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“A disrupção na educação acontece quando a relação entre aluno e aprendizado deixa de ser passiva”

- 16 de julho de 2018
Daniel Castanho, CEO da Ânima Educação, fala dos desafios da educação de massa, da importância do protagonismo no ensino e de como a inovação é importante para renovar o setor.
Daniel Castanho, CEO da Ânima Educação, fala dos desafios da educação de massa, da importância do protagonismo no ensino e de como a inovação é importante para renovar o setor.

Daniel Castanho, 42, é CEO e sócio-fundador da Ânima Educação, um dos maiores grupos educacionais privados do país, com mais de 100 mil alunos espalhados em cinco estados (São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Goiás e Paraná). Formado em Administração, o sorocabano, pai de duas meninas e um menino, já foi professor de Matemática, Estatística e Física e acredita que a educação é o meio mais eficaz para que as pessoas possam realizar seus projetos de vida. Para ele, o futuro da área está na “personificação em massa”, ou seja, na oferta de um ensino em que o aluno é protagonista de seu percurso formativo.

Segundo Daniel, a maior parte das escolas e universidades ainda está presa a um pensamento da era industrial, que não olha para o desenvolvimento das habilidades e das competências dos estudantes. Por isso, conta que o grupo desenvolveu um ecossistema de aprendizagem com um currículo mais flexível (baseado em desenvolvimento de competências e não de conteúdos) e que pode ser customizado pelos próprios alunos.

A Ânima, que já foi eleito como uma das três empresas mais inovadoras no setor de serviços pelo jornal Valor Econômico, em 2017, também aposta na filosofia maker, em que os alunos são estimulados a adotar uma postura empreendedora, a prototipar e a testar soluções em espaços como fablabs e integrar turmas de diferentes disciplinas. Leia a seguir os principais trechos da conversa com Daniel.

Nunca houve tantos cursos à disposição, em diversos formatos e muitos deles gratuitos. Como sobreviver nesse mercado?
De fato há uma variedade de formatos. Mas ainda vemos escolas e universidades em que o professor é a figura que transmite o conhecimento e diz ao aluno o que ele deve aprender, colocando-o em uma posição de quem sabe menos. É com essa postura que ele chega ao mercado de trabalho e espera que seu chefe sempre diga o que fazer. É um pensamento ainda da era industrial, que não olha para o desenvolvimento das habilidades e das competências do sujeito.

disrupção na educação acontece quando a relação entre aluno e aprendizado deixa de ser passiva

Nós desenvolvemos um ecossistema de aprendizagem com um currículo mais flexível, baseado em desenvolvimento de competências e não de conteúdos. O aluno pode personalizar o percurso formativo dele. Apostamos que a personalização em massa vai ser a grande revolução desta área.

A Ânima é hoje um dos maiores grupos educacionais privados do Brasil, com mais de 100 mil alunos. A quantidade não atrapalha a qualidade?
Acreditamos genuinamente no valor do que oferecemos, por isso, queremos que mais pessoas tenham acesso às nossas instituições. Temos 100 mil alunos, mas que estão distribuídos em campus de dois mil alunos, em média. A estrutura do nosso projeto de escala não é baseada na padronização e, sim, na personalização para o aluno. Nós investimos na dupla professor-tecnologia para garantir a qualidade com escala. A nossa ambição é dar significado ao que o aluno está aprendendo e ajudá-lo a desenvolver seu projeto de vida.

Qual é o sentido e a função da hierarquia nas organizações, em um mundo cada vez mais descentralizado e operando em rede?
Existe uma regra na Ânima: qualquer pessoa pode falar com alguém que está acima na hierarquia, sem pedir permissão de seu chefe direto, por exemplo. Qualquer pessoa pode falar comigo, meu celular está no meu cartão. Apesar de existir uma hierarquia no organograma do grupo, há uma fluidez entre as relações porque acreditamos que as pessoas estão trabalhando pelo mesmo propósito.

Qual é o futuro para as aulas e a escola físicas diante das ofertas de Educação à Distância (EAD)?
Na minha visão, o mundo será cada vez mais híbrido, vemos um aprofundamento na permeabilidade entre o on e offline e na indissociabilidade entre o físico e o virtual. O ambiente físico é tão importante quanto as relações que se dão fora dele. No entanto, o ensino à distância (EAD) ainda tem seus problemas:

Hoje o ensino à distância é ruim porque, muitas vezes, se resume ao envio de um PDF. Do outro lado, o presencial pode ser muito chato quando não entrega nada além do que o aluno pode buscar no Google

Acredito na oferta de um ambiente físico mais social, de maior integração, de troca de experiências, de prototipagem e de desenvolvimento e também no uso da tecnologia para ampliar e acelerar o conhecimento. Acho que estamos caminhando para um modelo de “omnilearning” (referência ao conceito de omnichannel, de convergência de canais em uma empresa), em que já não vamos mais conseguir separar o que é o quê.

Que projetos inovadores levaram a Ânima a ser considerada como uma das três empresas mais inovadoras no setor de serviços (Valor Econômico, 2017)?
Mais que projetos, nós temos uma cultura inovadora. Poderíamos ser uma empresa que acerta dez em cada dez, ou oito em cada dez propostas. Preferimos a segunda opção. Incentivamos o erro honesto, arcamos com os custos disso, damos apoio para que as pessoas arrisquem com o nosso CNPJ. Em uma reunião, por exemplo, digo que não entram cargos, ou seja, todo mundo pode falar o que quiser. Também validamos o conflito de ideias, por isso, queremos grupos diversos, com pensamentos distintos.

Quando juntamos pessoas heterogêneas, incentivamos o conflito de ideias e assumimos os erros. Isso é cultura de inovação

Vocês adotaram algumas iniciativas, como Ânima Lab e Ânima Nest, que incentivam o empreendedorismo entre os alunos do grupo. O que são esses projetos e como eles têm se desenvolvido?
O Anima Lab é um ambiente em que professores e alunos de diferentes carreiras e áreas são incentivados a prototipar, testar e solucionar problemas de uma maneira muito prática, em um espaço maker. Integrado ao Lab, temos o Anima Nest, programa de pré-aceleração de empresas do grupo Ânima. Além de desenvolver habilidades essenciais do século 21, como liderança, resolução de problemas, criatividade e colaboração, a iniciativa quer ajudar os alunos a transformarem ideias empreendedoras em projetos concretos. Este é um espaço, inclusive, aberto para a comunidade.

Acima, o Anima Lab, onde alunos, professores e a comunidade podem desenvolver projetos.

Quais são as novas tecnologias que estão impactando os negócios na indústria de educação? Como a Ânima está reagindo a elas?
Estamos desenvolvendo mindset que não seja voltado apenas para a área de vendas, mas que possa ser usado para aprofundar o feedback aos alunos, dando a eles mais do que acesso a notas, ajudando-os a compreender a forma como aprendem, por exemplo. Há também ferramentas que introduzimos em nossos cursos, como é o caso do de Arquitetura, em que usamos óculos de realidade virtual que permitem aos professores transportarem os alunos para uma aula no interior da Itália, por exemplo. O importante é sempre observar o uso da tecnologia, seja ela qual for. Eu falo que não adianta o cara usar o Google Drive apenas para digitalizar algo, se não fizer uso das possibilidades de interação e colaboração que a ferramenta dispõe.

Você tem uma história como empreendedor. Quais são as principais diferenças do mundo do empreendedorismo para o mundo corporativo, no qual você agora atua como executivo?
O empresário é alguém que assume riscos e seu ambiente movido pelo retorno financeiro. O que acontece é que o ambiente corporativo é pautado por resultados a curto prazo e isso pode se chocar com o perfil do empreendedor, que está profundamente ligado ao propósito e a uma construção a longo prazo. O empreendedor é alguém que trabalha para uma causa, se preciso for, inclusive, de graça. Penso que hoje estou fazendo o melhor que posso para agregar algo para a sociedade. O dia em que achar que não estou fazendo diferença, vou tomar outro rumo. Acredito em uma empresa que tenha processos, governança, meritocracia, gestão profissionalizada, mas que tenha propósito claro. A Ânima é uma empresa de capital aberto porque isso implica em uma sofisticação maior no que se refere à governança, à prestação de contas, ao retorno financeiro, sem abandonar sua cultura.

Qual é a realização da qual você mais se orgulha em sua carreira?
Me orgulho de criar um ambiente em que as pessoas sintam que vale a pena trabalhar. Para mim, atura na área de educação é contribuir para que outro alguém seja mais realizado. Isso me deixa feliz e satisfeito com o que faço.

E qual é o seu maior arrependimento?
Tenho uma frustração, algo que me tira o sono. Nós ainda seremos repugnados por nossos netos e tataranetos por convivermos hoje com dois tipos de escola: uma para os nossos filhos e outra para os demais.

As nossas escolas são um depósito de crianças. Trabalhei pouco para mudar esta realidade e isso é algo que me move

Quero influenciar e ajudar a transformar essa questão em diferentes frentes.

A Ânima vive de formar profissionais para o mercado. Qual é o perfil do novo profissional que o mercado demandará daqui para frente?
Um cara que saiba aprender a aprender, seja curioso, indignado com o status quo, que queira fazer a diferença. O mercado buscará pessoas que sejam capazes de conviver com as diferenças e saibam ouvir — seja para reforçar o que já pensam, para mudar de opinião ou até para encontrar um terceiro caminho.

O que você faria diferente se pudesse voltar dez anos? E onde quer estar em uma década?
Sempre busquei fazer tudo de uma maneira honesta, verdadeira e genuína em relação à essência do que me propus. Só agradeço as decisões tomadas, não fico pensando em como poderia ter sido. Hoje, o que me move não é ganhar mais dinheiro. Isso já conquistei. Não quero 1 real a mais do que me propus a ganhar. Mas, sinceramente não tenho a menor ideia de onde vou estar em dez anos porque não quero limitar minhas metas.

Como imagina que as pessoas vão lembrar de você? Que legado você está construindo?
Uma pessoa que ajudou a construir uma empresa que seja exemplo para outras e que, de fato, impacta a sociedade, com uma cultura forte e que tenha resultados consistentes. Uma pessoa apaixonada pela educação e que acredita nela como meio para transformar a sociedade e contribuir com o projeto de vida das pessoas.

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