Verbete Draft: o que é Economia Criativa

- 18 de março de 2015
John Howkins, o autor de Economia Criativa.
John Howkins, o autor britânico que melhor entendeu, e traduziu, a Economia Criativa para o mundo.

Gisela Blanco, que assina este texto, é jornalista mestre em Business Innovation pela University of London.

 

Continuamos a série que explica as principais palavras do vocabulário dos empreendedores da nova economia. São termos e expressões que você precisa saber: seja para conhecer as novas ferramentas que vão impulsionar seus negócios ou para te ajudar a falar a mesma língua de mentores e investidores. O verbete de hoje é…

ECONOMIA CRIATIVA

O que acham que é: Qualquer atividade que envolva criatividade.

O que realmente é: “A economia criativa abrange todo o ambiente de negócios que existe em torno da indústria criativa, aquela baseada em bens e serviços criativos”, afirma Ana Carla Fonseca, professora do MBA em Bens Culturais da Fundação Getúlio Vargas/SP. Para entrar na definição, o produto criativo precisa gerar valor, produzir riqueza. Assim, tocar violão nas horas vagas ou fazer um filme com os amigos, apesar de atividades criativas, só vão fazer parte da economia criativa se alguém estiver lucrando diretamente com elas — ou pelo menos tentando. Para entender melhor a economia criativa, é bom pensar em dois conceitos-chave: “intangible assets” (bens intangíveis) e propriedade intelectual. O primeiro diz respeito a obras que não podem ser tocadas fisicamente, como o conteúdo de um livro, softwares, músicas ou filmes, mas que podem ter alto valor intelectual e comercial. A marca “Coca-Cola” (não o refrigerante, mas a marca em si) é um bom exemplo: é só um desenho associado a um nome, mas é também um dos bens mais valiosos do mundo. Já propriedade intelectual é o conjunto de proteções que podem ser dadas a esses bens intangíveis, como copyrights e patentes — e que ajudam a identificar o valor comercial das obras. Segundo Ana Carla Fonseca, que é referência internacional em economia criativa e cidades, além de sócia da consultoria Garimpo de Soluções, uma das características dessa economia é o efeito “nobody knows” (ninguém sabe): cada vez que se cria um novo produto, ele sairá diferente dos anteriores.

Quem inventou: Os especialistas concordam ter sido no Reino Unido o surgimento da ideia de uma economia criativa, que precisava de atenção e políticas públicas diferentes das de outros setores. É do autor britânico John Howkins o mérito de condensar todas as discussões que vinham surgindo naquele momento e explicar o termo ao mundo, com o bestseller The Creative Economy – How People Make Money From Ideias (no Brasil, Economia Criativa – Como Ganhar Dinheiro com Ideias Criativas), de 2001.

Quando foi inventado: “Em um relatório de 1983, publicado pela primeira-ministra Margaret Thatcher, pela primeiríssima vez se reconheceu oficialmente a importância de áreas ligadas à tecnologia e à criatividade para o crescimento econômico do Reino Unido”, afirma Renata Reps, mestre em Indústrias Criativas pela Universidade Paris 8. Quase dez anos depois, em 1994, o então primeiro ministro Australiano Paul Keating publicou políticas públicas voltadas para a cultura, em um documento chamado Creative Nation, que já trazia o termo economia criativa. Logo depois, o primeiro ministro britânico Tony Blair incluiu o assunto em sua plataforma de governo, durante sua campanha para o cargo de primeiro ministro. Era um momento de grandes mudanças, de tentar entender um mundo que ia ficando cada vez mais digital, rápido e competitivo (com modelos de celulares mudando a cada ano, por exemplo), além de haver um grande pânico em torno da globalização. “Nesse contexto, foi ficando claro que, de duas uma: ou a economia se basearia nos melhores preços ou na diferenciação, ou seja, no valor agregado. E, para fazer serviços e bens diferentes, você vai ter que reconhecer o talento humano, que é a peça mais importante nessa nova economia”, diz Ana Carla Fonseca. Para estimular a economia criativa, investimentos em educação, por exemplo, passaram a ser vistos como essenciais.

Para que serve: A economia criativa responde hoje por boa parte da geração de renda e empregos em vários países. Como a lógica dos bens criativos é diferente da de outras indústrias, a exemplo das da construção ou da alimentação, que seguem um modelo de produção e distribuição mais tradicional, entender como funciona a economia criativa ajuda na hora de criar políticas públicas, organizar redes de inovação, proteger propriedades intelectuais e estimular o mercado em torno delas. “A ideia é gerar atividades alternativas ao modelo vigente, que aumentem o fluxo de inteligência dos negócios, incentivem a geração de networking entre diferentes áreas, unam grupos criativos dispersos e promovam talentos individuais”, diz Renata Reps, que já foi responsável pela divulgação da imagem do Reino Unido no Brasil.

Quem usa: Exemplos de empresas que fazem parte da economia criativa estão por toda parte: das startups que fabricam aplicativos ou lançam modelos de negócios disruptivos, às produtoras de vídeo, músicos, publicitários, programadores, designers e artistas que fazem de produtos e serviços criativos o seu ganha-pão. Recentemente, o time por trás do canal Porta dos Fundos ganhou destaque por faturar alto com esquetes patrocinadas por grandes marcas no YouTube. Aqui no DRAFT, a lista de exemplos de negócios criativos é grande. Só para citar os mais recentes, fazem parte da economia criativa histórias como as da Bebel Books, do Update or Die, Think Eva, PerestroikaBox 1824, Souartistapro e Énois. Outro bom exemplo é o Project Hub, que promove o prêmio Brasil Criativo, para as melhores iniciativas na área.

Efeitos colaterais: Uma das maiores dificuldades da economia criativa é mensurar o valor de um bem ou serviço (diferentemente de um smartphone ou de uma geladeira, por exemplo, que têm preço de mercado claro). “A lógica de mercado muda um pouco, já que esses bens têm mais valor simbólico do que funcional, um valor mais imaterial do que material. São bens e serviços de valores relativamente altos e que não estão necessariamente ligados aos seus custos de produção, mas sim ao objetivo de oferecer experiências únicas ao consumidor”, afirma Renata Reps.

Quem é contra: A maior controvérsia é sobre quais setores fazem parte da economia criativa ou não. Mundo afora, gastronomia, turismo, esportes e educação são defendidos por alguns especialistas e excluídos da lista por outros. No Brasil, a secretaria de economia criativa, que existe dentro do Ministério da Cultura, a classifica em 20 setores: artes cênicas, música, artes visuais, literatura e mercado editorial, audiovisual, animação, games, software aplicado à economia criativa, publicidade, rádio, TV, moda, arquitetura, design, gastronomia, cultura popular, artesanato, entretenimento, eventos e turismo cultural. Outro grande debate é sobre quais orgãos ou pastas deveriam cuidar do assunto. Enquanto no Brasil as políticas públicas pras indústrias criativas ficam a cargo do Ministério da Cultura, na Indonésia há o Ministério do Turismo e da Economia Criativa. Em Buenos Aires, quem cuida do assunto é o Ministério do Desenvolvimento. Há ainda um time de importantes teóricos sobre o assunto, como Justin O’Connor e Gaëtan Tremblay, que acreditam que não faz sentido ditar quais setores são criativos ou não, porque a criatividade deve ser aplicada a qualquer área da economia.

Para saber mais:
1)  Leia o livro The Creative Economy, de John Howkins.
2) Leia o livro Empreendedorismo Criativo, de Mariana Castro, que traz nove histórias completas sobre novos empreendedores brasileiros e seus empreendimentos criativos.
3) Assista ao documentário PressPausePlay, que discute as mudanças da arte e da criatividade na era digital.
4) Veja a entrevista que John Howkins concedeu ao DRAFT.
5) Leia o guia que a Amcham acaba de publicar para investidores estrangeiros, sobre a economia criativa no Brasil.

 

Veja aqui mais verbetes desta série.

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