Muito além da herança musical, João Marcello Bôscoli é um empreendedor “novidadeiro” há 20 anos

- 4 de agosto de 2016
João Marcello Bôscoli, 46, já tem duas décadas de empreendedorismo e fala do que aprendeu até aqui.
João Marcello Bôscoli, 46, já tem duas décadas de empreendedorismo e fala do que aprendeu até aqui.

João Marcello Bôscoli, 46, é ser um multitarefas – e, como se não bastasse, está cheio de planos. Além de ser uma referência de conhecimento musical no país, manter uma coluna sobre música na rádio Band News FM, de fazer apresentações de prêmios, shows e documentários na TV, ele tem também uma agitada carreira como empreendedor. Essencialmente com música, mas não apenas. Agora, por exemplo, está de olho na realidade virtual, área em que atua a Panogramma, uma de suas iniciativas mais recentes, que toca com mais três sócios. Sua trajetória é marcada por esse espírito multitarefas e, também, pela tendência de montar negócios antes de haver mercado maduro para eles. É bom, mas é ruim. É encantador, mas é difícil. Para ele, no entanto, parece não haver outro caminho.

Desde 2013 no mercado, a Panogramma já tem no portfólio cerca de 160 trabalhos realizados, são captações que incluem de visitas virtuais a museus a festivais de música. João conta que o ritmo de trabalho aumentou bastante em 2014, quando o Facebook comprou a Oculus VR, fabricante de óculos de realidade virtual. “Ao entrar nesse trabalho, meu objetivo foi encontrar outra mídia para a música. É uma excelente maneira de colocar o público no ensaio e no palco e tem dado certo”, diz. A meta da empresa, ainda para este ano, é colocar no ar um canal de música em realidade virtual. E, mesmo que seja para pouca gente assistir no início, João não reclama:

“Minhas iniciativas sempre trazem coisas que sei que podem ser feitas, mas ainda não se tornaram realidade. O importante é sentir que estamos na direção da história”

A realidade virtual ainda não traz o retorno que poderia, mas o e-commerce, sim. Por isso, outro empreendimento que também é prioridade atual para João é a BandUP! Store , empresa que faz a gestão de lojas online oficiais de artistas de rock ao sertanejo universitário, nacionais e internacionais, como Beatles, Titãs, Tim Maia, Elis Regina, Madonna, Luan Santana e Anitta, entre outros. Ao todo, são mais de 100 marcas, que incluem outras não ligadas ao universo musical, como Turma da Mônica, DC Comics e Hello Kitty.

A BandUP! Store é um e-commerce de produtos licenciados que faturou 14 milhões de reais no ano passado.

A BandUP! Store é um e-commerce de produtos licenciados que faturou 14 milhões de reais no ano passado.

O negócio, que faturou 14 milhões de reais no ano passado, é uma iniciativa de João com o sócio Bruno De Marchi. Grande parte dos itens vendidos é produzida pela própria BandUP!, em uma fábrica localizada em Barra Bonita, interior de São Paulo.

“A gente ainda paga os investimentos, como uma máquina que compramos para ‘printar’ as camisetas a laser. Estamos perto do zero a zero, mas é uma empresa financeiramente saudável”, diz o multitarefas, que é multiempreendedor. Esta semana, um dos destaques do portal são produtos oficiais do blockbuster do cinema Suicide Squad (Esquadrão Suicida).

LÁ ATRÁS, TUDO COMEÇOU COM A TRAMA

João é filho do jornalista, compositor e produtor musical Ronaldo Bôscoli. Quando criança, morou com a mãe, a cantora Elis Regina (ela morreria em 1982, quando ele tinha 10 anos), na Cantareira, na zona norte de São Paulo. Mas, como conta, mesmo crescendo relativamente “afastado” do núcleo urbano, a tecnologia sempre esteve por perto – João ganhou seu primeiro walkman ainda nos anos 1970. “Sempre fui novidadeiro”, afirma. Essa característica certamente foi o que o levou a abrir seu primeiro negócio, aos 26 anos: a gravadora Trama, com os sócios André e Claudio Szajman.

“O epicentro da Trama sempre foi o estúdio e, em torno dele, montamos as outras iniciativas: a editora (que organiza e cataloga o acervo de cerca de 3 mil artistas), o selo e a divisão de internet. Lançávamos CDs com o CD-R dentro, fizemos a primeira coletânea de mp3, a primeira rede social de música do Brasil e fomos o primeiro canal diário de live streaming do mundo ”, conta ele. A alma novidadeira de João previu o fim da música como produto físico:

“Quando falávamos em parar de fazer disco, nos olhavam como românticos e malucos. Demorou de uns seis anos para ‘cair a ficha’ do mercado de que esse era o negócio”

Nesse contexto, surgiu a Trama Virtual, que funcionou de 2002 a 2013, em parceria com uma equipe que incluía o produtor Carlos Augusto Miranda. “Não tínhamos onde colocar todas as demos que recebíamos, então, criamos um espaço online para a autopublicação dos artistas”, diz João. Inusitado para a época, o negócio era difícil de ser apresentado: “Durante dois anos, eu não conseguia explicar direito para as pessoas o que era – ficou mais fácil com a chegada do MySpace”. Foi também na Trama Virtual que João inovou ao lançar o download remunerado. No esquema, os fãs podiam baixar as músicas gratuitamente, enquanto os artistas eram pagos pelos patrocinadores.

É PRECISO SABER MATAR UM NEGÓCIO

Com chegada e expansão do Facebook, porém, a taxa de crescimento da Trama Virtual começou a cair. “Os artistas continuavam publicando no site, mas ao contrário dos primeiros anos, pararam de promover o espaço. Percebi que passou a ser um lugar pelo qual eles tinham carinho, mas o que faziam mesmo era alimentar as suas páginas no Facebook”, diz. Era hora de tomar uma decisão que nunca é fácil para um empreendedor, mas cujo postergamento pode comprometer muito mais do que o seu negócio. João soube criar, teve de saber matar:

“Antes de nos tornarmos completamente irrelevantes, encerramos o projeto. Amo as coisas que faço, mas sei quando chega a hora de desapegar”

Como alguém que trabalha com o que mais gosta, a primeira dica de João para quem quer empreender é ser apaixonado pelo que faz. “Aguentei períodos de aridez e estiagem por que eu gostava muito do que fazia e tinha uma crença”, afirma. Para ele, também é importante entender que não existe trabalho solitário. Nesse ponto, ele vê um paralelo entre empreender e fazer música: “É como uma banda. Todo mundo sai em turnê junto e, para dar certo, precisa ter uma engrenagem”.

João cercado de sócios e diretores da Panogramma, seu negócio de realidade virtual.

João cercado de sócios e diretores da Panogramma, seu negócio de realidade virtual.

Outra dica que ele considera fundamental para ser feliz com o que faz é nunca trabalhar para os outros. “Claro que existem fases na vida que você faz algumas coisas por questão de sobrevivência, mas, antes de tudo, trabalhe para você. Mesmo fazendo algo que não seja seu, encontre a sua verdade ali. Ou então, caia fora assim que puder”, diz.

Por fim, calejado por suas duas décadas de empreendedor, João alerta que é preciso saber lidar com o insucesso: “Vai dar errado. Então, aprenda a lidar com isso. Eu já fiz várias coisas que não funcionaram. Claro que é importante não se desconectar da realidade, mas também é preciso ser resiliente. O que mais me dói é o aspecto pessoal. Já envelheci por causa de demissões de pessoas. Essa é a pior parte”, diz.

QUANDO A SUA ESCOLA É A BARRIGA NO BALCÃO

“Espero que mesmo quem tem três MBAs não perca a intuição.” Essa é a fala de quem, aos 11 anos, participou de um disco de João Bosco e, aos 14, fez um estágio na Globo, no Festival dos Festivais. Na época de prestar vestibular, João conta que chegou a pensar em fazer faculdade de Música, mas ao pesquisar o currículo dos cursos, percebeu não ser o que buscava. Ele tinha estudado piano e teoria musical, tocava na Banda do Zé Pretinho, já tinha produzido uma faixa para o Jorge Ben.

Pulou fora do estudo formal. Desde então, o seu “estudo” continuou no balcão e nas trocas constantes com seus parceiros de outras áreas, formações e experiências. Ele fala com os sócios diariamente e realiza reuniões de resultados uma vez por mês. “Gosto de ver e entender os números. Apesar da essência do meu trabalho, que é a produção, ser algo criativo, preciso prestar contas, administrar um budget e fazer pagamentos, por exemplo”, diz.

A rotina de João começa cedo e, até logo após o almoço, ele se dedica a questões práticas, como reuniões. Só no período da tarde, depois das 15h ou 16h, é que mergulha em assuntos que demandam concentração e certo isolamento – como os textos que escreve vez ou outra ou os arranjos musicais que cria. Ele procura voltar para casa no máximo às 21h. Quanto precisa se dedicar a treinamentos, por exemplo, ele aproveita os sábados. Já os domingos, como conta, “são bons para não fazer nada”. Sua mulher, Juliana D’Agostini, que é concertista, costuma passar na Trama algumas vezes por semana, assim como seu filho mais velho, Arthur, de 4 anos (fruto de seu casamento com a apresentadora Eliana). Ele fala do espaço:

“Aqui é um ambiente discreto, de pouca gente. Vivemos uma época de muito exibicionismo. Gosto das pessoas se perguntarem ‘será que é aqui mesmo?’”

A Trama e seus outros negócios funcionam numa casa assobradada, em Pinheiros. De fora, o muro coberto por hera e as árvores da calçada não dão a dimensão da grandeza do espaço, que além das salas de reunião, tem alguns estúdios, o maior deles com pé direito duplo e paredes revestidas de madeira. Um piano de cauda fica por ali, e acompanha João há muitos anos, carregando algumas das muitas histórias que ele gosta de contar. Aliás, estar com ele por um par de horas é sentir, também, um pouco do que é ser multitarefa e olhar, sempre, para a frente. Uma boa trama.

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