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Verbete Draft: o que é Internet das Coisas

- 20 de maio de 2015
BK Yoon, CEO da Samsung, apresenta a visão de IoT da empresa no CES em Las Vegas.
BK Yoon, CEO da Samsung, apresenta a visão de IoT da empresa no CES em Las Vegas.

Gisela Blanco, que assina este texto, é jornalista mestre em Business Innovation pela University of London.

Continuamos a série que explica as principais palavras do vocabulário dos empreendedores da nova economia. São termos e expressões que você precisa saber: seja para conhecer as novas ferramentas que vão impulsionar seus negócios ou para te ajudar a falar a mesma língua de mentores e investidores. O verbete de hoje é…

 

INTERNET DAS COISAS

O que acham que é: Um novo tipo de internet.

O que realmente é: A Internet das Coisas, ou, em inglês, Internet of Things (IoT) é a rede formada com todo tipo de coisas (de objetos a animais) conectadas e trocando dados pela internet. Não é necessariamente uma nova internet, mas é uma forma diferente de usá-la, sem tanta intervenção humana. Na Internet das Coisas, não é preciso que exista alguém em frente ao computador. Pode ser simplesmente a geladeira trocando informações com o computador do supermercado (talvez para avisar que o leite acabou), a coleira do cachorro se conectando com o celular do dono (para avisar que ele fugiu) ou os carros se conectando com uma rede especial da cidade, para se locomoverem sem precisar de motorista. “A Internet das Coisas nada mais é do que a continuação do movimento de digitalização, de transformação digital. É a internet entrando no mundo físico, conectando todas as coisas”, afirma o empresário e engenheiro mecatrônico Flávio Maeda, membro do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas e do The Internet of Things Council.

Quem inventou: O primeiro a falar o termo “Internet das Coisas” foi o executivo Kevin Ashton, em uma palestra na Procter & Gamble (P&G), em 1999. Na época, Ashton pesquisava sobre formas de gerir a distribuição de produtos da empresa, o que o levou a tentar conectar as embalagens à internet de alguma forma. Assim eles sempre saberiam, por exemplo, a localização exata dos produtos a partir do momento que saem da fábrica. Começou a pesquisa em parceria com o Massachusstts Institute of Technology (MIT), usando sensores de RFID (identificação por rádio-frequência) sendo aplicados nos produtos. O trabalho evoluiu, e Ashton foi para o MIT criar um centro de pesquisa especial para a tecnologia das etiquetas RFID, que ainda hoje são muito usadas em coisas conectadas à internet. Essas etiquetas podem responder ou enviar sinais que são lidos por uma base. Os usos são infinitos: se uma etiqueta for colocada na coleira de um cachorro, por exemplo, ele pode passar a transmitir informações sobre a localização do bicho para o dono. Ou em produtos de um supermercado, que podem ser monitorados por uma central, recebendo todo tipo de recados: este está sendo colocado no carrinho, aquele outro está acabando no estoque, e por aí vai.

Quando foi inventado: Foi em 1999 que Ashton apresentou o termo “Internet das Coisas” ao mundo. Mas pelo menos 10 anos antes, já tinha gente prevendo um mundo inteiro conectado. A ideia existia como parte do conceito de “Ubiquitous Computing”, ou, em português, “computação pervarsiva”, aquela que está em toda parte. Esse termo nasceu no final da década de 1980, com a ideia de que a computação um dia se tornaria tão presente na vida das pessoas que nós nem perceberiamos mais se o que estamos fazendo tem ou não interferência de um computador. Uma daquelas previsões acertadas: hoje, sem prestar atenção, usamos para coisas simples, como chamar um taxi com o smartphone. E para outras complexas, como médicos que fazem cirurgias inteiras à distância, com ajuda de robôs. “Antes, já tinhamos também o conceito de Machine to Machine (M2M), com computadores interagindo uns com os outros. Mas acabavam sendo ligações pontuais. Hoje, as mudanças com a Internet das Coisas são muito maiores, a troca de dados é enorme e as possibilidades do que podemos fazer também”, afirma Flávio Maeda.

Para que serve: Você acorda e o despertador do seu relógio inteligente já avisa para a cafeteira que é hora de fazer um café quentinho. Na mesma hora em que o café sai, a máquina envia uma mensagem à central de distribuição do produto avisando que as cápsulas estão acabando na sua casa. Ali ao lado, a geladeira também tem essa capacidade de identificar o que falta e fazer o pedido aos fornecedores, te poupando desse trabalho. Se alguma peça da geladeira estiver prestes a quebrar, o computador de bordo também já avisa à central da marca para mandar uma assistência técnica, antes mesmo que você saiba que ela deu defeito. Assim, você pode deixar tudo por conta da sua casa e ir para o escritório tranquilo, no seu carro, lendo seu jornal. Sim, porque você não vai precisar prestar atenção na estrada: o carro vai se dirigir sozinho, com ajuda de um “smart grid”, uma espécie de rede inteligente invisível que cobre todas as ruas da cidade e que se conecta aos carros, troca informações com eles e permite que todos circulem com autonomia. “No consumo, as maiores mudanças estarão nos wearables, na casa e nos carros conectados. Coisas que vão aumentar a conveniência, facilitar a vida das pessoas”, diz Maeda. Já nos negócios, talvez a maior transformação seja em como as empresas vão conseguir chegar mais próximo dos clientes. “Com as coisas conectadas, vamos ter perfis muito claros dos clientes. Saber exatamente o que querem, como usam os produtos, que tipo de café prefere etc”, afirma. Segundo o empresário, isso vai implicar também em uma mudança nos modelos de negócios. “Vão surgir modelos que hoje nem imaginamos que sejam possíveis. Muitas empresas que sempre foram só fabricantes de produtos, por exemplo, vão começar a oferecer serviços também”, afirma. Ele cita o caso da Michelin, que sempre produziu pneus e há pouco comprou a empresa de rastreamento de frotas brasileira Sascar. Com tags de FRID nos pneus, a empresa agora também faz o serviço de monitoramento de caminhões à distância. Entre várias informações, podem para saber quantos quilômetros foram rodados, quais pneus foram trocados etc.

Quem usa: Em uma pesquisa feita pela revista The Economist em 2013 com 779 CEOs de empresas do mundo inteiro, 96% deles disseram que esperam até 2016 estar usando a Internet das Coisas pelo menos em algum aspecto de seus negócios. Isso não se restringe só às empresas que fabricam produtos, como Apple, Samsung, e LG, que recentemte lançaram seus smart watches. Empresas de serviços também fazem parte da corrida para adotar as novas tecnologias. Um exemplo são as seguradoras, que já usam dados captados pelas coisas (carro e smartphone, por exemplo) para oferecer descontos a clientes que se arriscam menos no trânsito. Até mesmo as empresas mais tradicionais já começaram a apostar pesado na Internet das Coisas. Há poucos dias o diretor-presidente da gigante alemã Bosch, Volkmar Denner, disse para o The Wall Street Journal que o futuro da companhia depende da Internet das Coisas. Para se reiventar pensando na nova tecnologia, a empresa inclusive comprou uma fabricante de dispositivos inteligentes chamada ProSyst Software GmbH, com 110 funcionários, e disse ainda que pretende contratar outros 12 mil para trabalhar na área. No Brasil, os interesses também crescem. Há casos como o da Bascol, empresa de atacado de produtos infanto-juvenis, que já é a segunda maior usuária de etiquetas com RFID nas embalagens – são cerca de 70 mil por dia. No setor de vestuário, ela fica atrás apenas da inglesa Marks & Spencer. “Essas etiquetas fazem o produto ficar inteligente. É como se fosse colocado um computador microscópico dentro da embalagem de cada produto. Quando recebe um sinal de rádio-frequência, é capaz de transmitir de volta um sinal, falar quem ela é, dizer suas características. É como se o produto estivesse falando”, afirma Edson Perin, editor do RFID Journal Brasil.

Efeitos colaterais: Para crescer, a Internet das Coisas enfrenta dois problemas principais: falta de estrutura e a falta de regulamentação. Para começar pelo mais básico: para que a Internet das Coisas funcione, é preciso, antes de tudo, que as coisas tenham de fato acesso à internet. Seja por cabo, rádio ou redes 3G ou 4G. Uma pesquisa da Gartner estima que até 2020 teremos cinco vezes mais coisas conectadas do que temos hoje – de 4,8 bilhões, irão para 25 bilhões. Como organizar a quantidade de informações que todos esses objetos vão trocar? Uma das soluções que os especialistas defendem seria adotar o sistema Ipv6, que permite a criação de mais números IP (uma espécie de endereço que cada computador, smartphone ou tablet tem, e que será necessário também aos outros objetos conectados). Já a regulamentação, ou padronização, diz respeito à “língua” que os objetos conectados vão falar. “Há hoje uma série de consórcios trabalhando para ver esses padrões, como o da Intel e da Samsung, e o Hypercat, do Reino Unido”, afirma Maeda.

Quem é contra: As discussões sobre internet das coisas esquentam mesmo quando o assunto é privacidade. Com tanto acesso às informações do usuário (desde a localização até as preferências mais refinadas), muita gente pode se sentir vulnerável. Seja em relação às próprias empresas, ao governo ou a outras pessoas quaisquer, que possam estar mal intencionadas. No início do ano passado, hackers usaram uma geladeira inteligente para fazer um ataque. E se fosse o seu carro? Ou o marcapasso de um idoso? Por isso alguns consórcios também vem tentando sugerir normas de segurança. Como a AllSeen Aliance, e a União Europeia, que instituiu uma comissão de governança sobre a internet das coisas. “Especialmente em países como os Estados Unidos, em que há um medo da vigilância do governo, essa questão é mais tensa”, diz Maeda. “Mas talvez nós já tenhamos que lidar agora com uma falta de privacidade parecida, quando usamos gadgets da Apple, ou o próprio Google. Mas as pessoas não se preocupam tanto assim, porque os benefícios compensam”, afirma. Para ele, uma forma ainda de driblar esse medo é fazendo discussões, levando o assunto para a mesa. Um exemplo é o grupo Internet das Coisas na prática, organizado por Maeda, que se faz reuniões em São Paulo e é aberto a quem quiser participar. “Além das conversas e palestras, já lançamos também desafios colaborativos, como o de criar uma cadeirinha de bebê inteligente que avisa os pais se as crianças forem esquecidas no carro”, diz.

Para saber mais:
1) Assista esses vídeos que mostram exemplos de rotinas com todas as coisas conectadas.
2) Leia a sessão de Internet of Things no site da revista Wired.
3) Leia esse artigo de Kevin Ashton, que inventou o termo Internet das Coisas. E também essa entrevista recente com ele.
4) Vá a um Meetup do grupo Internet das Coisas na Prática, em São Paulo, organizado por Flávio Maeda.

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