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“Viver é caminhar sem medo. Sei as coisas que eu não quero – as outras eu quero descobrir”

- 28 de julho de 2017
Chiara Martini, em NY. "Fazendo parte e fazendo a minha parte. A realidade é que não importa se é Nova York ou Bassano. A gente tem os mesmos dilemas em qualquer lugar".
Chiara Martini, em NY. "Fazendo parte e fazendo a minha parte. A realidade é que não importa se é Nova York ou Bassano. A gente tem os mesmos dilemas em qualquer lugar".

 

por Chiara Martini

Há um mês eu fiz mais uma grande mudança na minha vida. Nasci em Indaiatuba, aos 17 fui para São Paulo, aos 31 para Nova York e agora, aos 33, deixo Nova York para viver em Bassano Del Grappa. Só para te dar uma referência, é uma cidade de 36 mil habitantes na província do Veneto, no Nordeste da Itália. Quem me conhece sabe o quão cosmopolita e agitada eu sou, então não me assustou que a primeira reação das pessoas mais próximas tenha sido um belo “mas como assim?”.

Uma proposta de trabalho foi o que abriu essa porta, porém o que me fez decidir foi algo muito maior do que uma escolha profissional.

Eu fui para Nova York com planos de ficar pelo menos três anos. Na metade do caminho já tinha certeza de que ia acabar ficando pelo menos uns cinco. Me apaixonei pela cidade, pela rotina que criei lá, pelo bairro onde morava, por ter conseguido lidar com a distância da família e dos amigos queridos de forma saudável, pelas amizades que fiz, por ter conseguido — mesmo que às vezes reclamando mais do que eu gostaria — lidar com a cultura empresarial americana e essa ideia errada que alguns têm de que aquilo “é o melhor que se pode ter”. Sempre amei grandes cidades e estava lá, em plena Manhattan.

Aí mudei a rota. Não estava nos planos, não estava no radar, mas apareceu uma oportunidade. E eu resolvi abraçar

Por que eu mudei? Não sei se vocês têm clareza do que querem da vida, do que esperam do futuro. Eu não tenho. O que me guia nesses momentos geralmente são as coisas que eu não quero — agora, nesse momento.

Essa ênfase no “hoje” existe porque me comprometi comigo mesma a sempre estar aberta a rever as certezas caso o sentido das coisas mudasse. E isso muda o tempo todo na vida da gente. Eu não quero seguir adiante em algo que fazia sentido no passado só porque fazia sentido no passado. Não quero seguir no automático em projetos que acabam sendo o sonho de outra pessoa, nem viver para atender a expectativas a meu respeito, seja dos meus pais, dos meus chefes, da tal da sociedade. Eu não quero.

Por exemplo, já sei que não quero ser CEO nem de grande nem de pequena empresa. Então o caminho tradicional de crescimento profissional não faz tanto sentido para mim. Ou: sei que não quero gerar e parir uma criança, então quando meu ginecologista vem me oferecer planos de congelamento de óvulos, pois eu estou quase com 34 anos, eu nem pergunto quanto custa. Eu não preciso parir para ser mãe

Eu sei também que não quero olhar para trás na minha vida e ter como maior desejo voltar no tempo ou ficar arrependida porque não fiz o que eu na verdade gostaria de ter feito.

Viver guiada pelo que eu não quero, mais do que pelo que eu quero, me permite coisas como alterar o plano de voo no meio do caminho, trocar de sonho e não ter tanto medo de falhar em uma coisa que eu fixei na minha cabeça. Não sou refém de nenhuma obsessão de algo que eu preciso ter ou ser.

Mas se você acha que eu vim aqui só pra fazer um textinho bacaninha para te contar o que é que eu vou fazer com essa tal liberdade, que agora eu tomo Spritz Aperol por 3 euros e que o tomate daqui tem um sabor surreal de tão bom, continua aqui comigo mais um pouco.

Uma sábia amiga um dia me ensinou que toda decisão provoca um corte, uma cisão, e que isso significa que você está escolhendo uma coisa e deixando outra para trás. E vou te dizer que isso aí dói. Isso aí dá insônia, dor de estômago, irritação por bobeiras e outras coisas mais.

Querer viver com a possibilidade de mudar de planos a qualquer momento significa que você precisa desenvolver um estômago de ferro e uma relação saudável com as lágrimas. Que você vai se ver escolhendo entre crescer profissionalmente ou apostar numa relação. Entre fazer uma mudança de novo e conhecer gente nova ou ficar, criar raízes e aprofundar suas amizades. Entre curtir a estabilidade recém adquirida ou ficar insegura por meses a fio de novo porque você não sabe bem o que esperar nem como vai ser.

A realidade é que não importa se é Nova York ou Bassano. De verdade, não importa. A gente tem os mesmos dilemas em qualquer cidade. Porque a coisa está dentro da gente

E a gente carrega ela para onde for. Não se pode só levar em conta as fotos do Instagram, você sabe e eu sei que aquilo é apenas um recorte da vida. Não importa. Bassano, Nova York, São Paulo, Indaiatuba. Cidade nenhuma vai te fazer feliz. Delegar felicidade para uma cidade, outra pessoa ou para o dinheiro não vai funcionar. A felicidade está, ou não, dentro de você.

Por isso eu mudei. Porque estou me fortalecendo e me conhecendo nessas mudanças. Estou aprendendo e vivendo coisas que, se a minha decisão fosse ter ficado, eu jamais viveria. Estou aprendendo que a solidão é temporária, que a conexão com as pessoas não respeita as leis de tempo e espaço, e que me colocar em situações novas faz meu cérebro performar melhor, me estimula a sorrir mais — por mais que eu chore mais também.

Eu não tenho certeza do que eu quero. Mas já sei que eu não quero viver de “e se”. Por enquanto, está dando certo.

 

 

Chiara Martini, 33, hoje é Global Head of Digital na Diesel, mas na verdade é só mais uma pessoa que está querendo aproveitar ao máximo o tempo que tem por aqui.

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