Roupa Livre: um movimento que propõe menos consumo através de um olhar mais carinhoso para as roupas

- 21 de setembro de 2015
Com a placa do projeto Roupa Livre, Mariana Pelliciari à frente de uma oficina na Laboriosa 89, no ano passado.
Com a placa do projeto Roupa Livre, Mariana Pelliciari à frente de uma oficina na Laboriosa 89, no ano passado.

“A gente não precisa de roupas novas. A gente precisa de um novo olhar.” Assim se apresenta o Roupa Livre, um negócio social baseado em um olhar crítico sobre a indústria da moda e a relação das pessoas com o que elas vestem. As sócias Mariana Pellicari, 27, Gabriela Mazepa, 33, e Elisa Dantas, 29, criaram o projeto é baseado em conteúdo (gratuito) e oficinas e eventos (pagos ou gratuitos) acerca do tema.

Na página do Roupa Livre há textos sobre consumo consciente, upcycling, indústria têxtil, trabalho escravo etc. Além disso, elas criam conteúdo original sobre o assunto, como o Mapa da Mina (mapa colaborativo que reúne dicas de locais para doar o que não está em uso, costureiras, oficinas e cursos, marcas e estilistas, brechós e outras iniciativas e coletivos ligados ao consumo mais consciente de roupas) e o e-book Guia Roupa Livre (que ensina como estender a vida útil das roupas, tirar o melhor proveito das peças, o que fazer quando não fizerem mais sentido no guarda-roupa etc). Em paralelo, há uma agenda de oficinas, cursos e eventos presenciais.

As três fundadoras do Roupa Livre, da esq. para a dir.: Mariana Pelliciari, Gabriela Mazepa e Elisa Dantas.

As três fundadoras do Roupa Livre, da esq. para a dir.: Mariana Pelliciari, Gabriela Mazepa e Elisa Dantas.

Essa história começa com Mariana Pelliciari. Ela nunca teve relação profissional com a moda. Publicitária formada no Mackenzie, em São Paulo, sempre gostou de se vestir do seu próprio jeito e fazer suas próprias composições. “Desde pequena minha relação com as roupas é afetiva. Minha avó me levava na costureira todas as férias para fazermos uma roupa. Era um incrível cuidar do processo desde o início, começando pela escolha do tecido”, conta.

Formada, de 2010 a 2014 ela passou por agências como a Click, de marketing digital, e Escala, onde ficou mais tempo cuidando do planejamento. “Eu adorava o que fazia. Envolvia muito estudo e articulação de referências, mas tudo, na maioria das vezes, acabava servindo para projetos que não eram muito coerentes com minha visão de mundo.”

Em julho de 2013, já vivendo uma fase de questionar o propósito do seu dia a dia na Comunicação, Mariana foi para Cannes como prêmio de reconhecimento da agência. “Estávamos em plena época de manifestações em São Paulo e eu lá em Cannes, vendo aquelas premiações. Percebi que o ponto alto do mundo da comunicação era aquilo: troféus sem sentido, e muito, muito desperdício”, diz.

Quando voltou a São Paulo, ainda no emprego, Mariana começou a se aproximar de novas redes e projetos. Foi quando descobriu, se interessou e passou a se aproximar do universo da colaboração, da economia circular, dos projetos colaborativos. “Conheci a Madalena 80, casa colaborativa na Vila Madalena, depois a Laboriosa 89, o Imagina na Copa, o Social Good, entre outras movimentações coletivas. Queria estar perto dos assuntos e das pessoas que eu acreditava que realmente importavam”, conta.

TRÊS HISTÓRIAS QUE SE TORNARIAM UM ÚNICO PROJETO

Durante esse processo de investigação e articulação de rede que a história de Mariana se cruzou com a de Gabriela Mazepa, não por acaso, em uma oficina de transformação de roupa que Gabi ofereceu na Escola São Paulo, em outubro de 2013.

Gabriela já carregava uma intensa conexão com as roupas. Largou a faculdade de arquitetura no Brasil para fazer arte têxtil na França, onde passou mais de quatro anos. Seu projeto de graduação consistia em contar histórias da vida das pessoas através das peças de roupa que elas guardavam em casa. Em seguida, ganhou um concurso do British Council e desenvolveu um projeto no Sri Lanka, em uma grande facção têxtil. “Lá, percebi que todo mundo tem uma roupa que não quer mais e que toda confecção, indústria e loja tem estoque parado”, conta Gabi, que voltou ao Brasil em 2012 e, desde então, mora no Rio de Janeiro.

De sua jornada pelo mundo surgiu seu principal projeto de transformação de roupas, o Re-roupa. “O nome foi dado bem mais tarde pela fundadora do Enjoei, plataforma online de compra e venda de objetos e acessórios usados, a Ana Luiza McLaren, mas o conceito já estava lá desde muito antes”, diz.

Gabi Mazepa em uma das oficinas de transformação de roupas em São Paulo.

Gabi Mazepa em uma das oficinas de transformação de roupas em São Paulo.

A conexão entre as duas foi tão grande que, em fevereiro de 2014, Mariana pediu demissão da agência para, entre outros projetos, passar a desenvolver as oficinas de transformação junto com Gabriela, como ela conta:

“Numa das oficinas transformei um vestido antigo em uma blusa. Ao botar a mão na massa descobri que as roupas não acabam, não têm fim. Têm milhares de usos. Isso foi transformador para mim”

Poucos meses depois, em agosto de 2014, Mariana conheceu a última peça do quebra cabeça que resultaria no Roupa Livre, Elisa Dantas, publicitária, em uma aula de costura no Sesc Pompéia. Elisa também vinha de uma relação muito próxima com as vestuário, apesar de ter uma trajetória longa e diversa. Havia sido modelista em fábricas de roupas, social media e planner em agências de publicidade, editora e produtora de conteúdo web para o Elo7 (startup de artesanato), e entre um emprego e outro concluiu o curso técnico em vestuário no SENAI/SP, além de completar muitos cursos especializados em modelagem, costura, produção e estilismo. Em 2014, já se dedicava à costura em tempo integral, produzindo conteúdo no blog A Costureirinha, no canal do YouTube e dando aulas particulares e cursos de costura.

Em novembro de 2014 as três resolveram unir habilidades e fazer um grande evento, que abordasse estilo, olhar de design para a transformação das peças e técnicas de costura. Era o começo do Roupa Livre. “Foram dois dias incríveis na Laboriosa 89, na Vila Madalena, que culminaram em uma feira de trocas de peças. A partir daí, sabíamos que tinha algo maior acontecendo”, conta Mariana.

COMO EXPLICAR O VALOR DE UM PROJETO QUE É CONTRA O CONSUMISMO?

Com a chegada de Elisa e a soma das habilidades técnicas de costura, o ciclo se fechava e a proposta de compartilhar a maneira como elas se sentiam em relação à moda e ensinar outras pessoas a reinventarem suas próprias roupas parecia estar completa. No entanto, ao começarem a produzir outras oficinas, com mais estrutura, as meninas encontraram uma grande dificuldade: mostrar o valor por detrás da ideia de repensar uma peça. “As pessoas não entendiam porque a oficina custava 120 reais. Diziam que, com esse valor, poderiam comprar uma peça nova em vez de transformar uma velha”, diz Mariana.

Elisa Dantas, do Roupa Livre, com aprendizes em um evento Pimp Nossa Cooperativa, na Cooper Glicério, em São Paulo.

Elisa Dantas, do Roupa Livre, com aprendizes em um evento Pimp Nossa Cooperativa, na Cooper Glicério, em São Paulo.

Foi aí que surgiu a necessidade de pensar e estruturar o projeto de forma clara e profunda. O desafio era traduzir o incômodo das fundadoras do Roupa Livre com as imposições da indústria da moda e, ao mesmo tempo, dar um sentido mais amplo e significativo ao que elas estavam fazendo.  Ao repensar o projeto, entendi que estávamos falando de uma relação mais honesta com o próprio corpo, mais afetiva e cuidadosa com as coisas que vestimos e consequentemente mais justa com quem produz e com o mundo”, diz Mariana.

Daí vem o mote “a gente não precisa de roupas novas, a gente precisa de um novo olhar”, uma vez que o Roupa Livre se propõe a mudar a relação com o que as pessoas vestem, fazendo-as refletir e pensar mais uma vez, em vez de fazê-las simplesmente comprar roupas novas. Mariana prossegue:

“Somos responsáveis pelo que vestimos. Nos afastamos muito do processo de produção e por causa disso, atrocidades acontecem no caminho, sem que a gente se dê conta disso. Fazer uma coleção inteira num mês é uma aberração, alguém obviamente sofreu no processo. Isso fica bem claro nas nossas oficinas: o trabalho que dá, o tempo que leva, o cuidado que precisa ter”

As três sócias viveram isso e acreditam que, depois de uma oficina, as pessoas dão muito mais valor ao trabalho envolvido na criação e produção de uma peça de roupa. Além da informação, a experiência. Por isso o Roupa Livre tem esses dois pilares: conteúdo e eventos. A ideia de produzir conteúdo é, além de levantar questionamentos e trazer informação, criar um banco de dados útil para que as pessoas possam criar bons hábitos de reaproveitamento e cuidado com as roupas.

Financeiramente, a principal fonte de sustentação do projeto são as oficinas presenciais em São Paulo e no Rio, que propõem a reapropriação das habilidades criativas e manuais que, geralmente, costumamos terceirizar. Entre os formatos estão o Re-roupa (transformação de peças encostadas no armário), Re-roupinha (versão do Re-roupa para os pequenos alfaiates), SOS costura (técnicas básicas para ajustar roupas) e o Café com costura (onde as pessoas aprendem e fazem enxovais para projetos colaborativos ou de impacto social — o último aconteceu no Preto Café, em São Paulo).

NOVAS CONEXÕES PARA CRESCER E GANHAR FORÇA

Sobre o futuro, Mariana acredita que o melhor jeito de provocar impacto sem partir para a lógica do crescimento a qualquer custo é apostar nas parcerias com outros projetos. Em janeiro deste ano, o Roupa Livre firmou uma parceria com o Banco de Tecido, na Vila Leopoldina, São Paulo. O espaço é uma grande biblioteca de tecidos que guarda mais de 2 toneladas de tecidos que seriam descartados. Lá, esses estoques são colocados em circulação através de um sistema de crédito.

Em abril, foi a vez de dar as mãos para o o Pimp My Carroça, criando um evento que juntava os propósitos dos dois projetos. A turma unida na primeira edição do Pimp nossa cooperativa pimpou as carroças dos catadores do Glicério, em São Paulo, ao mesmo tempo em que ensinou os associados da cooperativa a costurar, transformando peças doadas em uniformes novos.

Como projeto social e horizontal, o Roupa Livre também depende de crowdfunding para se sustentar. A ideia é que parte dele seja financiada por pessoas que enxergam sentido no movimento. A planilha de custos é aberta e o apoio pode ser feito através de financiamento coletivo recorrente, com contribuição mensal, ou por contribuição pontual.

Há poucos meses, o Roupa Livre foi escolhido pelo Social Good Lab, aceleradora de projetos com impacto social, para ser uma das ideias incubadas. O desejo é desenvolver mais o campo tecnológico da proposta, criando um aplicativo de troca de roupas que funcione com a mesma lógica do Tinder, de relacionamentos. A previsão é que o app esteja rodando até o fim do ano. Menos consumo, mais consciência. Menos roupas novas, mais roupas — e cabeças — renovadas.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Roupa Livre
  • O que faz: Oficinas e material sobre reutilização e troca de roupas
  • Sócio(s): Mariana Pelli, Gabriela Mazepa e Elisa Dantas
  • Funcionários: 3 (incluindo as sócias)
  • Sede: não há sede, o projeto é itinerante
  • Início das atividades: outubro de 2014
  • Investimento inicial: não houve
  • Faturamento: NI
  • Contato: mari@maripelli.com.br
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