Reflexões sobre as barreiras, visíveis e invisíveis, dos empreendedores negros no Brasil

- 23 de novembro de 2016
Depois de 15 anos em São Paulo, a Feira Preta, maior evento de empreendedorismo negro da América Latina, chega ao Rio de Janeiro mirando o futuro.
Depois de 15 anos em São Paulo, a Feira Preta, maior evento de empreendedorismo negro da América Latina, chega ao Rio de Janeiro mirando o futuro.

No mês da Consciência Negra, uma série de eventos relembram e comemoram a herança africana no Brasil. Talvez uma das novidades mais bacanas seja que a Feira Preta terá sua primeira versão carioca. O tradicional encontro de artistas, criadores e empreendedores acontece há 15 anos na capital paulista e, neste fim de semana, se transfere para o Museu de Arte do Rio (MAR) e a Praça Mauá. A entrada é gratuita, mas é preciso se inscrever para os painéis, que ocuparão o auditório do Museu. O Draft é parceiro de mídia do evento.

Honrando a fórmula que deu certo em São Paulo, a Feira Preta traz apresentações artísticas (destaque para o afoxé Filhos de Gandhi Rio e da festa baiana Batekoo) e uma grande área para a exposição (roupas, acessórios, calçados, artesanato etc) de empreendedores negros. Ao todo, a edição carioca contará com 100 afroempreendedores, 33 painelistas e 15 atrações musicais. Adriana Barbosa, 39, é gestora de projetos e a idealizadora da Feira Preta. Ela tem consciência do papel transformador do evento: “Ajudamos a construir esse mercado de produção e consumo de produtos voltados para a estética negra”.

Adriana Barbosa, idealizadora da Feira Preta, diz que nesses 15 anos o evento gerou um ciclo de protagonismo negro em negócios criativos.

Adriana Barbosa, idealizadora da Feira Preta, diz que nesses 15 anos o evento gerou um ciclo de protagonismo negro em negócios criativos.

A Feira Preta recebe em média 10 mil pessoas por edição, somando mais de 140 mil pessoas nesses 15 anos — e mais de 3 milhões de reais movimentados. “Esse público, além de consumir, percebeu uma oportunidade de mercado e passou a criar negócios, tais como Acredita Benedita, Soul Urban Syle, Cresposim, Pegada Preta entre outros”, conta.

A edição carioca está sendo realizada sem patrocínio, graças a uma parceria com a Entrenós. “A Feira Preta é um negócio social que inspira muita gente a empreender e acreditar que negócios inovadores são oportunidades para todos, independente da cor da pele. Na estreia da edição carioca, estamos contando com a força de uma rede de atores engajados nessa causa e esperamos fazer história”, diz Daniele Apone, da Entrenós.

Adriana fala sobre como, nos últimos anos, aumentou o número de afrodescendentes que empreendem: “Uma pesquisa recente do Instituto Feira Preta, Fundo Baobá de Equidade Racial e Instituto Arapyau, vimos que as mulheres negras são a maioria das empreendedoras, e com alto grau de escolaridade, nível mestrado e doutorado. Outro dado importante é o jovem negro liderando novos negócios segmentados na estética negra com uma lógica de oportunidade”. Adriana reflete sobre como isso é, também, reflexo do momento atual do país:

“A precarização no mercado de trabalho para a população negra faz com que criemos formas de sustentação financeira, como é o caso do afroempreendedorismo”

Ela fala também das barreiras ao crescimento desse mercado: “A principal barreira sem dúvida é o racismo institucional, fincado na estrutura das empresas, na cadeia de produção e nos órgãos do governo de forma geral”. A seu ver, a superação disso passa pelo diálogo e conscientização, pela derrubada de privilégios e pelo fortalecimento dos empreendedores negros em todos os níveis.

Junto à Feira, acontece o festival Black Codes, que vai reunir cases de economia criativa da cultura negra. Os participantes do painel Ecossistema Afroempreendedor também conversaram com o Draft.

Fernanda Ribeiro, fundadora a Afrobusiness Brasil, é uma das palestrantes da Feira Preta RIO.

Fernanda Ribeiro, fundadora a Afrobusiness Brasil, estará na Feira Preta.

Fernanda Ribeiro, 31, cofundadora Associação Afrobusiness Brasil, fala sobre as particularidades dos afroempreendedores. Na maioria dos casos, ela diz, eles empreendem por necessidade, transformando seus talentos em negócios que carregam uma identificação cultural e uma preocupação com o desenvolvimento da comunidade em diversos aspectos. E destaca: “Os afroempreendedores representam 53% dos empresários do Brasil, atuando em áreas menos lucrativas, geralmente com produtos e serviços. É primordial investir em capacitação e tecnologia para potencializar estes negócios”.

Ela acredita que, gradativamente, esses números tendem a melhorar. “Muitos jovens negros enxergam o empreendedorismo como ferramenta de mudança social e estão seguindo por este caminho com mais preparação técnica”, diz. Ela considera a Feira Preta uma inspiração: “É um exemplo de empreendimento negro de sucesso, a Feira começou pequena e hoje é a maior na América Latina”. E fala sobre as “barreiras invisíveis” que os negros enfrentam:

“Empreender tem suas dores e sabores. Quando um negro empreende, ele encontra os desafios naturais e também os impostos pelas desigualdades étnicas, o racismo”

A seu ver, durante esse processo, encontrar redes de colaboração dentro de um ecossistema amigável, é fundamental. “Negros têm mais dificuldade para acessar financiamentos, é preciso um olhar de empatia para superar isso” diz. Ela cita iniciativas de microcrédito como exemplos de sucesso, mostrando que quando esse trabalho em conjunto acontece, o resultado é bom para toda a sociedade, por gerar retorno financeiro ao mesmo tempo que gera impacto social positivo.

Leno Silva, 57, é coordenador do Inova Capital, uma iniciativa do BID que, até 2017, investirá 500 mil reais em programas de apoio a afroempreendedores no Brasil. Ele destaca que o país tem 68 milhões de afrodescendentes, um público com potencial ainda pouco considerado por investidores. Ele fala a respeito:

“Investir em afroempreendedores é uma opção de diversificação da carteira que oferece, além do retorno econômico, impacto social positivo”

A seu ver, empresários afrodescendentes, estão mais familiarizados com os problemas de zonas mais vulneráveis das cidades, suas circunstâncias e mercados. Leno cita as barreiras históricas para o crescimento do ecossistema afroempreendedor (pouco acesso a educação, formação de qualidade, saúde e recursos) e afirma que o caminho para superá-las é aproveitar as oportunidades que estão surgindo no nosso tempo: “O conhecimento é o grande diferencial. Hoje, o desenvolvimento tecnológico e as facilidades de comunicação, permitem que cada um de nós seja protagonista da sua vida e da sua história”.

Victor Del Rey é um dos criadores do app Kilombu.

Vitor Del Rey é um dos criadores do app Kilombu.

Para Leno, os caminhos passam por processos de cocriação e de cooperação, em resumo: “Sair do lugar e abrir caminhos ainda não percorridos”.

Adriana também comenta esse recorte: “O valor de diversidade não é só pelo viés da inclusão e responsabilidade social. As empresas precisam encará-lo também como potencial competitivo. O recorte de raça é um mercado com muito potencial, assim como plus size, o GLBT e outros”.

Por fim, Vitor Del Rey, 31, consultor de empreendedorismo social e cofundador do aplicativo Kilombu (que localiza e recomenda afroempreendimentos), associa o empreendedorismo da população negra a uma produção de “mecanismos de resistência” social.

“O Afroempreendedorismo não é somente uma atividade lucrativa, é também uma atividade que aponta para uma possibilidade de emancipação”, diz.

Ele reconhece que as alianças mais rentáveis são feiras como a Preta. “Nelas, os setores de moda e beleza ainda são os mais fortes e, por conseguinte, os mais lucrativos”, diz, acrescenta que, a partir da experiência com o Kilombu, tem visto empresários trocando não apenas produtos e serviços, mas também se articulando para ter acesso a fornecedores mais baratos e com a mesma qualidade, quebrando assim os possíveis monopólios.

A seu ver, a melhor maneira de fortalecer o afroempreendedorismo é inseri-lo num contexto ainda maior. “O primeiro passo é o conhecimento do outro, através de grandes simpósios seguidos de grupos regionais de trabalho, por exemplo, que promovam a maior integração e o fluxo de negócios e dinheiro”, diz. A seu ver, o excesso de canais no Facebook promove uma certa dispersão, pois cria milhares de pequenos ecossistemas, com pouca interação entre os grupos. Do online para o offline, que todos se encontrem e derrubem barreiras — visíveis e invisíveis.

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