“Tornar uma empresa inovadora é indelegável. Compete ao presidente. Caso contrário, não terá sucesso”

- 18 de novembro de 2016
Jesper Rhode, ex-CMO da Ericson América Latina e consultor da Hyper Island no Brasil, fala sobre inovação na Nova Economia e também em corporações. Uma pequena aula.
Jesper Rhode, ex-CMO da Ericson América Latina e consultor da Hyper Island no Brasil, fala sobre inovação na Nova Economia e também em corporações. Uma pequena aula.

“Empresas inovadoras e com crescimento exponencial focam sua atuação no preenchimento de lacunas não observadas no negócio de outras, e na conexão de pessoas ou empresas.” A afirmação — ou melhor, a fórmula da inovação permanente — é do dinamarquês Jesper Rhode, 51, ex-CMO da Ericsson América Latina e atualmente consultor da Hyper Island, uma das mais incensadas escolas de inovação digital com foco no desenvolvimento do pensamento criativo.

Jesper tem 20 anos de experiência em grandes companhias de tecnologia e um forte envolvimento com a comunidade de startups. Ele é um dos principais palestrantes do evento Black Sheep Project, que reunirá criativos e inovadores em Porto Alegre no próximo dia 25 para falar como ser é “ovelha negra” e estimular os presentes a deixarem sua zona de conforto. O primeiro lote de ingressos, no valor promocional de 140 reais, acaba amanhã. O Draft é parceiro de mídia do evento.

Mas de volta a Jesper, que ele tem muita coisa bacana para contar. Para ele, as grandes empresas que aproveitaram a inovação tecnológica em favor de um modelo de negócio — como Google, Apple, Facebook, Amazon, Uber e Airbnb — são as que atingem um resultado superior ao das concorrentes. Ele destrincha mais o que acredita ser o pulo do gato aí:

“Inovar e superar os concorrentes tem a ver com desenvolver um sistema que complementa algo já existente no mercado, conectando pessoas ou empresas e acelerando o modelo de negócio”

Sem fugir de exemplos já clássicos da Nova Economia, ele cita como exemplo o Uber, que conecta um passageiro com alguém que tem carro sem a necessidade de ter uma frota fixa, o Airbnb, que conecta pessoas com espaço ocioso em casa com quem procura um lugar para ficar, sem ter um hotel ou uma casa própria. E diz que a Apple também segue esta linha: “Inicialmente ela não pensava em ter o Apple Store, mas foi provocada por outras empresas e hoje é uma plataforma de venda de aplicativos”.

Outro modelo amplamente citado quando se fala de novos negócios, mas que a seu ver merece ser estudado com atenção, é o do Facebook: “Uma grande empresa de mídia que não possui nenhuma plataforma de conteúdo próprio, que utiliza material que nós, usuários, colocamos ali e o seu negócio gira em torno disso”.

De acordo com Jesper, as empresas com inovação exponencial, muitas vezes, utilizam força de trabalho e dinheiro sob demanda, sem necessitar de qualquer estrutura. E este é o grande potencial do negócio. “Nós da Hyper, por exemplo, não temos um escritório. Realizamos nossas atividades de forma virtual, com softwares que podem ser acessados por todos de qualquer lugar”, diz. E prossegue:

“Muitas empresas perceberam que não precisam de uma estrutura grande e sofisticada. Com isso, elas não visam reduzir custos, mas sim simplificar processos”

Quando se fala em inovação, Jesper ressalta — ou melhor, confirma — que o ciclo de vida das novas tendências e empresas tende a ser cada vez mais curto. Dá como exemplo a última febre da qual todo mundo já se esqueceu: “Hoje em dia ninguém mais escuta falar do Pokemon Go, tecnologia que explodiu em uma semana em todo o mundo, virou uma febre, mas foi deixada de lado em muito pouco tempo.”

COMO MANTER-SE COMPETITIVO EM UM AMBIENTE INOVADOR?

Jesper não doura a pílula. Para ele, manter-se competitivo em um ambiente inovador só é possível se as empresas se reinventarem constantemente. E volta a citar um exemplo, desta vez de um gigante corporativo. A General Electric tinha como principais produtos no seu casting a produção de locomotivas e turbinas de avião, ou seja, produtos pesados. Eles entenderam, ele prossegue, que pequenas empresas começaram a oferecer otimização para os seus produtos. “A GE, então, resolveu reformular o seu negócio, comprou uma empresa de análise de dados, criou uma plataforma na qual todos os seus clientes podem usar e armazenar seus dados, e hoje não é mais conhecida como empresa de produtos pesados, mas sim de dados”, afirma.

Para essas mudanças de conceito acontecerem, no entanto, Jesper diz que é preciso que o presidente ou o diretor geral da empresa dedique um tempo real para a sua transformação:

“Não dá para delegar a transformação de uma empresa a um diretor ou a um consultor. O presidente precisa investir um tempo significativo nisso para ter resultado”

A transformação, segundo ele, também depende de cada indivíduo. “Ser inovador não é uma exclusividade dos mais novos. Se fosse assim, eu já seria considerado velho para atuar com inovação e seria jogado em alguma máquina dentro de uma empresa que não exigisse muito esforço.”

A seu ver, as empresas têm de parar de usar a idade como filtro na seleção de pessoal, principalmente quando o assunto é tecnologia e inovação:

“A pessoa inovadora é aquela curiosa e que tem sede de conhecimento. E isso pode ocorrer em qualquer idade”

Ele prossegue: “Há jovens que apenas seguem o que lhes é passado, sem se preocupar em inovar ou buscar novas soluções. Ser inovador é um perfil que não tem prazo de validade”.

Uma forma de estimular a inovação no dia a dia de cada um, segundo Jesper, é ter uma vida social ativa, buscar informação, novidades, estudar e não achar que sabe tudo e que não precisa aprender mais nada. “O inovador é curioso. Recentemente, assisti a palestra de um neurocirurgião, nos Estados Unidos, que descobriu algumas coisas interessantes sobre o Alzheimer. Ele disse que o nosso cérebro tem grande chance de entrar em demência se pararmos de aprender. E se a gente continuar aprendendo, gerindo novas informações e ideias, conhecendo pessoas e mantendo uma vida social ativa, o risco do nosso cérebro encolher é muito menor”, conta.

Quando o assunto é aprender, Jesper é ainda mais enfático. “Precisamos mudar a forma como educamos nossas crianças. Não dá para manter um sistema de aprendizado de 100 anos atrás. É preciso incorporar mais prática do que teoria na vida escolar. Nossa memória é ativada pela emoção, precisamos despertar a curiosidade nas crianças.” Fim do nosso bate papo. E isso é só um aperitivo do que os gaúchos vão experimentar presencialmente no Black Sheep Project.

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