Um professor queria engajar seus alunos. Acabou criando uma startup de educação digital, a Me Passa Aí

- 18 de abril de 2017
Engenheiro e professor universitário, Luiz Gustavo Borges conta o segredo da Me Passa Aí: vídeos curtinhos, fáceis de achar e aulas sequenciais.
Engenheiro e professor universitário, Luiz Gustavo Borges conta o segredo da Me Passa Aí: vídeos curtinhos, fáceis de achar e aulas sequenciais.

O professor universitário Luiz Gustavo Borges, 35, sempre se incomodou com o índice de abandono nas faculdades, que hoje gira em torno de 25%. Formado em Engenharia de Produção, começou a dar aulas em 2007 e assumiu a coordenação desse curso em uma faculdade em Itaperuna, no interior do Rio de Janeiro. Preocupado com a desmotivação dos alunos, ele se viu determinado a mudar a situação usando a tecnologia de maneira bem simples: em setembro de 2013, montou uma lista de exercícios de matemática financeira mas, em vez de passar o gabarito, resolveu apresentar as respostas em um vídeo, postado no Youtube. Assim nascia, de forma caseira, a Me Passa Aí. A startup já figurou na seção Acelerados e hoje é referência para milhares de universitários.

Luiz chamou um aluno, que era seu amigo e seria um dos primeiros sócios da startup, Ítalo Coutinho, 24, hoje também formado em Engenharia de Produção, para apresentar o vídeo. “Gravamos com uma câmera amadora, cheio de eco, mas os alunos adoraram. As taxas de reprovação caíram e quem faltava conseguia acompanhar estudando sozinho”, conta o professor. Com o sucesso do primeiro vídeo e após assistir a uma palestra da Descomplica, site de videoaulas focado no pré-vestibular, Enem e Ensino Médio, descobriu que tinha em mãos um modelo de negócio para as universidades. Ele fala:

“O jovem cada vez mais estuda com videoaulas. Só que faculdade não tem esse costume. Daí veio a opção por atuarmos no Ensino Superior”

A metodologia da Me Passa Aí é também simples: os vídeos têm no máximo oito minutos (tempo limite para evitar a dispersão, diz Luiz) e matérias explicadas por alunos ou recém-formados, que falam uma linguagem simples e direta. Universitários de todo o Brasil podem se candidatar para gravar aulas na plataforma, bastando enviar um vídeo que será analisado pela equipe (a remuneração é por aula gravada e, segundo Luiz, superior ao que ganhariam em uma monitoria tradicional de faculdade). O conteúdo é selecionado a partir dos livros mais usados de cada disciplina e as aulas são aprovadas por professores certificados.

O primeiro protótipo do negócio foi um canal no Youtube, lançado um mês depois do sucesso da primeira lista de exercícios (aquela com eco). Em três meses, o canal teve mais de 10 000 visualizações. Luiz sentiu que o negócio tinha que ir além e decidiu montar uma plataforma. Para isso, chamou o concunhado, Cesar Augusthus Marques, 33, profissional de análise de sistemas, para entrar na sociedade e ajudar a desenvolver o site, que foi ao ar em abril de 2014  com quase 200 videoaulas.

Os vídeos do Me Passa Aí têm no máximo oito minutos, para evitar a dispersão.

Os vídeos do Me Passa Aí têm no máximo oito minutos, para evitar a dispersão.

Hoje a plataforma possui 3 500 videoaulas e o modelo de negócios é baseado em assinaturas que dão acesso ao conteúdo, sempre baseado nos livros mais utilizados em cada disciplina, das áreas de Exatas, Administração e Negócios, Direito e Ciências da Saúde. Há os planos mensal (29,90 reais), semestral (99 reais) e anual (149,90 reais), todos com direito a certificado das matérias assistidas, que servem também como comprovante de horas complementares para as faculdades. Desde o início do negócio, 3 000 alunos de 1 100 faculdades brasileiras já usaram o Me Passa Aí e, atualmente, 900 estão ativos na plataforma. “Eles brincam que a gente é a Netflix da Educação Superior”, conta o fundador da startup.

No entender de Luiz, os alunos buscam o serviço pago por três motivos: “Primeiro, pelo estilo das aulas, que são curtas. Depois, pela organização na plataforma, pois é possível achar qualquer conteúdo em quatro cliques. Por fim, pela continuidade, pois quem faz Cálculo I tem o II, e assim por diante”.

OS NÚMEROS NA PONTA DO LÁPIS

O crescimento do negócio foi possível pela persistência dos sócios, mas também porque conseguiram investimentos para seguir em frente. O primeiro aporte foi feito pelos próprios sócios, na época Luiz, César Augusthus e Ítalo. Em outubro de 2013, eles colocaram 30 mil reais na Me Passa Aí. Obtiveram mais ou menos a mesma quantia de fomento da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), o que custeou a criação da plataforma em abril do ano seguinte. Meses depois, veio um investimento-anjo, de 120 mil reais.

Na Me Passa Aí, os professores podem ser alunos recém-formados: a ideia é falar a mesma língua do jovem.

Na Me Passa Aí os professores podem ser alunos recém-formados: a ideia é falar a mesma língua do assinante.

No final de 2014, eles ganharam 20 mil euros ao vencerem o prêmio Energia, de Portugal. O montante foi usado para a gravação e edição das aulas para a plataforma em 2015, gerando 47 mil reais de faturamento no período. Mas nem todo o investimento recebido gerou resultado positivo para o negócio. Também há o prejuízo que vem dos deslizes de principiante, por exemplo, quando eles gravaram 300 (!) videoaulas sem testar um microfone recém-adquirido. “Isso aconteceu logo no começo, mas foi um aprendizado. Quando o material voltou da edição, descobrimos que o microfone trabalhou com uma oscilação de áudio que não rodava em todos os computadores. Gastamos mais da metade do nosso orçamento com aula perdida e quase a empresa foi por água abaixo”, conta Luiz.

Já em 2016, participaram de dois grandes programas governamentais de aceleração: o SEED, de Minas Gerais, onde ganharam uma bolsa de 80 mil reais, e o Startup Rio (com uma promessa de uma bolsa de 60 mil reais, mas que ainda não foi paga). Em setembro do ano passado, com uma campanha de equity crowdfunding, levantaram mais 250 mil reais, de 54 investidores que, em contrapartida, passaram a controlar 12,5% das ações da startup. Luiz conta que, graças aos recentes investimentos, a pressão por vendas foi menor no ano passado. Mesmo assim, o faturamento cresceu em relação a 2015 e foi de 85 mil reais.

EXPANDIR, MAS MANTENDO A IDENTIDADE

O CEO conta que, recentemente, decidiu oferecer também cursos de especialização para a formação universitária, Excel, Inglês, AutoCAD, Direito Administrativo para a prova da OAB, Gestão de Aprendizagem e Sketchup. A ideia é reduzir os custos financeiros e de estrutura que um aluno gastaria para fazer um curso convencional e que, na plataforma, são ministrados por especialistas em parceria com gigantes da área de educação como a Fundação Lemann e a Elos Educacional.

A startup tem atualmente 16 funcionários e a sede continua em Itaperuna, interior do Rio de Janeiro.

A startup tem atualmente 16 funcionários e a sede continua em Itaperuna, interior do Rio de Janeiro.

Dois projetos pilotos também estão sendo testados em faculdades parceiras, de forma gratuita. Um deles é uma videoteca que permite que o aluno assista uma matéria antes mesmo de a aula ser ministrada. A ideia é que o estudante chegue mais preparado na sala de aula. O segundo protótipo é um pacote com simulados gravados para preparar os alunos para o ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), que avalia a qualidade dos cursos de formação superior. “Ele funciona como uma ferramenta de métrica para o coordenador do curso, que terá relatórios individualizados, gerados pelo resultado do engajamento dos alunos com os vídeos assistidos e pelas respostas dos simulados”, diz Luiz.

Outra novidade é o recém-lançado aplicativo Me Passa Aí, que a partir de maio dará a possibilidade de os assinantes assistirem às aulas no modo offline. “O aluno pode estar no ônibus, sem gastar o pacote de dados da internet, e aproveitar para estudar.”

AGORA, O DESAFIO É ESCALAR

Como é comum a qualquer startup, depois de atravessar a fase inicial de lançamento e financiamento, a etapa seguinte é escalar. O objetivo dos sócios, hoje, é aumentar substancialmente a base de assinantes. O aporte recebido no modelo equity está sendo todo direcionado em marketing, com estratégias agressivas de divulgação, substituindo o boca a boca. Segundo Luiz, com o investimento em divulgação, já houve aumento de 600% no número de clientes e de 180% nas receitas mensais comparando os períodos pré e pós-investimento equity.

Os empreendedores apostam, também, no que chamam de “embaixadores”, que são alunos considerados referência na turma, para estimular a adesão de novos usuários, através da concessão de créditos a cada convite, teste ou compra realizada dentro da plataforma. E os sócios não descartam, também, associar-se a uma empresa de grande porte na área de educação digital, para ajudar a alavancar as vendas.

Apesar de o lado empreendedor de Luiz buscar viralizar o negócio, seu perfil de professor continua focado em manter os alunos engajados e em diminuir os índices de abandono nos cursos. Ele acredita que o Me passa Aí atende um gargalo importante na formação educacional do país:

“O Brasil colocou muita gente das classes C, D e E na faculdade, mas ainda não conseguiu melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. Esses alunos têm altos custos para continuar estudando”

A esperança do empreendedor-professor, ou do professor-empreendedor, é de que as videoaulas facilitem o processo de aprendizagem também para esse público, dando suporte para que mesmo diante de tantas dificuldades, eles persistam e frequentem o curso estimulados, até o último ano.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Me Passa Aí
  • O que faz: Videoaulas com conteúdo de cursos universitários
  • Sócio(s): Luiz Gustavo Borges (fundador) mais 62 sócios
  • Funcionários: 16
  • Sede: Itaperuna (RJ)
  • Início das atividades: abril de 2014
  • Investimento inicial: R$ 30.000
  • Faturamento: R$ 85.000 (em 2016)
  • Contato: (34) 9821-5530