo que o anterior, mas também inaugurou a loja virtual (sonhada lá atrás), onde o cliente pode comprar cachaças e vodkas buscando por região, volume e categoria. O “Kit Cachacier” permanece trazendo duas cachaças inéditas a cada mês, com folders que contam a história do produtor, mas o valor da assinatura mensal aumentou para 89 reais – em 2015, custava 59,90 reais.

AMADURECER É SABER LARGAR O OSSO

No entender dos fundadores, o balanço da história do Quintal da Cachaça é positivo. Giuliana conta que o processo de venda da empresa contribuiu para uni-los ainda mais como casal:

“Se sobrevivemos ao fechamento de uma empresa juntos, é porque tinha que ser”

Thiago diz que largar o osso não foi das experiências mais agradáveis, mas resultou em um amadurecimento do seu lado empreendedor: “O tempo de transição e de transferência de conhecimento foi essencial para desgarrarmos”.

Foram muitas lições em pouco tempo. Afinal, os dois estavam fazendo tudo pela primeira vez: começar uma empresa do zero, construir uma reputação no mercado, tentar salvar o negócio e, por fim, vê-lo sob nova direção. Para fechar o ciclo com a cabeça no lugar, eles contam qual mantra os guiou no processo: “O negócio tem que ser maior que você”. Saúde!

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