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Verbete Draft: o que é Holocracia

- 13 de janeiro de 2016
Fora da caixa, dentro da caixa. A americana Zappos, que vende sapatos online, adora a holocracia: não há nomes de cargos nem hierarquia, só resultados.
Fora da caixa, dentro da caixa. Funcionários da americana Zappos, que vende sapatos online e adota a holocracia: não há nomes de cargos nem hierarquia, só (muito) trabalho e resultados.

Continuamos a série que explica as principais palavras do vocabulário dos empreendedores da nova economia. São termos e expressões que você precisa saber: seja para conhecer as novas ferramentas que vão impulsionar seus negócios ou para te ajudar a falar a mesma língua de mentores e investidores. O verbete de hoje é…

HOLOCRACIA

O que acham que é: Um tipo de sistema político.

O que realmente é: Holocracia, do inglês Holacracy, é um método de gestão que retira o convencional sistema de poder hierárquico e o distribui a todos os funcionários, que passam a ter papéis (roles) — e não cargos — executados autonomamente. Nas palavras do criador, Brian Robertson, Holocracia é uma “nova tecnologia social, a forma como humanos se mostram e interagem”. Para João Brandão, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EASP) da FGV, é possível entender o significado de Holocracia partir de analogias e do que ele chama de “empréstimo”. “A junção de holo + cracia, que significa governo de todos, no sentido de que todos e em todos reside a capacidade a responsabilidade pela definição do que deve ser feito, e tomando emprestado o sentido da palavra holismo, na sua conceituação filosófica, que é a tendência, que se supõe como própria do universo, de sintetizar unidades em totalidades organizadas”, diz.

Professor dos cursos de pós-graduação da FIAP em assuntos relacionados a Desenvolvimento Organizacional, Liderança, Gestão de Pessoas e Gerência de Mudanças, Marco Antônio Lovizzaro cita outra definição de Roberston para Holocracia: “Máquina de moer tensões e gerar melhoria contínua”. E diz que Holocracia é tanto um sistema para dirigir e governar empresas de forma ágil como uma maneira de administrar uma empresa através da remoção do poder de uma estrutura hierárquica, substituída por um sistema de distribuição de autoridade. “É também um conjunto de práticas para estruturar, governar e conduzir uma organização e uma tecnologia social para empresas com propósito”, afirma.

A estrutura da Holocracia funciona assim: há times (chamados de círculos) auto-organizados aos quais são dados papéis e cabe a eles decidir, internamente, qual é a melhor forma de desenvolvê-los. Os círculos, que substituem o sistema tradicional de hierarquia piramidal, embora autônomos, são interconectados. “A ideia do modelo de holocracia em gestão é estabelecer um novo padrão em que todos participam da gestão da empresa, cada um com o seu papel e suas responsabilidades, gerenciando ativamente a parte do processo que lhe cabe, cobrando resultados e sendo cobrado pelos resultados que deve gerar”, fala Lovizzaro. Segundo o professor da FIAP, não se pode confundir Holocracia com auto-gestão. “Holocracia é, sim, uma auto-organização, sempre baseada na prática e não apenas no arcabouço técnico”.

Com a adoção do sistema pela Zappos, a gigante varejista online de calçados e roupas (hoje pertencente à Amazon), no início de 2014, passou-se a falar mais em Holocracia que, na verdade, não é o único sistema de flat management (leia o Verbete sobre Gestão Horizontal aqui). Na matéria intitulada Holacracy and 3 of the most unusual management practices around, publicada ano passado, a Fortune fala também de Flat Structure, Self-Management e Lattice Organization.

Quem inventou: O americano Brian Robertson, consultor, ex-empreendedor de tecnologia e fundador da Ternary Software, empresa que já colocava em prática novas e mais democráticas formas de gestão. Na Ternary foi incubado o que viria a ser a atual Holacracy.org. O termo holacracy é derivado de holarchy, cunhado pelo autor e jornalista Arthur Koestler, em 1967, no livro The Ghost in the Machine.

Quando foi inventado: Em 2007 a Holocracia tornou-se oficialmente um sistema de gestão. Em 2010, Brian Robertson criou a Holacracy Constitution (atualmente na versão 4.1), que estabelece princípios, diretrizes e práticas do sistema. Em junho do ano passado, Robertson lançou o livro Holacracy: The New Management System for a Rapidly Changing World, que explica e detalha o sistema.

Para que serve: De acordo com Lovizzaro, a Holocracia serve para que a empresa tenha mais agilidade na tomada de decisões, para otimizar o fluxo de informação, o encorajamento para a experimentação, para o aprendizado em ciclos rápidos, para organizar uma rede de empregados, clientes e parceiros com objetivos comuns. “Serve também para tornar a organização estruturada para aprender e responder rapidamente às demandas dos clientes e ser mais responsiva aos desafios e necessidades de mercado”, diz. Brandão afirma que a Holocracia serve para instrumentalizar um intento estratégico, assim como qualquer outro modelo de gestão, mas aponta para o fato de que não existe um modelo certo ou melhor em si. “O que existe é a consistência ou não, em termos de práticas, do modelo adotado. Precisamos tomar cuidado com modismos (alimento da indústria de publicações, cursos e consultorias) ou com simulacros (se funciona numa dada empresa, não necessária e automaticamente vai funcionar em outra)”, fala.

Quem usa: Em geral, empresas tidas como de vanguarda em termos de gestão. A já citada Zappos, a Whole Foods e o Medium (cujo CEO é Ev Williams, co-fundador do Twitter) são alguns exemplos de empresas conhecidas que utilizam o sistema. Brandão diz que em ONG’s e startups é comum haver sistemas similares ou adaptados da Holocracia. “Com o tempo, parece ter havido uma aproximação desse conceito com o de capitalismo consciente”, diz Brandão.

Efeitos colaterais: Brandão acredita que se a equipe não for madura o conceito se desdobra à esfera individual, e cada um pode querer seguir apenas a própria vontade. “Outro risco é a liderança não saber lidar com a ausência do poder típico, já que a Holocracia é baseada em troca, confiança”, fala. Lovizzaro diz que a falta de comprometimento de algum participante da equipe pode ser um efeito colateral importante. “O modelo exige um grau de flexibilidade dos profissionais participantes.”

Quem é contra: “É difícil saber quem é contra, mas organizações com forte cultura hierárquica e centralizadoras terão mais dificuldade em aceitar um modelo que extingue a tradicional estrutura piramidal, em que o poder vem de cima para baixo”, diz Lovizzaro. Brandão acredita que não há motivos para alguém ser contra. O que pode haver são resistências, por desconhecimento ou por não alinhamento com a natureza do negócio: “Há pessoas ou instituições que não apreciam muito ‘novidades’ embora possam adotá-las diante da comprovação de que funcionam”.

Para saber mais:
1) Assista ao TEDx Holacracy: A Radical New Approach to Management, de Brian Robertson.
2) Leia, no Quartz, Zappos is going holacratic: no job titles, no managers, no hierarchy, um texto sobre como a varejista online adotou o sistema.
3) Leia, na Harvard Business Review, The Big Misconceptions Holding Holacracy Back, texto ao mesmo tempo positivo e crítico — especificamente sobre alguns pontos — do sistema.

Tecnisa

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