“Quem eu era quando não estava trabalhando? Eu não sabia. Precisei de coragem para encarar este vazio”

- 7 de julho de 2017
Super workaholic, Marcia Freire Mello tentou fugir quando a crise existencial bateu. Não adiantou. Só quando olhou para dentro ela conseguiu se libertar de uma prisão que nem enxergava (foto: Carmen Fernandes).
Super workaholic, Marcia Freire Mello tentou fugir quando a crise existencial bateu. Não adiantou. Só quando olhou para dentro ela conseguiu se libertar de uma prisão que nem enxergava (foto: Carmen Fernandes).

 

por Marcia Freire Mello

Era chegada a hora de voltar ao mundo dos negócios, pelo qual sou apaixonada e onde sei que tenho uma troca maravilhosa. Depois de quatro anos afastada, depois de ter dois filhos e viver um misto de sabático e crise existencial — e vazio —, eu sabia que era hora de voltar.

Sempre fui uma profissional de alta performance, a mais pilhada, a locomotiva da agência de publicidade que eu tinha criado, a pessoa que não tinha tempo para ninguém (eu me orgulhava disso). Até que veio uma fatídica semana em que de repente tudo ruiu, de uma hora para outra, e que culminou na minha saída da incrível agência que eu tinha criado.

Grávida de cinco meses, pela primeira vez fui viver experiências que nunca imaginei “me permitir”, até porque eu tirava férias de no máximo 20 dias por ano e olhe lá. Me sentia culpada por estar à tôa na vida. Essa foi a primeira grande barreira, afinal, desde os 17 anos sempre trabalhei uma média de 10 horas por dia.

A pergunta era: O que se faz quando não se está trabalhando? Eu realmente não sabia. Nem o que fazer, nem quem era eu, a não ser a Marcia profissional

Eu estava tão misturada com o trabalho, que não tinha mais discernimento entre o que era eu e o que era a empresa ou o meu papel nas empresas pelas quais passei.

Mas foi deste lugar, confuso, atrapalhado que parti quando comecei a me lembrar — com muita ajuda, alguns cursos, algumas imersões profundas, alguns amigos, muitos mestres e outros pensadores — de algumas verdade fundamentais, como a que diz que somos livres, sim, totalmente livres! Outra dizia que eu sou uma pessoa única e exclusiva e que, portanto, meu caminho, minha forma de ver o mundo, agir e fazer qualquer coisa é única.

De repente percebi que realmente eu só podia estar lutando contra a maré até então, pois a liberdade que eu tinha era exclusivamente para ir trabalhar e a parte mais autêntica que eu podia ver em mim era quando eu chegava até o limite (físico, mental) e das duas umas: ou eu ficava chateada culpando alguém da agência por alguma coisa, ou nos dias em que conseguia sair meia hora mais cedo do trabalho para fazer algo pessoal… Ah… Isso sim me dava a falsa ilusão de me sentir a S-U-P-E-R empresária, a descolada, a corajosa que tinha qualidade de vida.

Mas eu sabia que esses pequenos surtos de “quero mais da vida” eram muito pouco. Dentro de mim algo já gritava mostrando que tinha algo errado. Era o mesmo nas reuniões com a equipe de criação da agência. Eu queria que todos fossem criativos, que todos tivessem grandes ideias. Como? Na sala de reunião, com processos de brainstorm, metodologias poderosas e pessoas disponíveis. Eu parecia ter tudo e no entanto nada surpreendente acontecia, ou muito pouco comparado ao potencial que eu via naquele time incrível de uma agência construída com tanta verdade.

Era sempre mais do mesmo, ainda que disfarçado de cara nova. Mudava o cliente, mudava o cenário, mas o ciclo seguia igualzinho

Foi disso que eu saí. Foi assim que me vi convidada a visitar o meu vazio. Até porque eu não tinha para onde fugir. Só podia ficar ali, com cinco meses de gestação não dava nem tempo de recomeçar uma nova agência (na verdade, eu até tentei, mas durou só três meses e, ao me dar conta de que estava começando a fazer mais do mesmo, de novo, parei).

Na verdade eu já tinha vislumbres desse vazio mesmo quando estava na agência. Por exemplo, sabe aquela hora que você meio que já fez o que tinha que fazer no dia, ou não está a fim de fazer o que tem que fazer, então vai para a internet? Para mim isso era um grande vazio, nunca gostei de zapear e nem sei o que fazer por lá. Tenho um marido que acha conteúdos maravilhosos, que pode passar 10 horas no computador e vai sair com muito mais conhecimento, mas não é o meu caso.

Pude observar que eu estava presa a tantas crenças que nessas horas vagas, ou improdutivas, eu nem sequer pensava em pegar uma bike e sair para dar uma volta, ou fazer uma aula de dança, ou só ir para casa cozinhar, fazer um almoço.

Tudo que eu “podia” era restrito aos limites do “portal” que era a porta de entrada da empresa, ou a momentos sociais, cafés ou almoços, desde que falando, naturalmente, de negócios.

É como se enquanto eu estivesse na empresa não existisse o risco de lidar com sentimentos “errados”: culpa, medo, insegurança, dúvida, angústia

A verdade, claro, é que eu só estava trancada lá dentro por um medo maior: o de encarar o que já era. Eu já estava sentindo tudo aquilo e não tinha a mínima ideia de como superar a minha crise, que era totalmente existencial.

A questão é que não se trata de sair ou não da empresa para passear no meio do expediente. Isso não é solução para nada, só um exemplo de uma crença que me limitava enquanto empreendedora na agência.

Também adoro cafés e almoços, a troca motiva minha alma, mas fui vendo que eu estava a todo custo criando zonas de proteção, muito movimento e tarefas que nunca acabavam, pois elas me davam a falsa ideia de que eu não tinha dúvidas, não tinha medos, não tinha insegurança, não tinha nenhum sentimento ruim e, no mais extremo das falsas percepções, que eu não cometia erros e que os meus problemas eram certamente os outros.

Hoje sei que sustentar esses escudos foi muito mais difícil do que olhar para os meus erros, assumir meus medos e sentir a angústia profunda, quando ela se apresenta

Profissionalmente, sempre foquei em me capacitar para resolver problemas, criar, inovar e até empreender muito bem. Mas não fui capacitada para errar, para lidar com decepções, para cocriar (com abertura verdadeira para ouvir o outro), para planejar com foco (tomando escolhas com mais coragem), para lidar com os inputs da realidade que mudam nosso plano inicial (a gente aceitando ou não).

Como empresária, eu queria ter todas as resposta e a qualquer erro meu maior foco era minimizá-lo. Cocriar era ficar esperando uma resposta certa mediante a minha avaliação. Mas isso não era claro, nem consciente, minha equipe nunca diria isso de mim, pois milhares de camadas de proteção me ajudavam a acreditar e a fazer os outros acreditarem no contrário.

Hoje confio que o caminho para inovar, transformar e quebrar padrões no mundo dos negócios é prepararmos profissionais inovadores, agentes de transformações e pessoas livres MESMO. Para sentir, falar, testar, errar, aprender, fazer de novo até que em algum momento algo novo ou simplesmente algo transformador, que leve a empresa ou projeto a um outro patamar, de fato aconteça.

Trabalho com isso. Tenho uma consultoria para preparar pessoas e equipes mais criativas, ousadas, autênticas e com coragem de sair do que eu chamo de “Mania de Harmonia”, sair da politicagem para entrar no fluxo real da coisa toda: da vida dos negócios e da vida pessoal. É sobre sentir toda a emoção que é estar disponível (se posicionar, se responsabilizar e se abrir completamente) e em todos os aspectos: corpo, mente e alma para aquele trabalho ao qual você dedica mais tempo do que pode imaginar.

Às vezes fazemos LABs (laboratórios práticos onde trabalhamos questões do dia a dia e que aparentemente são muito simples), outras vezes partimos de uma imersão em conteúdo para abrir a cabeça das equipes, trabalhamos líderes e algumas vezes fazemos projetos totalmente customizados para demandas estratégicas de inovação ou do contrário, algo que está deixando alguma área ou projeto estagnado.

Não é um trabalho confortável, pois dá uma chacoalhada geral (seja pela forma de olhar para o negócio, ou pela forma de olhar pessoas). Mas é transformador, pois posso ver a potência de cada pessoa que conheço, na íntegra. Depois, cabe a cada um usar da melhor forma tudo o que viu. Mas o fato é que fico impressionada ao ver o tamanho da potência que é uma única pessoa.

Hoje, acredito com tudo, mesmo, que podemos ser a mudança que queremos no mundo corporativo sim!

Afinal, para quem gosta de trabalhar como eu, não adianta fugir… É aqui que estamos. É daqui que partimos.

Lá atrás, grávida dos cinco meses, ainda fui buscar, fisicamente, a mudança de vida que sempre sonhei. Cheguei a me mudar com a família para a Praia da Pipa, num lugar lindo no meio do mato, depois para Portugal e até para um hotel Holístico (contar isso tudo valeria um outro artigo, outro dia). Mas há dois anos voltei para perto de São Paulo. Com tudo. Quem sabe um dia eu possa mudar de casa novamente, para algum lugar por um fluxo natural da vida, mas não será mais para buscar preencher buracos que aparentemente estavam fora de mim.

A verdade é que não adiantou muito fugir, pois onde quer que eu estivesse, tinha que lidar com toda a agonia de estar passando por um grande crise existencial. Então, por que não se jogar de cabeça, onde que quer você esteja neste exato momento?

 

 

Marcia Freire Mello, 35, é formada em Publicidade. Trabalhou na Lexmark, Proxis e fundou a agência Una Resultados. Em 2016, fundou a consultoria de inovação e criatividade Be Project

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