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Quando um coworking é um agente de transformação social: conheça o Gomeia, na Baixada Fluminense

- 23 de novembro de 2016
Os integrantes dos sete empreendimentos que formam o Gomeia: um coworking com propósito social, encravado na Baixada Fluminense.
Os integrantes dos sete empreendimentos que formam o Gomeia: um coworking com propósito social, encravado na Baixada Fluminense.

Estigmatizada com notícias sobre violência e desigualdade social, a Baixada Fluminense, formada por 12 municípios e lar de 4 milhões de pessoas, também respira inovação social. Um grupo de sete empreendedores criativos locais, cientes de que sua missão é essencialmente social, percebeu que ter um negócio bem sucedido, ali, faria mais diferença do que se fossem disputar mercado na capital. Há um mês, inauguraram o Gomeia, um coworking que materializa dessa missão. O nome é uma homenagem a Joãozinho da Gomeia, candomblecista baiano que mudou-se para Caxias e virou celebridade ao receber em seu terreiro nomes como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Ângela Maria e Grande Otelo.

Com o “galpão criativo”, como eles dizem, o grupo de empreendedores quer frear o êxodo de mão-de-obra para o Rio de Janeiro, fomentar o empreendedorismo e a cultura local. “Integramos uma rede afetiva. Somos amigos, parceiros, fornecedores há uns 20 anos, em alguns casos”, diz Dani Francisco, 36, jornalista à frente da produtora cultural Terreiro de Ideias. As outras seis empresas (totalizendo 14 co-fundadores empreendedores) que formam o grupo são a também produtora cultural Virtú Produções, a desenvolvedora de sites com foco em educação Aguassu, as produtoras audiovisuais Dunas Filmes e Memory Audiovisual, o Cineclube Mate com Angu e a empresa de projetos de arquitetura sustentável Popular Arquitetura. Dani fala da conexão entre eles:

“A gente sofre muito com a ausência do Estado, então temos uma cena muito forte dos coletivos e das redes”

Acreditando na potência da região, os empreendedores da Gomeia tornaram-se referência no mercado com trabalhos de cocriação. A Terreiro de Ideias, por exemplo, produz o festival Rock Pense que, há 14 anos, debate questões de gênero. O olhar treinado para tendências fez Dani tornar-se uma entusiasta, lá em 2014, do coworking. Nesta época, Guilherme Zani, 33, da Popular Arquitetura, queria encerrar o contrato de aluguel do galpão que usava para estocar material das obras.

Guilherme conta que a Popular começou a pegar muitas obras e as coisas foram se concentrando muito nele. “Certamente isso não daria certo, e não deu. Tive alguns prejuízos e resolvi direcionar a empresa para oferecer projetos e administração, cobrando por hora técnica. Foi quando vi que um espaço de 360 m² não era mais necessário” conta ele, que desde então trabalha com projetos e execução de baixo custo para tornar a arquitetura mais acessível.

O galpão era usado como depósito. Uma campanha de crowdfunding possibilitou sua reforma para abrigar o Gomeia.

Uma campanha de crowdfunding possibilitou a reforma do galpão que abriga o Gomeia.

O galpão fica no centro de Caxias, numa rua com prostituição, usuários de crack e em frente a três favelas. Dani, que já “pirava” na ideia de coworking, não se intimidou com o cenário e juntos eles perceberam que ali estava a chance de colocarem em prática a ideia de compartilhar um espaço com os outros amigos criadores da região.

“A gente já fazia isso, mas sem estar ancorado numa mesma laje. Todo mundo trabalhava com home office, a única empresa que tinha sede era a Terreiro”, diz ela, convencida de que o projeto pode ajudar a para mudar o entorno: “A gente enxerga a existência do Gomeia ali como um canalizador da revitalização da área”.

COMO NASCE UMA REDE DE NEGÓCIOS INTERLIGADOS

Em abril de 2015, regada a algumas cervejas, aconteceu a primeira reunião do que viria a ser o Gomeia. Ao estudar alguns exemplos de coworking, eles esbarraram em modelos que eram mais sublocação de espaço do que trabalho em rede de verdade. O que buscavam era uma cogestão, algo que não fosse comercial, mas que tivesse como meta também a sustentabilidade do negócio. “A  gente queria um modelo que fosse ao mesmo tempo anárquico, no sentido da falta de liderança, mas que se colocasse com uma nova centralidade”, conta Dani.

Como outros co-workings, a ideia é que a estrutura em rede beneficie tanto os negócios alocados no galpão, como os clientes que chegam até eles. É um pouco o que acontece na Goma, no Rio de Janeiro, que os inspirou. Guilherme complementa:

“A gente busca a criação em rede para ter o maior número de serviços oferecidos. Isso baixa o custo operacional e nos permite oferecer um leque de possibilidades, além de massificar a divulgação”

Decidido o modelo sem fins lucrativos, eles tiveram que encarar a realidade: um galpão sem estrutura elétrica ou hidráulica, e um grupo sem nenhuma grana para investir na reforma. A solução para o impasse veio por meio de uma campanha de financiamento coletivo, via Benfeitoria. Foi o primeiro teste de fogo da rede. Eles confiavam no sucesso, mas se surpreenderam.

Já transformado, o local recebeu a festa de lançamento do Gomeia, no mês passado.

Já transformado, o local recebeu a festa de lançamento do Gomeia, no mês passado.

“Pedimos 29 mil reais, em 45 dias, e arrecadamos 45 mil reais. Foi incrível. Financiamento coletivo é sempre um desafio sobre como mobilizar redes, mas ao mesmo tempo você se posiciona como marca, então também foi uma grande campanha de marketing para o Gomeia”, diz Dani.

A reforma, tocada pela Popular Arquitetura, estava garantida. Hoje, a manutenção do espaço depende de uma cota de contribuição de cada empresa. Mas a ideia é que o Gomeia gere renda para se sustentar com aluguel de espaço, cursos, oficinas e palestras. Eles dizem que ainda estão “levantando a lona do circo”, mas pretendem, além de se sustentar, fomentar o empreendedorismo local, recebendo e incubando novos negócios.

E estão de olho nos desafios da recessão econômica. “Está todo mundo trabalhando para que cada empreendimento prospere. Como é uma rede, se um nó cai, a rede tem que voltar com esse nó. Se uma empresa aqui fecha, o Gomeia também fecha, de uma certa maneira”, diz Guilherme. Dani também fala sobre como isso se insere no momento atual do país:

“Faço parte de uma rede de pessoas que optaram parar de reclamar, botaram a mão na massa com os recursos que tinham para criar a partir do deserto”

Ela complementa: “Ao mesmo tempo, este é um manancial de oportunidades muito rico”. O Gomeia ainda está nascendo, ele traz consigo raízes que estão fortemente assentadas na terra. Se por um lado a perspectiva é de dificuldades no cenário econômico, por outro, a rede do Gomeia é afetiva e acredita na viabilidade financeira do projeto e em seu impacto social, o de gerar ofertas de trabalho para aqueles que antes precisavam pegar a estrada em direção ao Rio para trabalhar.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Gomeia
  • O que faz: Coworking de negócios criativos
  • Sócio(s): Os 7 emprendimentos co-fundadores
  • Funcionários: Os 14 empreendedores co-fundadores
  • Sede: Duque de Caxias (RJ)
  • Início das atividades: 2016
  • Investimento inicial: R$ 45.000
  • Faturamento: ainda não há
  • Contato: gomeia@gomeia.com.br
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