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“Recomeçar do zero te deixa mais humilde, mais ligado. Aprendi mais sobre o Brasil empreendendo fora dele”

- 6 de outubro de 2017
Ricardo Ruffo conta o que aprendeu sobre qualidades e defeitos do brasileiro ao levar seu business para Portugal e Austrália.
Ricardo Ruffo conta o que aprendeu sobre qualidades e defeitos do brasileiro ao levar seu business para Portugal e Austrália.

 

por Ricardo Ruffo

Dentre os meus vários sonhos, sempre imaginei que pudesse ter um negócio global. Acho que é o tipo de ideia que eventualmente passa pela cabeça das pessoas, mas sempre como uma coisa muito distante e inalcançável. Para mim não era diferente, até que essa possibilidade de fato entrou no meu radar. Estou nessa jornada internacional desde 2014, e já aprendi muita coisa até aqui. Sobre outros mercados. Sobre mim mesmo. E até sobre o nosso país

Meu nome é Ricardo Ruffo e sou diretor e co-fundador da Echos, um laboratório (atualmente global) de inovação com sedes em São Paulo, Rio de Janeiro, Lisboa e Sydney.

Tudo começou em 2014, um ano eleitoral onde nossos clientes pouco investiam em projetos de inovação. Nosso mercado estava estranho, sentia que navegávamos na direção certa, porém em baixa velocidade. Estávamos um pouco preocupados, mas também inquietos com isso. Minha sócia, que em primeiro lugar é minha esposa e está comigo nessa jornada global, e eu, motivados pelo marasmo do mercado, desejávamos crescer mais rápido do que o mercado brasileiro nos proporcionava. Então…

Tomamos a decisão de experimentar o que seria nosso negócio em outro lugar do mundo

Foi aí que levantamos alguns países potenciais, para começar nossa jornada experimental e que fizesse sentido para nós. Além disso, planejamos que faríamos algumas incursões nos países pré-definidos antes mesmo de começarmos a operar oficialmente.

Dois destinos: um óbvio e outro nem tanto.

A primeira escolha e mais óbvia seria, claro, Portugal. Mesma língua, proximidade de culturas, berço do Brasil e um pé no mercado europeu. Lisboa vive um dos momentos áureos de sua história. Quem visitou recentemente Lisboa consegue sentir a energia vibrante da cidade. Considerada talvez a Nova York dos anos 1980 ou Berlim dos anos 1990, a capital portuguesa virou uma região atrativa para economia criativa global, se transformando em símbolo para toda uma nova geração e atraindo empresas e talentos de outros países.

A segunda escolha não foi tão trivial assim: Austrália. Por que Austrália? Talvez essa seja a pergunta com a qual mais me deparo ultimamente, inclusive pelos próprios australianos. A Austrália é um país com menos de 25 milhões habitantes, território maior que o Brasileiro, com alta proximidade do mercado asiático e características culturais interessantes, que tornam o país muito aberto a novidades. Perfeito para experimentos-piloto. Além disso, minha sócia e eu já havíamos morado na Austrália no passado, em contextos totalmente diferentes do atual (éramos estudantes e tentávamos sobreviver através dos mais variados tipos de trabalho).

Vendo o Brasil com outros olhos.

Entre setembro de 2015 e setembro de 2016, fizemos nossas incursões pelos dois países, com duas idas para Austrália e duas para Portugal. Optamos por períodos aleatórios, que nos permitiram aprender muito sobre cada local.

Em Portugal, me deparei com pessoas que são apaixonadas pelo Brasil e pelos brasileiros

Gente que tem muito orgulho do que nos transformamos e como somos majestosos. Um país que talvez conheça mais sobre nós do que nós mesmos e que acredita em nosso potencial. Minha maior lição nas primeiras incursões em Portugal foi o fato de nós brasileiros termos perdido esse elo com a cultura portuguesa. No inconsciente popular, a única coisa que ficou foram as piadas com os portugueses, as brincadeiras e talvez o jeito pragmático de falar, que no primeiro momento nos assusta. Mas esse pragmatismo talvez seja justamente o que falte para nós, brasileiros. Se tivéssemos seguido um pouco mais à risca o que estava planejado, talvez nosso país fosse diferente.

Já na Austrália, comecei a olhar para o nosso país de forma realmente diferente. Após uma palestra onde compartilhávamos um pouco do nosso negócio, recebemos um caloroso elogio pelo fato de que nossos cases não vinham apenas do eixo Estados Unidos ou Europa, mas sim do Brasil. Deu aquele orgulho de ser brasileiro novamente.

Fizemos alguns experimentos em cada mercado para testar o apetite de cada local. Algumas coisas deram certo, e outras muito errado. Mas como nada ainda era oficial, tínhamos permissão para errar. Com data de volta marcada você sente muito menos o peso do desafio.

Aprendi que não dá para conquistar o mundo sem alguns sacrifícios pessoais

Em fevereiro deste ano, nos mudamos para Austrália com objetivo de fundar e gerenciar a sede da empresa no país. Deixar os amigos e a família para trás definitivamente não é fácil. Aquele sonho dourado da época na qual morei na Austrália, de uma vida diferente, me mostrou uma outra dimensão desse país.

O maior desafio profissional foi deixar o Brasil e o time que construímos ao longo do tempo. Largar o dia a dia do negócio, definitivamente, não é nada fácil. Requer muito planejamento, muitos neurônios e muita coragem. Mas este é o sacrifício das nossas escolhas. Na cartilha das melhores práticas de gestão, deixar o negócio pode ser uma armadilha que compromete o futuro do mesmo, mas sempre acreditei no time e eles estão liderando uma bela transformação no mercado brasileiro, dobrando de tamanho em 2017.

Além disso, se não estivesse com minha sócia, não seria capaz de enfrentar esse desafio. Juntos somamos as principais frentes de nosso negócio. Estando acompanhado a vida fica muito mais divertida e o sonho é construído em conjunto.

Empreender no Brasil te prepara para qualquer coisa.

Conquistar o mundo não é uma tarefa fácil, mas é possível. Graças à escola empreendedora brasileira na prática que tivemos, nos tornamos mais fortes. Empreender no Brasil é realmente difícil. As circunstâncias nos tornam mais flexíveis e resilientes. O esforço despendido no Brasil com os intermediários dos negócios me mostrou uma outra dimensão lenta e burocrática do nosso sistema. Aqui na Austrália, montamos nossa operação em apenas dois dias e estávamos prontos para vender. Pagar máximo cinco impostos, apesar da carga tributária ser parecida, simplifica muito a gestão.

Entre minhas incursões pelos dois países pude perceber o quão egoístas somos no Brasil. Grande demais para sair dele. O Brasil é tão vasto que normalmente focamos apenas no mercado local, o suficiente para ocupar o negócio por um bom tempo e perdemos oportunidades globais.

Além disso, o fato de falarmos apenas português nos afasta da comunidade da América do Sul. Países vizinhos ao nosso, que desejam loucamente se aproximar de nós, não recebem nossa atenção. Nossa região poderia ser uma potência cultural e econômica se interagíssemos mais entre países latino americanos.

Nós, brasileiros, temos essa mania de nos achar inferiores. Mas nesses últimos anos tenho aprendido que o brasileiro pode contribuir, e muito, para o mundo

E até mesmo para o nosso próprio país. Não temos noção do nosso verdadeiro valor. O emergente ecossistema de uma nova geração de empresas emergentes realmente impressiona até os mais experientes.

Logo que pensamos em barreiras para fazer negócios no exterior, vem a questão da língua. Todo brasileiro sonhou ou sonha em morar um tempo fora, mas acha que não dominar a língua é um problema. Ao contrário do que se pode imaginar, na Austrália recebemos até elogios pelo nosso sotaque. Dizem ser mais gostoso de ouvir e até mais leve. O esforço de estar vivendo num outro país e falando uma outra língua não é visto como uma barreira para os australianos, mas sim um reconhecimento. É revelador acreditar que eles acham isso positivo enquanto nós, brasileiros, ficamos preocupados ou envergonhados.

O outro lado da moeda também é válido. As vezes as dificuldades são tantas no Brasil que imaginamos que vamos arrebentar em qualquer outro lugar do mundo, que o desafio será bem mais fácil e tranquilo. Mentira. Dentre nossas incursões desde que nos mudamos para Austrália, a cultura de trabalho tem nos mostrado um outro lado. Por aqui, o australiano valoriza o tempo como ninguém e te respeita por isso. Por exemplo, se alguém se atrasa por três minutos em uma reunião, a pessoa te liga, com antecedência, pedindo mil desculpas. Às vezes fica uma sensação que, mesmo começando no horário, eles sentem que estão atrasados e já chegam pedindo desculpas pelo “não atraso”.

Um caso curioso foi uma reunião na qual esperávamos que o cliente nos sabatinasse, assim como aconteceria no Brasil, pois nossa sociedade não é baseada na confiança, mas sim na desconfiança. Quando começamos nosso discurso e mostramos nossos “belíssimos” resultados e cases (a gente acredita que são relevantes os números) fomos interrompidos por um: “Pode pular essa parte, vocês já estão dentro dessa sala!”. A capacidade de o australiano ir direto ao ponto tira o chão de qualquer brasileiro bem-intencionado.

E assim começaram os solavancos australianos.

Nossa capacidade de adaptação e flexibilidades são incríveis. Parece que todo brasileiro já nasce com uma pitada a mais do que o restante do mundo nesses quesitos. Mas não é o suficiente

Quando chegamos na Austrália e em Portugal partimos do pressuposto que iríamos repetir e manter nossa estratégia de divulgação via rede sociais, mas foi um banho de água fria. O povo australiano definitivamente não usa Facebook como forma de comunicação profissional, ficando apenas no círculo pessoal, de 50 a 80 amigos no máximo. Num mundo digital como o de hoje, como faríamos então sem uma ferramenta que acelerasse esse processo? Descobrimos que o australiano é mais tradicional no mundo dos negócios. Ele precisa ver para crer. Por isso precisamos nos utilizar também de redes sociais “offline”, e assim estamos fazendo: apresentando nossos serviços através de eventos, palestras e iniciativas do ecossistema.

Em resumo, a jornada não tem sido fácil. Por outro lado, é gratificante ver como nós brasileiros temos o potencial criativo para nos adaptar às mais variadas circunstâncias. Mais do que isso, como eu carrego esse potencial comigo. Não sei se posso falar por todos os brasileiros, mas sei que carrego um pouco do Brasil dentro de mim.

Existe uma questão de status em empreender fora do próprio país. Sei de gente que me olha com mais admiração. Às vezes, com inveja também

Mas, o mais importante dessa história toda é que recomeçar do zero é o tipo de experiência que te deixa mais humilde, mais ligado e com uma sede enorme de aprender. Ao mesmo tempo que hoje sou muito mais experiente, em um certo sentido também me sinto mais jovem. É como se eu estivesse redescobrindo o mundo, minha profissão e até minhas crenças.

E o Brasil?

Finalizo esse texto do avião, a caminho do Brasil, pensando em como posso contribuir para toda uma nova geração acreditar que pode voar mais longe, além das fronteiras regionais. Mostrar o que há de melhor em nosso país. Mostrar o quão competente somos e capazes de realmente fazer acontecer. Basta talvez um pouco do pragmatismo português, um pouco da abertura para o novo e a disponibilidade do australiano. A produtividade de lá levaria nosso país a outros patamares.

Pode parecer uma ilusão individual, mas sinto que o jeitinho brasileiro está se dissipando. Os novos negócios que estão emergindo nos últimos anos e o fortalecimento do ecossistema empreendedor brasileiro permitem que avancemos a passos largos, construindo um Brasil mais forte e uma sociedade que clama por avanços — e isso é ótimo. Pois, onde existem problemas ou desafios, sempre haverá espaço para inovar e gerar novos negócios. Isso não falta no Brasil.

 

 

Ricardo Ruffo, 34, é cofundador e diretor global da Echos, e cofundador e articulador da Escola Design Thinking. Membro do conselho de professores honorários do IBMEC. No momento, lidera a expansão internacional da Echos para Austrália e Portugal. 

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