“Pensar grande é sair dos seus limites, é participar de redes e criar uma mentalidade forte de colaboração”

- 16 de novembro de 2016
Bedy Yang, a brasileira que aproxima investidores de startups mundo afora, fala da importância do ecossistema para gerar inovação, das mulheres no comando de equipes, e da colaboração para crescer (foto: reprodução GA).
Bedy Yang, a brasileira que aproxima investidores de startups mundo afora, fala da importância do ecossistema para gerar inovação, das mulheres no comando de equipes, e da colaboração para crescer (foto: reprodução GA).

Um dia típico de trabalho da empreendedora brasileira no Vale do Silício, Bedy Yang, 37, compreende sempre alguma entrevista a jornalistas, sejam eles de veículos como Exame, Folha de S.Paulo, Huffington Post, Techcrunch ou Washington Post. A conversa com o Draft foi realizada em duas etapas (a primeira, interrompida uma reunião), e por Skype, já que Bedy estava na Califórnia, no escritório da 500 Startups, o fundo de investimentos, incubadora e aceleradora da qual é sócia-diretora.

Em português (mas poderia ser chinês, língua materna, inglês ou espanhol), Bedy falou sobre a relevância do mercado brasileiro e sua influência na aceleração e no investimento de empresas do país lá fora, tanto na própria 500 Startups como na Brazil Innovators, fundada por ela em 2010 com a missão de implantar uma nova cultura de negócios e inovação no Brasil, aproximando-o Vale do Silício. Com bases em São Francisco e em São Paulo, já tem mais de 20 mil usuários, entre empreendedores, investidores, mentores, empresas e universidades.

Depois de concluir o curso de administração pela FGV, ela fez especialização em relações comerciais na Universidade da Pennsylvania e formou-se, em 2008, pelo programa Women Leaders for the World, da Global Women’s Leadership Network (GWLN). Hoje, Bedy lidera a iniciativa 500 Women Syndicate, também no Vale, focada em investir em empresas fundadas por mulheres, por ela acredita que a diversidade é importante para a inovação, além de prestar atenção especial à quantidade de mulheres na equipe antes de selecionar uma empresa.

Bedy é casada, desde 2003, com Pedro Yue, vice-presidente e gerente geral da QuinStreet Brasil & Vemm, empresa americana com filial no Brasil, que atua com plataformas de geração de leads. Ela não tem filhos e vive na ponte aérea entre São Francisco, Miami, São Paulo e o resto do mundo. Mas é no Nordeste brasileiro que moraria se tivesse uma rotina menos puxada.

Além de atender jornalistas, um dia típico de Bedy Yang compreende, ainda, dar conferências em lugares como Berkeley, Bloomberg Link, Dell Women Entrepreneur Network, Endeavor e FGV. Recentemente, ela tem procurado encaixar atividades físicas como yoga e pilates nesse mesmo dia que, claro, ainda tem as horas dedicadas às empresas que comanda.

A pergunta que fica é quantas horas têm o dia dessa brasileira no Vale do Silício. Dúvida que permanece depois da conversa, abaixo, na qual ela conta mais sobre suas estratégias e objetivos em relação ao empreendedorismo no Brasil e lá fora.

Lá atrás, em 2010, quais eram seus objetivos ao criar o Brazil Innovators?
A intenção inicial era fazer a ponte entre os empreendedores brasileiros e os investidores do Vale do Silício. Mas, rapidamente, percebi que faltava criar um ecossistema forte de empreendedores no Brasil, tanto pela dificuldade de identificá-los quanto pela falta de preparo deles para falar com os investidores daqui (dos EUA).

Não adianta ter uma ideia genial, é preciso estar dentro de um ecossistema para que ocorra a inovação

A partir daí, a ponte acontece naturalmente. Hoje, vejo que criei a Brazil Innovators porque acredito em transformação em escala e a rede é uma forma de fazer isso. É o que fazemos no Brasil.

Como está o interesse e, consequentemente, o investimento americano nas startups brasileiras com o atual momento político e econômico do Brasil?
É um pouco binário. Tem investidor que tem muito medo ou está dando um tempo, já que instabilidade é grande e faz diferença esperar seis meses ou um ano. São variáveis que não existiam no ano passado, por exemplo. Mas ainda há investidores com interesse, particularmente em empresas que estão em estágios posteriores, que já têm faturamento comprovado ou são de economia digital, que continua crescendo e acaba sendo uma bolha fora do cenário econômico e político.

Você disse que o brasileiro ainda pensa pequeno. O que seria, dentro do contexto atual, de recessão, pensar grande?
Olhar para fora do Brasil, sair do seu universo e olhar o mercado de uma forma global, mesmo que tenha sucesso no Brasil.

Pensar grande é sair dos seus limites, é participar de redes e criar uma mentalidade forte de colaboração. A colaboração gera mais sinergia

Também vejo muitos empreendedores bons saindo do Brasil agora e isso não necessariamente é uma coisa positiva.

O Brasil vai ter seu próprio Vale do Silício? O que falta para que isso aconteça?
Sim, mas é preciso transformar, de forma coletiva, a ideia de fracasso. A mentalidade do Vale é voltada para a inovação e isso significa aceitar o fracasso. Há cinco anos aconteceu um boom de empreendedorismo no Brasil e, depois, um momento de baixa. Muita gente voltou para o mercado corporativo. Por que não estão fazendo sua segunda startup? O empreendedor a quem dou mais atenção é aquele que me fala “fracassei de novo”. Outro fator importante é que o Brasil tenha fundos que investem em fundos, como os Fund of Funds, nos Estados Unidos. Poderiam ser feitos pela previdência, pelo governo, ou serem fundos soberanos. Hoje, talvez, existam uns cinco fundos no Brasil mas é preciso mais, uns 15 ou 20, porque o mercado é grande.

No Vale do Silício há um fundo, a RedPoint, que criou uma área de investimento específica para o Brasil. O que os levou a isso? Como é o interesse, em geral, dos fundos americanos no Brasil?
Isso foi há cinco anos, quando o BRIC era importante no contexto global e o Brasil  era foco de investimento em relação aos demais do grupo, por motivos diferentes. Vários fundos foram para o Brasil, não só a RedPoint, e isso foi uma reação ao momento macro, com decisão privada de cada uma das empresas. A própria 500 Startups entrou para investir no Brasil.

Qual é a maior qualidade e o maior defeito do empreendedor brasileiro?
A qualidade é que o empreendedor brasileiro é bastante resiliente, trabalha em seu negócio faça chuva ou faça sol, em situações que o empreendedor americano já teria desistido há muito tempo. O defeito seria o fato de não se comunicar tanto com as pessoas de fora do Brasil, o que faz com que alavanque menos recursos. A comunicação é muito importante, faz parte da estrutura do negócio.

Quais mercados brasileiros estão saturados? E quais, ao contrário, têm espaço para se empreender?
O mercado de e-commerce é um que tem margens baixas, ou seja, é mais difícil conseguir fazer com que o modelo de negócio fique positivo, e precisa de muito capital. Modelos de negócios que têm bastante espaço ainda são aos ligados aos que chamamos, aqui nos Estados Unidos, de software e-service, com serviços ligados à gestão. Oferecem a contratação de serviços mensais e são voltados, normalmente, para empreendedores pequenos e médios. Acho que aí ainda tem muita oportunidade.

Quem é mais criativo, o empreendedor americano ou o brasileiro?
O brasileiro é forçado a solucionar mais problemas por causa do mercado e acaba criando mais musculatura para poder ser inovador. Da mesma forma, acaba sendo mais criativo. Mas falta inovação, diversidade no ecossistema, nas equipes. Vejo equipes no Brasil — e agora vou soar feminista — que só têm homem. Eu defino a criatividade como diversidade que é o que faz com que você explore áreas que não tem.

Há um desequilíbrio muito forte, no mundo, em relação a homens e mulheres. A equidade é algo extremamente importante, estruturalmente mesmo

A questão é contribuir, batalhar para que haja equidade, gerar organizações, estruturas, deixar legados. Faço várias iniciativas, desde a levar mais fundos para o Female Founder como prestar atenção, na hora da escolha, se uma equipe tem homens e mulheres, ou se uma mulher é CEO. Um estudo do fundo de investimentos First Round mostra que equipes com mulheres geram mais resultado. Gera impacto. Diversidade é um componente muito importante para a inovação e é o que eu busco.

Você lidera a 500 Women Syndicate, focada em investir em empresas fundadas por mulheres. O Vale do Silício ainda é machista? O que tem surtido efeito para diminuir as diferenças de gênero e aumentar a diversidade no Vale?
Se você olhar historicamente, tanto no mundo de investidores como de empreendedores, a proporção ainda é bem pequena de mulheres. O que as empreendedoras me falam é que precisam demonstrar mais do que os homens que são capazes. As pessoas estão inconscientemente enviesadas na hora da tomada da decisão. Trabalho em uma organização super aberta para a liderança feminina. São quatro manager partners, dos quais eu faço parte, mas duas pessoas são mulheres.

Qual a sua opinião sobre políticas de cotas (para mulheres, negros e todas as minorias) como instrumento de diminuição da desigualdade?
Não somos contra cotas, mas elas não fazem parte da política da nossa empresa. O que fazemos é prestar bastante atenção à essa questão quando recrutamos como, por exemplo, ir a lugares que têm negros.

Qual é a principal missão na posição que você ocupa hoje na 500 Startups? E na Brazil Innovators?
É um misto, ou melhor, um equilíbrio entre conseguir impactar o maior número de pessoas e, ao mesmo tempo, ganhar dinheiro. Por isso temos um portfólio tão grande e, na Innovators, especificamente, investimos e fazemos muitos programas.

A 500 Startups aceitou uma série de startups do Brasil em seus últimos programas de aceleração e investiu em algumas. Desde que você entrou, em 2011, agregou 50 empresas, das quais metade brasileiras. Qual é o número hoje? Agregar empresas brasileiras é um objetivo?
Tenho 70 empresas no portfólio, das quais 31 são brasileiras. Agregar empresa brasileira não é um objetivo direto mas, obviamente, por eu ser brasileira, acabo olhando bastante para as startups nacionais. E o Brasil é um mercado relevante. Temos uma presença global e 30% do portfólio vêm de vários lugares do mundo.

Qual é o critério de escolha?
Olhamos as equipes, se têm boa execução, interação, vemos o que já foi implementado e, o mais importante, se conseguimos ajudar essas empresas. Fazemos uma mentoria muito forte, a empresa precisa estar pronta e disposta a receber tudo o que vamos disponibilizar.

Qual é a principal virtude que você procura em um profissional para trabalhar para você?
Ser bastante empreendedor no sentido de procurar novas iniciativas, montar novos fundos e, principalmente, que saiba executar muito bem.

E qual é o principal defeito?
Um defeito grande é quando as pessoas têm um braço um pouco curto ou acabam criando seus próprios limites, o que faz com que não consigam trazer resultados. E somos muito voltados para resultados.

Quantas horas por dia você trabalha? Descreva um dia típico.
É difícil, porque viajo muito. Num dia típico, estou indo para o aeroporto. Mas, no geral, começo às 10h, e vou trabalhar a marca, seja dando entrevista para jornalistas, seja palestrando. Depois, passo umas duas horas com a equipe, que agora cresceu e já é mais sênior, por isso preciso garantir que fale com todo mundo. Em outra parte do tempo, faço design de programas novos, fecho parcerias. E também sempre separo tempo para ficar com o empreendedor, pelo menos umas duas horas. Acabo dividindo meu tempo entre marca, equipe, executando programas e empreendedores.

E como é seu dia típico de aeroporto?
Eu divido assim:  20%, 25% do meu tempo, estou em São Francisco, 25% do meu tempo eu estou em Miami e uns 50% do meu tempo eu estou viajando entre Brasil e México. Este ano eu vou fazer um pouco mais Portugal, Espanha e Itália, basicamente o sudeste da Europa. Às vezes, acabo indo para um lugar bem randômico, mas isso quando convidam e quando consigo colocar na agenda.

O que você mudaria em sua própria rotina, se pudesse?
Tenho tentado, mas isso é bem recente, fazer um pouco mais de esporte. Sou bem ativa nos fins de semana mas, durante a semana, é difícil. Esta semana tentei yoga e um outro negócio que era um misto entre cardio e pilates. Eu tento coisas novas em várias cidades e por isso é difícil criar uma rotina, mas uma hora vou conseguir.

Onde você quer estar daqui a 10 anos?
Quero estar na 500 Startups, porque estamos criando uma plataforma realmente muito bacana, temos hoje 1 500 empresas. Consigo ver, daqui a 10 anos, estarmos impactando 10 mil pessoas globalmente, tendo fundos em várias partes do mundo.

O que você faria diferente se pudesse voltar 10 anos?
Nada. Tomei umas decisões meio radicais no passado mas, talvez por sorte, foram as decisões certas.

Você pensa em voltar a morar no Brasil? Por quê?
Não. Quero manter uma conexão com o Brasil permanente, por isso tenho uma base em São Paulo, com apartamento e escritório, assim como tenho em Miami e São Francisco. Gosto de muitos aspectos do Brasil, principalmente do mar, por isso, se não tivesse que trabalhar tanto, usaria o Nordeste como base.

Como imagina que as pessoas vão lembrar de você? Qual é o legado que você está construindo?
Estamos gerando, no Brasil, um movimento da mudança da cultura, criando uma marca do Brasil como um país de inovação, que tende cada vez mais a ser reconhecido dessa forma pelos Estados Unidos, Europa, Ásia ou por qualquer país. O desafio está no número de pessoas que impactamos, direta ou indiretamente, através do conhecimento, do acesso, do capital. Outro legado é o aumento nos números de fundos de investimentos.

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