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“Só a autocompaixão me curou da culpa. Eu me pergunto: o que é ser mulher – e ter poder – hoje em dia?”

- 8 de setembro de 2017
Gabrielle Picholari compartilha a sua jornada de autoconhecimento e conta como, hoje, ajuda jovens e mulheres a terem mais autocompaixão: um antídoto para a depressão.
Gabrielle Picholari compartilha a sua jornada de autoconhecimento e conta como, hoje, ajuda jovens e mulheres a terem mais autocompaixão: um antídoto para a depressão.

 

por Gabrielle Picholari

O que é cuidado? O que é ter um olhar fértil sobre isso? Fiz um longo caminho de busca e autoconhecimento e hoje quero compartilhar o que aprendi para que jovens e mulheres possam encontrar seus caminhos também.

Como muitos de nós, foi em família que vivi uma teia de relações amorosamente desafiadoras nas quais me perdi de mim mesma. Durante longos períodos, desacreditei do meu potencial por não conseguir assimilar o que acontecia. Sofri diversas formas de violência por não conseguir pacificar as contradições que existia em mim. Foi preciso mergulhar nas raízes individuais e sistêmicas de todos os diálogos internos, abusivos e paralisantes, para conseguir acolher tudo, sem medo, e assim, amadurecer.

O caminho é eterno, com desafios diários, mas o que liberta é poder simplesmente ser quem se é. É mudar o foco das preocupações para tornar interessante nossa vida de todo dia. Isso implica ter curiosidade, lamentar menos, arriscar mais, aventurar-se, e não se proteger das inevitáveis tristezas. Compartilho a seguir um pouco da jornada que trilhei.

Minha mãe faleceu há dez anos, e a passagem dela representou um despertar de consciência inquietante em mim. Na época eu trabalhava numa das maiores multinacionais do mundo, e acreditava que para “ser alguém na vida”, precisava ter muitos títulos de renome no meu currículo— e que eles pouco precisavam ter a ver com o que movia meu coração.

Eu também era uma pessoa extremamente hipocondríaca, fui educada por médicos bastante racionais, de uma forma considerada por muitos como “militar”, onde o medo de errar era constante e existia quase nenhuma abertura ao diálogo.

Naquele altura, eu acreditava que a cura das minhas questões era viajar com uma mala cheia de remédios

A passagem da minha mãe me encheu de dúvidas existenciais e um senso forte de responsabilidade perante a humanidade. Comecei a me questionar sobre qual seria o meu legado quando deixasse este planeta. Como eu poderia contribuir de fato para que o mundo pudesse ser um lugar melhor com a minha presença? Como eu poderia aprender a cuidar melhor de mim?

Era o início de uma busca por propósito com entrega e intensidade. Resolvi prestar uma bolsa para cursar um mestrado em Gestão Ambiental na Austrália. E lá fui eu, aprender sobre políticas públicas e trabalhar assessorando um professor do governo australiano. Naquela altura não importava o quanto aquilo seria desafiador para mim. Não importava se seria sofrido. Não importavam meus dons, meus talentos, o que de fato era vivo e natural em mim — O importante era fazer o que “precisava ser feito”. Ou seja, me sentir útil para me definir era mais importante do que ouvir a mim mesma. Foi um grande balde de água fria perceber que na verdade as políticas públicas na Austrália também não eram adequadamente implementadas por causa do lobby das mineradoras que representam 80% da economia do país.

Durante o mesmo período, tive o primeiro contato com uma medicina integrativa chamada Sintergética, que me revirou do avesso e curou, em poucos meses, todos os problemas respiratórios que me faziam ser tão hipocondríaca. Todo meu estilo de vida transformou-se naquele processo, e buscas sobre formas de promover meu autocuidado fizeram bastante sentido a partir dali.

Nessa época, fui a Bali fazer meu primeiro retiro de hidrocolonterapia (lavagem profunda do intestino delgado acompanhada a processos de detox e limpeza de outros órgãos), e percebi o quanto aprender a cuidar da minha própria saúde me instigava e o quanto a curiosidade que sentia em querer aprender tudo sobre essa temática tão ampla, na verdade era uma vontade genuína de servir ao mundo trazendo quebras de paradigmas sobre o cuidado.

Voltei às pressas ao Brasil assim que terminei o mestrado, pois meu pai estava bem doente. Aquele susto, tendo perdido minha mãe há pouco tempo, me trouxe de volta aquele senso de responsabilidade de “mudar o mundo”, e mais uma vez, trilhei caminhos profissionais que envolviam a sustentabilidade e a inovação, temas que me inspiram profundamente, mas que de certa forma impediam uma conexão mais profunda à minha própria essência.

No final de 2012, recebi o diagnóstico de que estava com burnout, um desequilíbrio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso. Naquele momento também sofri crises de ansiedade numa tentativa do meu próprio corpo regular-se. Procurei uma psiquiatra e lhe pedi autorização para, mesmo tendo crises, mergulhar num retiro espiritual chamado Vipassana (esporte radical do mundo dos meditadores: um retiro de 10 dias em silêncio, com 10h de meditação por dia, em que aprende-se a técnica que Buda usou para iluminar-se), que foi um grande divisor de águas para mim.

Na imensidão do silêncio, pude me confrontar com minhas dores mais profundas

Dizem que frente aos mistérios da vida a gente tem três tipos de reação: rejeição, indiferença ou acolhimento. Diante do infinito repertório de sentimentos que acessei internamente, escolhi acolher os mistérios, as luzes e as sombras, os sentimentos bons e ruins. Resolvi me apropriar do meu processo de cura e passei a entrevistar apenas médicos e psicólogos, que abarcassem em seus tratamentos a ciência e a espiritualidade. Também busquei aprender com pessoas que passaram por desequilíbrios semelhantes e atualmente estão autorrealizadas. Eu estava realmente motivada a compreender o que de fato aquele estado de opressão interna significava numa esfera existencial, e não apenas química.

Paralelamente, dei continuidade a formações em coaching para o bem-estar integral (linha do filósofo contemporâneo Ken Wilber) e facilitação de grupos (Antroposofia e Art of Hosting), além de também passar por processos transformadores de coaching de propósito de vida (Youniversality e Rede Ubuntu). Entrevistando a Dra. Roberta Ribeiro, grande mentora, inspiração e referência em Medicina Integral, ouvi um dos depoimentos mais marcantes da minha vida. Ela disse que durante a vasta carreira de médica, as curas mais milagrosas que presenciou foram de pessoas que encontraram flores em todas as suas dores, sendo capazes de ressignificar sua própria trajetória de vida.

A paz proveniente de assumir que todos os erros e acertos são uma grande sequência perfeita de vida é muito mais potente e curadora do que imaginamos

Assim, compreendi que o olhar transforma a narrativa da própria vida e que, ao revisitarmos nossa própria biografia reconhecendo e honrando nossas raízes e feridas, podemos constantemente encontrar mais motivação e autenticidade, além de compreender melhor o que a vida quer de nós.

Fiquei bastante impressionada ao descobrir o poder do olhar. Ainda mais ao compreender que percebemos o mundo através das nossas próprias lentes. Comecei a estudar o trabalho do Bruce Lipton, PhD em Biologia das Crenças, que defende que 95% da realidade que cocriamos em nossas vidas é totalmente subconsciente.

Mais um universo se abriu: eu queria buscar ferramentas que me ajudassem a trazer clareza às dinâmicas energéticas inconscientes que ocorrem dentro de nós. Meu percurso foi diverso e amplo, passei por algumas das maiores ecovilas do mundo (The Findhorn Foundation, Schumacher College e Piracanga), além de me reconectar à sabedoria ancestral indígena. Jejuei por longos períodos, raspei a cabeça, aprendi sobre diversas terapias e linhas de pensamento orientais. A minha busca era por novas formas de pensar e enxergar o mundo e a mim mesma. Entrar em contato com a Comunicação Não-Violenta, e a possibilidade de interagir com pessoas que me estimulassem a estar mais presente e lidar melhor com as incertezas do futuro, foi fundamental.

Num dado momento, em 2014, estava determinada a de alguma forma começar a tecer conexões entre tudo que tinha visto, e me deparei com os seguintes dados: a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a depressão e outras condições envolvendo a saúde mental estão em ascensão em todo o mundo e que no pior dos casos, a depressão pode levar ao suicídio, segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. A depressão é a principal causa de incapacidade laboral no planeta e 82% dos casos de demissão das empresas devem-se a aspectos emocionais e comportamentais.

Pesquisando, descobri que esses dados são uma realidade porque nossa cultura não fomenta o que é necessário para que os indivíduos tenham bem-estar integral e realizem seu propósito de vida. Foi quando decidi trabalhar para poder contribuir com transformação desse cenário. Neste exato momento, me senti sendo arrebatada por um propósito maior do que eu.

Ao mesmo tempo, eu não tinha mais a ilusão de que precisava fazer algo grandioso. Eu precisava simplesmente usar todos os recursos que estavam à minha disposição.

Na intenção de tecer uma rede médica com olhar diferenciado, resolvi estudar sobre as Bases da Medicina Integrativa no Hospital Albert Einstein. Lá, tive a oportunidade de transformar muitas das minhas maiores dores em pesquisa, e aprendi demais fazendo meu trabalho de conclusão de curso sobre a autocompaixão (Mindful Self Compassion) como ferramenta para prevenir o burnout de empreendedores sociais, pelo excesso de empatia e envolvimento emocional que seus negócios fomentam.

Em parceria com mentores e colaboradores de diversas áreas, fundei o Olhar Fértil, um movimento cultural idealizado para nos dar condições de construir uma sociedade em que possamos ser mais saudáveis e viver de uma forma mais plena, fortalecendo vínculos humanos, espalhando valores éticos, que são normalmente associados a valores femininos.

É importante deixar claro que os valores femininos habitam todos nós: eles estão em homens e mulheres

Afinal, todos atuamos na vida a partir do equilíbrio dinâmico de princípios feminino e masculino de consciência, e enfrentamos hoje desafios pessoais, interpessoais e sistêmicos. Cocriei um site, com a intenção inicial de ser um um hub de conhecimento com profissionais e processos de desenvolvimento humano. Porém, como empreender sozinha é desafiador e até hoje não encontrei parceria na área de comunicação, passei a focar em cocriar programas individuais e em grupo, que essencialmente desenvolvem habilidades socioemocionais, flexibilidade cognitiva, autoliderança, capacidade de observação, criatividade, para criar soluções novas para problemas complexos.

Essas competências têm sido consideradas cada vez mais importantes para garantir a empregabilidade e a liderança no mundo contemporâneo e são o centro da ética do cuidado: o paradigma central da nossa sobrevivência como espécie.

Hoje atuo principalmente com jovens estudantes, na maioria mulheres, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Este mês lanço ao lado da parceira e amiga Rita Monte o primeiro programa institucionalizado pela coordenação da FGV, o Olhar Fértil para Universitárias (falarei dele adiante). Isso tudo é resultado de uma demanda que veio das próprias estudantes, que queriam aprender a ter mais voz diante dos abusos diários que sofrem em sala de aula.

Duas perguntas têm me movido diante desse cenário de tantas mudanças. O que é ser mulher e ter poder? E o que vai ser?

Atuar na FGV ao lado de alunos e professores que têm sede de mudança enche minha alma de esperança, pois considero aquela instituição um microcosmo das principais questões que podem e devem melhorar na nossa sociedade.

Assumo diariamente o compromisso de fomentar redes que apoiem o empreendedorismo feminino (e já temos novos projetos no forno). Acima de tudo, o que me instiga é desmistificar temas tabus que envolvem a saúde, vergonha e compaixão. Isso porque dentre os maiores obstáculos para o empreendedorismo e a liderança feminina estão questões emocionais associadas a índices de autocompaixão (o cuidado e a bondade que devotamos a nós mesmos) inferiores aos que são verificados entre os homens e crenças limitantes estruturadas coletivamente ao longo de séculos.

Desmistificar nossos próprios medos fica bem mais fácil com conhecimento. Para ajudar nesse sentido, estou lançando este mês o livro digital e gratuito Autocompaixão: a essência da felicidade. O lançamento faz parte da programação do Setembro Amarelo, a campanha internacional de prevenção ao suicídio que ocorre no Brasil desde 2014. A palestra que darei no lançamento, intitulada “Empatia e autocompaixão: competências essenciais para a liderança do futuro”, abordará de forma prática as pesquisas mais inovadoras sobre a autocompaixão, trabalho com significado e competências essenciais para a liderança e empregabilidade no futuro.

A autocompaixão é uma ferramenta poderosa para acessarmos um estado de abertura irrestrita para o novo sem culpa, vergonha ou avaliações destrutivas sobre o que somos. A maioria das bases educacionais e morais que conhecemos é violenta. Ao estabelecer noções rígidas de certo e errado, estabelecemos também as ideias implícitas de mérito e punição. A educação formal, familiar e a cultura nos arrastam para julgamentos moralizadores (culpa, insulto, depreciação, rotulação, crítica, comparação e diagnósticos), ou seja, palavras que classificam e separam as pessoas e seus atos em dois grupos: os privilegiados e os excluídos.

Sem autocompaixão é difícil nos aceitarmos. Se somos pouco tolerantes e bondosos com nós mesmos, isso se manifesta também nas interações com os outros, especialmente aqueles que amamos

Entretanto, a ligação entre o “eu” e o “outro” é o cerne do que nos torna humanos. O caminho para descobrir quem você é não se comparar com os outros, mas examinar-se para ver se você está realizando o seu próprio potencial, da melhor maneira de que é capaz. Basta olhar à sua volta.

Tudo é necessário e se encaixa em um todo. Ninguém está acima de ninguém. Ninguém está abaixo, ninguém é superior, ninguém é inferior. Cada qual é incomparavelmente único.

Na minha jornada de reconhecimento dos meus próprios potenciais, busquei curar abordagens de desenvolvimento pessoal para pessoas que, como eu, também queiram ser inteiros. O Olhar Fértil é um atalho. Um espaço de acolhimento e conexão em que busco compartilhar o que aprendi e continuo aprendendo nessa jornada de autodescobrimento. Só ensinamos o que precisamos aprender. Reconheci que a desconexão interior que sentia é, na verdade, a essência de todas as crises que acontecem hoje coletivamente.

Na prática, o programa Olhar Fértil para Universitárias é um curso que traz um olhar inusitado ao desenvolvimento integral do ser humano. Para isso, usamos metodologias inovadoras como teatro social da presença (Teoria U), trabalhos corporais, exercícios lúdicos, meditação e World Café (técnica de conversação), com o objetivo de fomentar o poder feminino por meio de práticas de autoconhecimento e habilidades socioemocionais.

Aprendi que para nos conectarmos verdadeiramente com a nossa própria essência, é necessário silenciar todo e qualquer autojulgamento. Acima de tudo, é necessário abrir mão de quem se é, do que se sabe, para dar espaço ao vazio. Só o vazio é capaz de trazer um novo olhar sobre o mundo e sobre si mesmo: o olhar da espontaneidade, que nos permite desabrochar nossa auto-expressão mais genuína, e portanto viver uma vida com mais sentido.

Se olhar com mais amor pode mudar a forma como você encara várias áreas da vida. Libertar-nos de nós mesmos e principalmente das nossas crenças limitantes, é o único caminho para assumirmos nossas próprias potências e atuarmos no mundo de maneira mais consciente.

Na filosofia oriental do Tao, um homem deve caminhar para ser inteiro, curado, sagrado. Para tanto, é necessário ter consciência da sua ferida. Não deixe que piore: cure-a; ela só será curada quando você se deslocar para baixo, para as raízes e ser capaz de honrá-las, pisando firme no chão percorrido, com aceitação e abertura. É o que diz Swami Ashokananda, na frase que escolho para encerrar este artigo: “O único caminho é mudar a nós mesmos, mudar a nossa reação aos fatos e acontecimentos à nossa volta. A menos que haja alguma mudança em nosso interior, não podemos esperar uma mudança nos objetos de nossa percepção, pois tudo o que percebemos depende da condição de nossa própria mente”.

 

 

Gabrielle Picholari, é formada em Administração, com master em Gestão Ambiental e acredita que o autoconhecimento é a maior ferramenta de cura que existe. O lançamento do e-book Autocompaixão: a essência da felicidade, acontece dia 13 de setembro às 17h30 na Fundação Getúlio Vargas (FGV), com uma palestra aberta ao público.

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