SPONSORS:

Por que a filantropia engajada é diferente? Ela usa recursos híbridos e complexos, como faz o mercado

- 23 de novembro de 2015
Paul Shoemaker, da NESsT, explica o que é Venture Philanthropy: a filantropia engajada.
Paul Shoemaker, da NESsT, explica o que é Venture Philanthropy: a filantropia engajada.

 

por Paul Shoemaker

Para onde quer que eu viaje, é claro que as comunidades estão enfrentando grandes problemas sociais. A filantropia tradicional, do tipo de se assinar cheques, não é forte o suficiente para resolvê-los.

Em vez disso, gostaria que pensássemos sobre o que seria possível se nós contribuíssemos com nosso capital intelectual e social, bem como o nosso dinheiro; reunindo as contribuições de várias pessoas e assim fazendo contribuições mais substanciais para as organizações que estão liderando a mudança social.

Filantropia estratégica

A Venture Philanthropy reconhece que um grande programa — que ensine as crianças a ler, ajude a tirar pessoas da pobreza ou melhore os resultados de saúde — não é mais importante do que a organização responsável pela sua realização. É fundamental investir na organização e na sua capacidade. Se você quer ter programas eficazes e sustentáveis, que realmente fazem a diferença, você deve ter uma infraestrutura organizacional forte e estável para apoiá-los. Você tem que ir além do apoio financeiro e ter uma visão de longo prazo do que significa investir em soluções para os problemas globais ou locais.

As características da venture philanthropy (ou filantropia engajada ou estratégica) são: alto engajamento por parte dos doadores; financiamento plurianual personalizado; foco na construção de estruturas que permitam a uma organização de finalidade social cumprir sua missão; apoio com capital financeiro e intelectual; e uma determinação para avaliar o desempenho (para “ver o que funciona”).

O termo venture philanthropy foi cunhado na década de 1990 nos Estados Unidos, quando uma nova geração de filantropos começou a pensar em como eles poderiam ter o maior impacto possível em uma organização ou uma causa.

O modelo usa muitas das ferramentas de financiamento de capital de risco (venture capital) para apoiar as organizações numa abordagem inovadora e de alto potencial para resolver alguns de nossos problemas sociais mais difíceis e arraigados

O conceito se espalhou globalmente. Práticas específicas podem ser adaptadas às condições locais, mas mantêm o núcleo de características-chave citadas acima. Ele engloba não apenas as doações, mas investimentos de capital, empréstimos, linhas de crédito, fundos mezzanine (também chamado capital de expansão, que é o financiamento para ajudar a instituição a crescer, comprando equipamentos ou imóveis) e capital “paciente” (investimento com retorno de longo prazo).

Trata-se de mais do que dinheiro

Por favor, não me entenda mal: cheques são ótimos – e as organizações sem fins lucrativos e inovadores sociais precisam deles! Sou o primeiro a reconhecer isso. Mas às vezes as pessoas que os assinam têm habilidades que são tão ou mais úteis, e às vezes mais poderosas. Desenvolver e explorar essas habilidades é uma parte importante de uma nova organização no Brasil à qual estamos chamando de NESsT Partners.

Passei muito tempo conversando com pessoas que se sentem impotentes diante dos problemas que veem ao seu redor: há uma sensação de “O que eu poderia fazer que faria a diferença?”.

O fato é que temos muito mais com o que contribuir do que imaginamos: os indivíduos têm mais para oferecer — e não é apenas dinheiro

Vamos nos concentrar, então, na construção de relações fortes entre as pessoas que querem retribuir e as organizações sem fins lucrativos e os inovadores sociais que fazem as mudanças possíveis.

A SVP, Social Venture Partners, organização que eu fundei e na qual trabalho há mais de 17 anos é sobre mais do que se assinar um cheque: trata-se de uma parceria com as organizações sem fins lucrativos e os inovadores sociais que estão trabalhando para fazer a diferença em nossas comunidades.

Em São Paulo, estamos trabalhando com a equipe da NESsT Brasil para oferecer às pessoas a oportunidade de trazer suas habilidades profissionais e de negócios para a mesa, e colocá-los em serviço dos desafios sociais que mais preocupam os brasileiros.

Pense nesta abordagem como um banquinho de três pernas:

– A primeira perna é o capital intelectual (das organizações sociais) — o conhecimento e a compreensão de um problema específico que organizações sem fins lucrativos e os inovadores sociais trazem para resolver alguns dos problemas arraigados no Brasil.

– A segunda perna é o capital financeiro — trazido por membros do NESsT Partners para um fundo comum que fará doações para os inovadores sociais. É uma maneira eficaz e participativa de alavancar seus reais, ou dólares, para a filantropia.

– A terceira perna é o capital intelectual e social (dos partners) — é o que os membros do NESsT Partners podem trazer para os inovadores sociais.

Trabalhando lado a lado com inovadores sociais

Queremos proporcionar indivíduos talentosos e atenciosos com a oportunidade de usar seu tempo e habilidades para fortalecer negócios sociais. Nós chamamos isso de voluntariado estratégico: o objetivo é trabalhar lado a lado com organizações sociais, conectando-as com consultores voluntários qualificados que podem ajudar a levar a missão social da organização a um novo nível.

Coloque tudo isso junto, e você terá um modelo que funciona em vários níveis: ele permite que os indivíduos amplifiquem suas doações; fortalece e financia negócios e inovadores sociais e os ajuda a estender o seu alcance; e prepara comunidades para enfrentar nossos maiores desafios sociais e nossos objetivos comuns em conjunto.

Contexto Brasil – barreira ou oportunidade?

A filantropia no Brasil avançou muito nos últimos 20 anos, principalmente dentro das corporações que começaram ou aprimoraram seus institutos e fundações. A filantropia individual ou familiar, no entanto, não é algo que pertence à cultura brasileira. Seja por não haver incentivos fiscais atrativos, seja porque retribuir os ganhos não faz parte do modelo educacional do brasileiro. O fato é que tal cultura não existe e este é sempre um obstáculo a se considerar ao trabalhar com filantropia.

A filantropia engajada é uma proposta inovadora por alavancar recursos e habilidades que, somados, poderão atuar efetivamente na solução dos problemas sociais

Por ser participativo, esse modelo constrói relações de longo prazo e ao mesmo tempo proporciona a educação dos atores envolvidos trazendo aprendizados tanto para os empreendedores sociais apoiados quanto para os filantropos engajados.

O tema dos negócios sociais no Brasil, por sua vez, cresceu muito nos últimos cinco anos e isso fez com que a cada ano novas ideias de negócios fossem colocadas em prática, ampliando assim a necessidade de investimento para o estágio inicial. Negócios sociais precisam de recursos flexíveis (doações, doações retornáveis, empréstimos, equity) que combinados e aplicados no momento certo contribuirão para o seu desenvolvimento. Diferente de negócios regulares, eles levam mais tempo para atingir o seu ponto de equilíbrio e estarem prontos para expansão. Citando a NESsT em seu artigo Escalando o impacto dos negócios sociais por meio do investimento no estágio inicial:

“Os persistentes problemas de desemprego, pobreza, exclusão social, serviços sociais precários e degradação ambiental – mesmo em economias de mercado emergentes em crescimento – pedem soluções novas e inovadoras. Nem abordagens baseadas exclusivamente no mercado ou exclusivamente no setor público têm, efetivamente, confrontado esses problemas. Negócios sociais oferecem uma resposta híbrida a problemas sociais complexos. Negócios sociais abordam as barreiras sociais e econômicas que enfrentam as comunidades marginalizadas ou em desvantagem, e tentam resolvê-las usando uma abordagem baseada no mercado.”

Ou seja, para se atuar nesse mercado híbrido e complexo, necessitamos de  são também oportunidades para a inclusão de novos modelos de atuação tal como se propõe a Venture Philanthropy que é base do Programa NESsT Partners.

Combinando nossas cabeças e corações

NESsT Partners é uma oportunidade de combinar a cabeça e o coração de uma forma proposital e eficaz. Um subproduto importante é que os participantes ganharão uma compreensão real dos problemas sociais complexos que confrontam o Brasil. Lidar com esses problemas é muito mais difícil do que ter sucesso nos negócios ou em uma profissão: as razões pelas quais uma criança irá prosperar ou não são muitas e interligadas: a pobreza, o grau de acesso à educação e saúde de qualidade, a capacidade dos pais, a estabilidade da vizinhança e mais.

Construir melhores comunidades leva tempo, mas nós vamos ter uma maior chance de sucesso se unirmos nossos talentos e recursos e pesquisarmos onde podemos ser mais efetivos com a nossa contribuição para concentrarmos nossos esforços lá.

Nós já vimos resultados nas cidades onde a SVP atua, nos esforços para garantir mais crianças frequentando a pré-escola e chegando à escola prontas para aprender; mais adolescentes e jovens adultos passarem pelo ensino médio, prontos para um emprego ou para mais estudos; mais pessoas tendo acesso à formação e ao apoio que elas precisam, a fim de sustentar a família.

Já existe hoje uma rede internacional de SVPs nos Estados Unidos, Canadá, China, Índia, Japão, Coréia, Reino Unido e Austrália — no total, quase 4 000 pessoas em 39 cidades. Espero que o Brasil e o NESsT Partners façam parte desta rede internacional.

A mudança começa com você. Qual a mudança que você quer ver na sua comunidade? Quais as causas que te apaixonam?

Pense no que você pode fazer, e o que pode ser alcançado se você tiver uma rede de indivíduos que investem tempo, talento e dinheiro. Se você está com vontade de contribuir para mudar o mundo, o NESsT Partners está aqui para conectar você com as pessoas e as organizações que podem fazer a diferença.

 

 

Paul Shoemaker, 54, é presidente fundador do Social Venture Partners, uma rede global de de inovadores sociais, empreendedores, filantropos e líderes comunitários e de negócios que financiam e apoiam agentes de mudança social em quase 40 cidades e 8 países. Amanhã será lançado oficialmente no Brasil o NESsT Partners – um programa de Venture Philanthropy que pretende ser um marco para o investimento social no Brasil. (O texto foi escrito com colaboração e livre tradução da NESsT Brasil)

Veja também:

Como o Sense-Lab ajuda projetos de impacto social a se tornarem financeiramente viáveis

- 14 de novembro de 2017
A equipe do Sense-Lab (Yurik, de camiseta preta, Andreas, no meio de camiseta azul, e Lucas, de camiseta verde) com o pessoal do Instituto Favela da Paz, na zona sul de São Paulo.

A Phomenta faz gestão de fundos filantrópicos e leva profissionalismo à cadeia de organizações sociais

- 17 de abril de 2017
Em busca de unir trabalho e impacto social, Izadora Mattiello e Lorhan Caproni criaram uma organização que oferece serviços híbridos, desde auditoria social até gestão filantrópica (foto: Maria Frazão).

Como o Instituto Procomum viu o potencial de Santos para criar um circuito de inovação cidadã

- 13 de março de 2017
Co-fundada por Rodrigo Savazoni, a ONG lança projetos de transformação social que nascem na Baixada Santista, mas podem ir muito além.