Quando ninguém entende o que você diz sobre o futuro, o jeito é apresentá-lo e vivê-lo

- 11 de agosto de 2016
Lente para o futuro: há dez anos Marina Miranda faz consultorias, curadorias e palestras sobre inovação.
Lente para o futuro: há dez anos Marina Miranda faz consultorias, curadorias e palestras sobre inovação.

Ao responder ao pedido de entrevista, Marina Miranda estava em um hotel no meio da Amazônia. Moradora de São Paulo, foi até lá por estar envolvida em um projeto com startups locais. Dias antes, passara por Nova York para participar de um congresso e fazer reuniões de trabalho com parceiros internacionais. Dias depois, estava em uma Startbucks na Avenida Paulista conversando com o Draft.

Esse recorte de uma quinzena do cotidiano dela sintetiza bem a sua trajetória profissional. De projeto em projeto, Marina foi construindo seu próprio espaço. A frase que acompanha a assinatura de seus e-mails confirma isso de maneira sintética: talk the talk, walk the walk. Desde 2010, ela representa no Brasil a Mutopo, uma consultoria norte-americana especializada em crowdsourcing que agrega pesquisas acadêmicas com cases inovadores para ajudar organizações a se beneficiarem de formas mais colaborativas de trabalho. Mas isso não é tudo.

“Sou uma empreendedora. E uma empreendedora cria o seu próprio mercado. Converso com pessoas e identifico oportunidades. Então, a gente pensa em projetos que caibam dentro da cultura da empresa e que sejam também parte do sonho daquele time”, ela diz. Ao definir sua profissão em 140 caracteres, Marina afirma ser “uma construtora de ecossistemas com uma visão de futuro a partir de casos de sucesso”. De fato, como consultora e palestrante, um dos principais temas que Marina aborda em seus projetos é o futuro. A estimativa de cenários que estão por vir a partir de dados e tendências atuais para entender como uma organização pode se adaptar e continuar se desenvolvendo.

SEM MEDO DE “SER ESTAGIÁRIA” PARA RECOMEÇAR

Marina Miranda nasceu em São José dos Campos (interior de São Paulo) e formou-se em Comunicação. No começo da carreira, teve uma produtora de vídeos, que fazia programas para TV onde ela própria apresentava alguns quadros. Seu negócio seguinte foi uma empresa de marketing em que, de uma forma instintiva, antecipou um formato de serviço que viria a se consolidar cerca de dez anos depois.

Marina Miranda no seu habitat natural: falando sobre crowdfunding para startups em mais um evento.

Marina Miranda no seu habitat natural: falando sobre crowdfunding para startups em mais um evento.

“Cheguei em São Paulo em 2003 e, em 2004, montei um espaço de coworking. Mas eu nem sabia que existia isso, né? Meu cliente estava na Holanda e eu tinha um espaço gigante na Consolação. Falei assim: vou trazer algumas empresas amigas, pequenas, para ficarem alojadas aqui. Assim a gente poderia fomentar mais a interação” conta.

Entre outras frentes de atuação, a empresa de Marina atendia eventos corporativos focados em inovação para grandes empresas. Ao ter contato com tantos profissionais inspiradores que participavam dos eventos, ela inevitavelmente foi se aprofundando no tema. E, analisando o futuro do seu próprio negócio, constatou que o bom momento em que se encontrava logo poderia deixar de ser realidade:

“A empresa era lucrativa e eu estava feliz. Mas, ao mesmo tempo, comecei a olhar aquele mercado e pensar: isso vai se desmontar em pouco tempo”

Ela prossegue: “Aquilo ia virar uma competição por preço e eu não queria fazer parte. Então, abri mão de uma super estabilidade para algo totalmente do zero. Não sabia no que ia dar, se ia pagar as contas, mas era aquilo que eu queria fazer”.

Marina conta que foi trabalhar “quase como uma estagiária” para poder trilhar um novo território profissional. Hoje faz dez anos que realiza consultorias, curadorias e estudos em inovação, empreendedorismo e visões de futuro. E, conforme projetava ambientes de negócios para a posteridade, um tema em especial passou a receber maior atenção da sua parte, fazendo com que Marina se tornasse referência no Brasil sobre o assunto: o crowdsourcing.

Marina Miranda também trabalha com a Campus Party desde a primeira edição, tendo sido curadora de Inovação do evento em 2015.

Marina trabalha com a Campus Party desde a primeira edição, e foi curadora de Inovação do evento em 2015.

Aqui abrimos um rápido parêntese. Para o leitor habitual do Draft, talvez não seja necessário explicar o que é crowdsourcing. Mas, caso você nunca tenha ouvido falar no assunto, aqui e aqui estão ótimos pontos de partida para entendê-lo. Vamos em frente.

Desde que trouxe a Mutopo ao Brasil, Marina vem ajudando organizações a atuarem mais colaborativamente. Entre os clientes já atendidos pela consultoria estão SEBRAE, Buscapé e Tecnisa.

Mas, se ainda hoje os termos crowdsourcing e cocriação podem ser interpretados como modismo, é de se imaginar o cenário há pouco mais de 5 anos. “Hoje é muito fácil falar do Uber, né? Queria ver falar disso em 2010.” Por conta disso, em 2011 a Mutopo organizou o primeiro Rethink Business, evento específico para debater e fortalecer esses conceitos no meio empresarial.

“Eu falava de crowdsourcing e ninguém sabia o que era. Decidi fazer um evento e convidar várias pessoas para que elas pudessem dar as suas visões sobre aquilo”

O Rethink  segue acontecendo anualmente, em São Paulo. E, neste ano, deve ocupar o espaço da Unibes Cultural em novembro. A rotina de antecipar temas sobre os quais o mercado viria a falar em seguida fez de Marina uma formadora de opinião quando o assunto é inovação. Uma especialista em mostrar aquilo que ainda não é visível, mas que pode se tornar imprescindível em curto prazo. Por conta disso, os convites para novas colaborações foram surgindo da mesma forma espontânea com que o crowdsourcing foi passando a ser a regra na Nova Economia, a ponto de hoje estar na base do modelo de negócios de empresas como Airbnb, Waze, Snapchat e Dropbox.

CROWDSOURCING NA TEORIA — E NOS PRÓPRIOS NEGÓCIOS

Marina esteve entre os organizadores do 1o Startup Weekend no Brasil e trabalha junto à Campus Party desde sua primeira edição, tendo sido curadora do evento em 2015. Por alguns anos ela também assinou uma coluna no blog da Pequenas Empresas & Grandes Negócios, onde escrevia sobre empreendedorismo.

Se por um lado Marina divulga a necessidade de colaboração e as vantagens do crowdsourcing em publicações e eventos, por outro ela aplica esses princípios como meio de viabilizar seus próprios negócios. “Desde que comecei, minha empresa é baseada em rede e crowdsourcing. Através do crowdsourcing consegui financiar projetos e conferências. Você une pessoas e empresas em torno daquele projeto, executa e depois desfaz”, conta.

Através da metodologia Crowd Envisioning, Marina e seus parceiros atendem clientes corporativos traçando cenários de futuro com possibilidades de colaboração.

Através da metodologia Crowd Envisioning, Marina e seus parceiros atendem clientes corporativos traçando cenários de futuro com possibilidades de colaboração.

Foi a partir de uma iniciativa colaborativa entre a Mutopo e a consultoria Foltigo que nos últimos anos surgiu sua mais recente frente de atuação. O Crowd Envisioning é uma metodologia que harmoniza crowdsourcing e visões de futuro. Seu primeiro projeto foi realizado para a Ampla, concessionária de distribuição de energia que atua no Rio de Janeiro.

A partir de ideias enviadas pela população cruzadas com estudos de tecnologia e consumo consciente, a ideia era construir um modelo de casa para o futuro. “A gente criava cenários de futuro, personas de futuro e validava todas essas pesquisas com o que as pessoas pensavam sobre o assunto. Foram 150 relatórios, 4 meetup’s em São Paulo e no Rio, dezenas de entrevistas. Tudo isso virou uma grande pesquisa para eles entenderem com quem vão lidar no futuro”, conta. A fase de receber ideias se encerrou no final de 2015. O próximo passo do projeto é encontrar parceiros para que essa casa seja materializada.

SAÍDAS PARA UM MODELO EM CRISE

Um dos grandes desafios atuais na indústria é como tornar as empresas mais humanas para conseguir atrair talentos e mantê-los motivados. Esse mal-estar com a própria carreira que tantos bons profissionais vêm enfrentando no mercado corporativo é o sintoma de que um modelo ficou obsoleto e precisa de mudanças. Mudanças mais profundas do que simplesmente chamar o funcionário de colaborador e colocar uma placa na recepção elencando missão e valores incoerentes com seu modo de produzir.

Nas palavras e na trajetória de Marina Miranda é possível encontrar boas saídas. Do ponto de vista dos profissionais, a capacidade de se reinventar pode ser a salvação para no futuro encontrar trabalho:

“As pessoas tendem a querer viver no futuro com um padrão de vida que é do passado. As pessoas têm que se preparar para serem felizes do jeito que as coisas vão ser”

Já do ponto de vista da empresa, adotar formas mais colaborativas de trabalho pode ser o fator de motivação que tantos procuram como diferencial estratégico. Afinal, ela diz: “quem quer trabalhar numa empresa sem um propósito?”.

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