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A Ecochain impulsiona a reciclagem no interior de São Paulo com uso do blockchain

- 7 de maio de 2019
Marcelo Miranda, fundador da FlowBTC e CEO da Ecochain

O surgimento do Bitcoin e similares provocou uma “corrida do ouro virtual”, com muita especulação em busca de lucro rápido e fácil. Por trás das criptomoedas está o blockchain, espécie de livro contábil digital que confere transparência, privacidade e segurança às transações. Agora, a tecnologia está sendo usada, no interior paulista, para modernizar uma moeda social e promover a economia circular, beneficiando a população e o meio ambiente.

Santa Cruz da Esperança, na região metropolitana de Ribeirão Preto, a 320 quilômetros de São Paulo, é um dos menores municípios do Brasil, com população estimada pelo IBGE em 2.124 pessoas. Desde 2017, um programa de coleta seletiva voluntária recompensa os moradores pela entrega de materiais como PET e papelão (revendidos a empresas de reciclagem) com a Moeda Verde, um cupom aceito pelo comércio local.

A iniciativa fomenta a inclusão social e a educação ambiental, mas tudo se dava então de forma inteiramente analógica. Isso até a entrada em cena da Ecochain, uma joint venture entre a corretora FlowBTC, a startup de soluções de smart cities Ti2Ci e a consultoria em gestão da inovação LF1.

“Quando soubemos do programa da Prefeitura de Santa Cruz da Esperança, pensamos que seria um case interessante para um piloto, caso a gente conseguisse trocar, para a tecnologia blockchain, algo que era feito com um pedaço de papel”, diz Marcelo Miranda, 44, um dos sócios da Ecochain.

O carioca Marcelo é fundador da FlowBTC e conheceu a Moeda Verde ainda em meados de 2017, por intermédio dos paulistas Ronan Cunali, diretor da Ti2Ci, e Antônio Limongi, fundador da LF1, que já atuavam no interior de São Paulo e buscavam alguém que entendesse de criptomoedas.

“Nós três vimos que formávamos um bom time de técnicos para viabilizar esse negócio e poderíamos nos unir para formar uma nova startup”

No modelo da Ecochain, os voluntários das coletas se cadastram em um site, com nome e CPF, e ganham acesso a uma carteira digital para o recebimento de créditos. Caso o usuário não possua um smartphone para verificar o saldo, um QR Code é impresso e usado para as trocas no comércio — entre os itens que podem ser adquiridos estão produtos de cesta básica e material escolar.

DESCOBRIR O BITCOIN FOI COMO ABRIR OS OLHOS PARA A “MATRIX”

Soa redundante, mas lixo é um problema sério. O Brasil produz 78,3 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE). O país tem cerca de 3,5 mil lixões a céu aberto, muitos deles irregulares.

A questão provavelmente passava longe da cabeça de Marcelo em 1999, quando se formou em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cinco anos depois, em 2004, foi cursar um MBA na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, onde permaneceu trabalhando no Deutsche Bank.

“Tudo que eu fazia era ligado à tecnologia, sendo o primeiro a testar um sistema novo”, diz Marcelo. “A bagagem que minha carreira me deu incluía já o entendimento de risco e dos players do mercado.”

O Bitcoin entrou no seu radar em 2013, por meio da leitura de uma revista, quando ele já estava de volta ao Brasil, transferido pelo banco. “Foi como se tivessem aberto um portal para uma nova realidade, como no filme Matrix.”

Desperto para essa “nova realidade”, Marcelo deixou o Deutsche Bank em 2014 e investiu 300 mil reais para fundar a FlowBTC, com foco na corretagem de criptomoedas. Hoje, a empresa tem cerca de 60 mil clientes e o Banco Brasil Plural como sócio-investidor. O empreendedor, porém, conta que chegou a pensar em desistir e retomar a segurança da carreira que trilhava no banco:

“Entrei nesse mercado cedo demais, com a cabeça de que ia ser um negócio muito rápido, explosivo, e a gente teria clientes e interesses institucionais em um ano ou menos. Acabou demorando mais tempo”

Pelo lado positivo, o empreendedor acredita que sua entrada precoce no mercado das criptomoedas rendeu um ganho de experiência. E, em algum momento, ele começou a acalentar a ideia de aplicar o blockchain a projetos ligados a sustentabilidade.

Em 2017, a FlowBTC promoveu um curso sobre o mercado de criptomoedas. Antônio, da LF1, foi um dos participantes, interessado em descobrir um meio de modernizar a Moeda Verde, apresentada a ele por um amigo: Ronan, da Ti2Ci, natural da região de Santa Cruz da Esperança e dono de uma expertise de duas décadas vendendo soluções tecnológicas para estados e municípios.

Tela de login no app da Ecochain

Foi assim que as três pontas da Ecochain se conectaram. Segundo Marcelo, as habilidades dos fundadores se complementam:

“Eu entro com a parte técnica, o conhecimento em blockchain. Antônio é mais estratégico, pois tem um background acadêmico muito forte e uma ótima visão geral macro. Já o Ronan é o cara do relacionamento e está na linha de frente com as prefeituras.”

As primeiras conversas enfocaram qual plataforma de blockchain seria usada. A escolhida foi a Ethereum, que registra operações em uma planilha pública e inalterável e foi a primeira plataforma de contratos inteligentes. “A gente funciona como um livro aberto, para que qualquer um possa ver o que está acontecendo, cem por cento transparente”, diz.

Por ser uma cidade pequena, com um programa de incentivo à coleta seletiva já então em andamento, Santa Cruz da Esperança pareceu ser um campo de testes ideal. “Antes de se falar em criptomoeda, eles já tinham lá essa noção de criar algo com valor de troca gerado a partir do incentivo à reciclagem.”

A CONSCIENTIZAÇÃO É URGENTE — E NECESSÁRIA PARA ALAVANCAR A DEMANDA

Os testes começaram em novembro de 2018. Vinte famílias foram cadastradas no projeto piloto, que se encerra agora em maio. A equipe da Ecochain esteve lá cuidando da implantação (hoje, o dia a dia operacional fica a cargo do time técnico da Prefeitura). “Foi muito legal acompanhar as primeiras transações reais, as pessoas levando o lixo e recebendo os créditos”, diz Marcelo.

Quem chega ao posto de coleta levando resíduos recicláveis pode conferir, na hora, pelo app, o depósito do valor equivalente, que varia conforme o material (o alumínio, por exemplo, vale 3,50 reais a unidade). “Como envolve valores reais, não podia ter nada nessa transação que gerasse desconfiança.” O que cada transação gera, de fato, é uma taxa de serviço.

Os sócios já investiram cerca de 500 mil reais no negócio, repartidos entre as empresas que compõem a joint venture. Os três mantêm uma rotina remota, de comunicação via Skype e WhatsApp, já que cada um vive num canto: Marcelo em São Paulo, Antônio em São Bernardo (no ABC) e Ronan no interior paulista. Além deles, a Ecochain tem dois colaboradores da área técnica e outro de vendas.

Prestes a entrar efetivamente em operação, a startup prevê uma receita, no ano que vem, de 4 milhões de reais com base em porcentagens pagas por resíduos coletados e serviços de organizações de coleta nos municípios e até condomínios fechados. O plano é estabelecer parcerias e contratos com o poder público, expandindo o modelo para outras localidades:

“Já estamos em negociações com municípios de tamanho médio, todos no interior de São Paulo, e pretendemos ter mais três novos contratos até o fim deste ano. Em 2020, devemos chegar a lugares maiores, incluindo capitais”

A expectativa dos sócios é que a demanda cresça junto com a conscientização sobre a urgência de se enfrentar a questão do lixo. Para as prefeituras, afirma Marcelo, uma das vantagens da solução da Ecochain é que o custo de setup [configuração] é próximo ou igual a zero.

“Como já está tudo pronto nessa primeira cidade, colocar em outras é muito rápido, menos de três meses. Depois de fazer um estudo das características e dos problemas de cada lugar, a instalação e o treinamento são bem rápidos.”

E quanto a Santa Cruz da Esperança, onde tudo começou? Encerrada a fase de testes, a Ecochain estima que o pequeno município comece a coletar até duas toneladas de resíduos sólidos domésticos por mês.

Assim, a população santacruzense contribui para reduzir o volume de materiais descartados nos aterros. De quebra, reforça indiretamente a luta para erradicar doenças como dengue e chikungunya — empregando o blockchain como uma ferramenta a favor da saúde e da sustentabilidade socioambiental.

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  • Projeto: Ecochain
  • O que faz: Blockchain voltado a projetos sustentáveis
  • Sócio(s): Marcelo Miranda, Ronan Cunali e Antônio Limongi
  • Funcionários: 6 (incluindo os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2018
  • Investimento inicial: R$ 500 mil
  • Faturamento: R$ 4 milhões (previsão para 2020)
  • Contato: [email protected]
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