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Por que virei muçulmano e o que aprendi com o Islã

- 13 de fevereiro de 2015
O jornalista Álvaro Oppermann, cujo nome também é Ibrahim Amjad, fala da sua conversão à religião de Maomé e do seu reencontro consigo mesmo
O jornalista Álvaro Oppermann, cujo nome também é Ibrahim Amjad, fala da sua conversão à religião de Maomé e do seu reencontro consigo mesmo

Por Álvaro Oppermann

Meu nome é Álvaro Oppermann. Sou brasileiro, jornalista, nasci em Porto Alegre em 1968. Vivo em São Paulo. Algumas pessoas, contudo (um monte de gente, na verdade), me conhecem por Ibrahim Amjad. Sou muçulmano. Às vezes, ainda me surpreendo com a minha conversão. Não por causa do Islã. Por minha causa mesmo. Antes do Islã, eu não era um sujeito religioso. Lá no fundo, porém, eu me sentia num estado constante de incompletude existencial. Sabia que faltava algo.

O turning point (“ponto de virada”), em que decidi buscar uma religião, aconteceu em 1997, aos 29 anos. Eu ainda morava em Porto Alegre. Lembro direitinho: eu estava estirado no sofá lendo um livro do Shankara, filósofo hindu do século VIII d.C. Ele dizia que o nascimento humano era um acontecimento extraordinário. A vida era um “bilhete premiado” que não podia ser desperdiçado. Aquilo funcionou para mim como um convite à busca da realização espiritual. Quando li esse trecho, levantei do sofá, envergonhado comigo mesmo. Por que eu não estava usufruindo como devia daquele “acontecimento extraordinário” – a minha própria existência?

À noite, fui com um amigo ao Elo Perdido, bar do Bonfim (bairro que, na época, era reduto boêmio de Porto Alegre). Eu estava perturbado. Contei a ele o que tinha acontecido. Ele me olhou sério e disse: “Cara, se tu não for atrás disso que tu tá falando, nunca mais vai ter paz na vida”. Agradeço a ele pelo conselho.

Pouco tempo depois, descobri os místicos islâmicos (Ibn ‘Arabi, Rumi, Al Jili). Surgia ali a minha fascinação com o Islã. Mas até a conversão ainda levou tempo. Ela só aconteceu quando travei conhecimento com um grupo de muçulmanos ligados ao sufismo (o esoterismo islâmico), em São Paulo. Me converti em 2003. Fiz a Shahada (o testemunho de fé) na mesquita de Santo Amaro, na capital paulista, tendo como testemunha, entre outros, o imã da mesquita (um egípcio formidável, ele mesmo um sufi).

Ao me converter, tomei a decisão de manter as minhas duas “identidades” (o Álvaro e o Ibrahim) em rígida separação. Daí em diante, minha vida pública e meu trabalho foram uma coisa – e minha vida privada e minha religião, outra. Até os meus facebooks eram separados. Por que isso? Pode soar bobo, mas o fiz por precaução. Eu era recém-casado. Tinha acabado de chegar em São Paulo (desde então, a minha cidade de adoção). Era uma preocupação de marido, de provedor. O 11 de Setembro tinha acabado de acontecer. Eu não queria problemas para a minha família. (Alguns colegas de imprensa, é verdade, sabiam da minha fé islâmica, e a respeitaram, mantendo discrição sobre ela. Sou grato a eles).

Os frutos dessa divisão de identidades na vida pessoal, contudo, foram muito ruins. Quando você mantém algo secreto em sua vida, talvez evite alguns problemas. Mas também deixa de compartilhar alegrias, sucessos, descobertas. Coisas boas que aconteciam “ao Ibrahim” não alcançavam o “Álvaro”. E vice-versa. Isso tem efeito corrosivo na alma da gente.

O Islã está associado hoje a um voluntarismo belicoso, tosco, ignorante – assassino. Porém, a primeira coisa que aprendi, na nova religião, foi a ênfase islâmica na inteligência. “Deus não deu a Seus servidores algo mais estimável do que a Inteligência”, é um dito de Ali, o genro do profeta Muhammad (sobre eles a paz). (Detesto escrever “Maomé”, termo pejorativo, derivado de “Maozin”, uma das bestas bíblicas, anunciadora do Anticristo. O termo foi cunhado (porca miseria) por Alvaro de Córdoba, um monge cristão do século IX.

No Islã, também conheci algumas das pessoas mais generosas com que cruzei na vida. Mas inteligência e generosidade de nada valem quando acompanhadas de orgulho. E nesta década, desde a minha conversão, vi casos deprimentes de pessoas que fracassaram (ou estagnaram) espiritualmente por orgulho. A soberba é a corrupção dos melhores. Dentro ou fora do Islã.

Álvaro e Ibrahim, que se separaram em 2003, só voltaram a se encontrar em 2014. Boa parte da história de como essa reconciliação aconteceu tem por cenário o Marrocos, onde passei uma longa temporada entre 2013 e 2014 – um meio cultural fascinante, e completamente diverso do nosso, aqui no Brasil. Ao retornar a São Paulo, em meados de 2014, eu estava renovado e remoçado pela experiência. Voltei a ser uma pessoa só.

No Marrocos, a canção “Milagres do Povo”, de Caetano Veloso, batia à soleira da mente a cada novo prodígio diário testemunhado (“Quem é ateu e viu milagres como eu/ Sabe que os deuses sem Deus/ Não cessam de brotar…”). Quando imaginei que aprenderia a lançar falcões em voo? (Meu professor, um menino também chamado Ibrahim, num vilarejo no Atlas – a cadeia de montanhas incrustada na África do Norte –, em que morei por alguns meses). Ou que seria recebido de braços abertos em Fez (a cidade que meu coração abraçou) por “sidi” Ibn ‘Issa, um velho ‘arif (místico), que aos 104 anos parecia estar continuamente imerso no sobrenatural?

Antes de citar Caetano, deveria mencionar Cat Stevens (“Yusuf”). É com ele que prefiro começar a história. Quando ele voltou aos palcos, com um show registrado no DVD Yusuf’s Cafe Session, eu pensei: “Que legal, o cara conseguiu harmonizar tudo em sua vida: ele é um muçulmano pleno, e um rock star pleno”. (Cat Stevens tinha abandonado o circo pop em 1979). Era 2007 e o meu comutador interno “Álvaro-Ibrahim” já estava começando a bater pino. A síntese do Cat Stevens era maravilhosa (tanto quanto, aliás, o DVD, que recomendo muitíssimo).

O que eu não me dei conta, então, é que o Cat Stevens tinha completado um ciclo em sua vida. E o meu ciclo estava só começando. No Islã, se diz que as grandes transformações interiores se dão em khalwa (“solidão”, “reclusão”). “A semente só pode germinar na obscuridade”, é um ditado árabe.

Eu vivia anos plúmbeos, que começaram com um divórcio doloroso, que enfrentei em 2007. Nesse período, minha companheira se transformou numa canção que o Cat Stevens raramente canta hoje em dia, Trouble.

Passei por exercícios de humildade, admitindo que algumas das acusações pesadas que foram feitas contra mim, nesse período, tinham muito de verdade. (E aqui uma dica: se você realmente quer crescer, ouça as pessoas que não gostam de você. É aí que você identifica o seu ponto cego, a pedra que você não está enxergando em seu sapato. Não é indolor, mas é utilíssimo.)

A primeira coisa que chamou a minha atenção no Marrocos foi o adab (a “cortesia”) dos muçulmanos. Às vezes, essa palavra também é traduzida por “etiqueta”. Porém, como me disse um amigo marroquino, Taufik, enquanto a etiqueta ocidental é em boa medida exterior à pessoa (como se fosse uma casca), o adab do muçulmano é uma atitude integral e internalizada diante da vida. É algo orgânico, um desdobramento prático da sua visão de mundo islâmica tradicional. O Taufik era professor de inglês, tinha 50 anos, e conhecia bem o Ocidente. Ele serviu de minha “interface” no Marrocos – traduzindo as coisas de lá a um ocidental moderno como eu.

E também não faltaram choques. Lembro de uma matéria que estava escrevendo, em junho de 2013. Era sobre a banda Daft Punk, a gênese e o marketing do álbum Random Access Memories (aquele do hit Get Lucky, que todo mundo já dançou em alguma festa de casamento). Terminando de revisar o texto, apertei o botão de enviar no Gmail, e saí para a rua, direto ao hamam (os deliciosos banhos públicos do mundo islâmico: quem não foi ao hamam não sabe o que é um banho). Na rua, tive um choque. Dois meninos passavam com um burrico, com cestos no lombo do bicho carregados de tâmaras. Era um cenário medieval. Não fosse alguns cartazes publicitários da Maroc Telecom, eu poderia jurar que se estava no século XII. No fim da tarde, fui à mesquita, para a oração do crepúsculo. Estava profundamente incomodado comigo mesmo. “O que eu sou, afinal? Eu estou aqui, mas não pertenço a esse mundo”. Estava com medo de ficar esquizofrênico.

Quem me ajudou muito então (e me deu como que a chave interior para solucionar o dilema), foi o “sidi” Muhammad Sa’ud. (Em tempo, “sidi”, algo como “meu senhor”, é um tratamento ao mesmo tempo formal e afetuoso da língua árabe). Aos 64 anos, ninguém, contudo, o chamava por esse nome. Ele era “sidi” Ahadun Ahad (“O Único dos Únicos”. Ahad é um dos Nomes de Deus no Islã). Essa era a sua alcunha. Era uma figura anticonvencional e polêmica. Tinha fama de taumaturgo. Muitos o consideravam louco. Não que ele cometesse qualquer ato contra a shari’a (lei islâmica), muito pelo contrário.

Mas o homem, por exemplo, era uma “chaminé”, e o cigarro, apesar de permitido no Islã, não é bem-visto. Ele gostava especialmente dos cigarros mentolados. “Minhas baforadas espantam os insinceros”, dizia. Aprendi a apreciar a sua companhia, passando longas tardes e noites em sua casa, ou em algum café. Certo dia, fitando-me intensamente, ele disse: “Eu sinto que você tem um desgosto muito grande com os brasileiros. Mas, veja bem, eles não são diferentes de nós, marroquinos. Nós somos todos seres humanos. Somos todos iguais”. Eu permaneci em silêncio.

Gostava de ouvir suas histórias e suas explicações sobre a haqiqa (a verdade profunda interior) da doutrina islâmica. Alguns de seus causos, que escutei maravilhado, beiravam o fantástico. Entusiasmado, contei alguns deles ao Taufik, num café. O meu amigo deu um sorriso condescendente. “Vejo que você tem fé cega nesse homem”, limitou-se a dizer. Nisso, o meu celular começou a tocar. Era o sidi Ahadun Ahad. “As-salamu ‘aleykum”, saudei-o. “Estava justo agora falando do senhor”. “Sim, eu sei”, disse ele. “Por favor, deixe eu falar com seu amigo”, ordenou o velho taumaturgo.

Passei o telefone pro Taufik. “Você duvidar do meu estado não é algo que me afete, e vou continuar te amando. Mas isso faz mal para você”, disse o sidi Ahadun Ahad.

Aos poucos, foi ficando claro para mim que tinha chegado a hora de deixar o Marrocos. O meu deslumbre inicial com o país também esmaecera em boa medida, ganhando um tom mais realista. Taufik já tinha me alertado para duas das moléstias do mundo islâmico: a falta de engajamento e de motivação, por um lado, e a inveja do Ocidente, de outro. A inveja, senti na carne por parte de muitos marroquinos. Por fim, o “sidi” Ahadun Ahad me incentivou a voltar ao Brasil. “Não se preocupe. Você vai levar com você a nur (a luz) do Marrocos”, ele me disse, apaziguador.

Tudo isso me ajudou a serenar o conflito “Álvaro x Ibrahim”. E tal como o velho Cat Stevens, vi que tinha chegado a minha hora de voltar aos palcos. Aqui estou.

 

Álvaro Oppermann, ou Ibrahim Amjad, 46, vive em São Paulo. Diz ele: “As citações de músicas no texto talvez tenha deixado em você a impressão de que sou crítico musical. Não sou. Desde 2003, tenho colaborado com as revistas Época Negócios, Veja, Superinteressante, VIP, Aventuras na História, entre outras, cobrindo temas variados. Em 19 de fevereiro, logo depois do Carnaval, estrearei meu blog ‘Smart Shelf – Livros, Temas e Autores de Gestão e Negócios’. Seja bem-vindo – أهلاً وسهلاً ومرحباً (‘Ahlan wa sahlan wa marhaban)”.