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A Laboratoria forma mulheres programadoras — que refinanciam o programa depois de empregadas

- 21 de maio de 2018
Mariana e Regina, a CEO e a sócia da Laboratoria no Brasil (da esq. para a dir.) querem ver mais mulheres no mercado de programação nos próximos anos.
Mariana e Regina, a CEO e a sócia da Laboratoria no Brasil (da esq. para a dir.) querem ver mais mulheres no mercado de programação nos próximos anos.1ecf5b

São 14h10. A sala de aula está lotada com 60 mulheres. Olhares atentos são direcionados ao professor que fala sobre o método Agile. Durante seis meses, o grupo se encontrará de segunda à sexta-feira, no Ibmec, em São Paulo, para assistir a cinco horas de aula por dia e se preparar para a vida de programadora Front-end, com salário médio de 2,5 mil reais mensais para o nível júnior.

Desde o último dia 14, essas brasileiras fazem parte da comunidade latino-americana de alunas da organização social peruana Laboratoria, que ensina linguagens de programação e habilidades sociais a jovens mulheres e as coloca em contato com grandes empresas para que possam seguir carreiras promissoras na área de tecnologia. E, assim, consequentemente, também aumenta a diversidade do ecossistema. Para se ter uma ideia do alcance do projeto, Barack Obama e Mark Zuckerberg já demonstraram publicamente sua admiração pelo trabalho.

As alunas brasileiras foram selecionadas rigorosamente entre 5 700 candidatas – pessoas que se identificam como mulheres, têm a partir de 18 anos de idade e frequentaram o ensino público ou foram bolsistas em instituições particulares. Regina Acher, 45, diretora executiva da operação no Brasil, destaca que dentro do grupo que preenche os pré-requisitos, são procuradas candidatas com potencial de aprendizado, além de habilidades específicas como persistência, tolerância ao erro e resiliência. Ela diz:

“Muitas pessoas em situação vulnerável têm características fundamentais de enfrentamento da vida. Programar é assim: você faz um código, testa, erra e volta ao princípio!”

As mulheres selecionadas começaram o curso, simultaneamente, com colegas chilenas e peruanas, cada grupo em seu país. Quatro alunas daqui não moravam na cidade de São Paulo e decidiram se mudar para conseguir aproveitar a oportunidade. A exigência de dedicação integral é imperativa.

Nos primeiros quatro dias de aula, Mariana Costa Checa, 32, fundadora e CEO da Laboratoria, acompanhou as brasileiras bem de perto. “É muito legal ver a vibe das alunas e do time local. Apesar das diferenças culturais, isso é sempre muito parecido em todos nossos centros. Essa experiência inicial é intensa e transformadora porque costuma ser bem diferente do que elas faziam antes. A mudança de lifestyle também é difícil. Por isso, tentamos fazer o programa o mais parecido possível com um ambiente de trabalho”, conta.

Passado o período de imersão e de aprendizado direcionado, as alunas participarão do evento Talent Fest, previsto para acontecer no início de novembro, ocasião em que as empresas parceiras da Laboratoria (como IBM, Accenture e Thoughtworks), dispostas a recrutar talentos, propõem desafios reais para as alunas resolverem no formato típico de hackathon. Dali, espera-se que mais da metade das mulheres saiam com uma oferta de emprego. Durante os seis meses seguintes, o processo de acompanhamento das estudantes continua no Alumni, de acordo com a demanda de cada grupo.

O grande diferencial do modelo da Laboratoria é que o curso é bancado pela organização até que as alunas estejam empregadas e recebam o primeiro salário. Só então, as beneficiadas passam a pagar pelo investimento que foi feito nelas e, assim, multiplicam o impacto para outras jovens. Mas tudo aos poucos: ex-alunas contribuem com 10% do salário líquido mensal, durante 24 meses.

COMO RESOLVER UM INCÔMODO: A FALTA DE MULHERES NO MERCADO

Mariana teve uma infância privilegiada no Peru. Aos 18 anos, foi estudar fora. Fez faculdade de Relações Internacionais em Londres. Depois, morou em Nova York e por lá se casou com o programador equatoriano Herman Marin (atual CTO da Laboratoria). Quando terminou o mestrado em Administração Pública, ela, o marido e um amigo de faculdade, o venezuelano Rodulfo Prieto (atual CPO da Laboratoria), decidiram voltar para Lima. Queriam trabalhar juntos e acabaram fundando uma agência digital e de desenvolvimento de software chamada Ayu. A empresa ia bem, mas a dificuldade para formar um time de desenvolvedores era enorme. Achar uma programadora era praticamente impossível. Ela fala a respeito:

“Eu não vim do mercado de tecnologia. Ao conhecer o ecossistema e olhar para meu próprio time, de 20 pessoas, via algo errado: só eu e mais uma mulher. Aquele não era o tipo de empresa que eu queria construir”

A trajetória da Laboratoria como organização social sem fins lucrativos começou em 2014, depois que os sócios perceberam que a área de tecnologia trazia uma grande oportunidade para os jovens. A maioria dos que encontravam não tinha formação acadêmica, eram autodidatas e isso não os impedia de ganhar bons salários. Um questionamento sério surgiu então: por que as mulheres não eram parte desse movimento de ascensão profissional? “Metade dos consumidores são mulheres e 90% dos programadores são homens. Não tem como a tecnologia responder bem a homens e mulheres se há apenas homens desenvolvendo” afirma a CEO.

Foi aí que Mariana decidiu organizar um programa piloto para 15 jovens de comunidades de baixa renda receberem treinamento em desenvolvimento web. A ideia era validar o projeto para mostrar a futuros investidores. Tudo foi realizado com voluntários, sala emprestada e zero investimento. De imediato, 10 empresas peruanas se interessaram pela iniciativa e pela possibilidade de contratar as alunas. Desse primeiro grupo, duas mulheres conseguiram emprego, duas começaram a fazer trabalhos como freelancers, mas outras nem chegaram a terminar o curso. Esse tropeço levou ao aprendizado do perfil ideal de alunas.

O PROJETO VINGOU E FOI PRECISO CORRER ATRÁS DE INVESTIMENTO

Mesmo com os desafios a serem superados, o ineditismo da iniciativa rendeu um prêmio de empreendedorismo social no valor de 15 mil dólares, concedido pela Telefónica e pelo renomado chef Gastón Acurio. Na sequência, veio o estalo de que o projeto já era uma realidade e os fundadores passaram a ir atrás de investimento filantrópico e de um modelo de negócio que sustentasse a empresa. Chegaram a duas conclusões: era legítimo pedir às alunas que retribuíssem o apoio financeiro e estendessem a possibilidade de ajuda para outras mulheres e as empresas parceiras deveriam patrocinar os Talent Fests (atualmente, o valor pago é de 2.000 dólares por empresa). Quando satisfeitas com as contratações, pagariam um valor como se costuma fazer com um serviço de headhunting (hoje, equivalente a meio salário por profissional colocada).

A edição deste ano do Talent Fest no Chile, evento em que empresas propõem desafios reais para as alunas da Laboratoria.

Em 2015, duas ex-colegas de faculdade de Mariana e amigas muito próximas, Gabriela Rocha e Marisol Alarcón, queriam deixar os empregos e empreender. Tanto insistiram que, mesmo sem nenhum recurso, abriram projetos-piloto da Laboratoria na Cidade do México e em Santiago do Chile, respectivamente. A repercussão em ambas as localidades foi idêntica a de Lima. No ano seguinte, os centros de estudo foram oficializados e as amigas se tornaram sócias. Um segundo centro foi aberto no México, na cidade de Guadalajara, no começo de 2018.

As doações foram pingando, pouco a pouco, até que no começo de 2016, o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID doou 1 milhão de dólares, o que possibilitou a formação de um time profissional e a montagem de um plano de negócios mais sólido.

Até hoje, passaram pelos centros de treinamento da Laboratoria mais de 580 mulheres e 80% delas foram contratadas e chegaram até a duplicar seus ganhos. Os principais parceiros, que ajudam a bancar a organização, globalmente, são o BID, Google, Microsoft, Omydar Network e BlackRock.

O PASSO A PASSO PARA IMPORTAR O PROJETO PARA O BRASIL

A iniciativa de fazer um centro de estudos da Laboratoria em São Paulo foi de Regina. Ela se formou em Administração de Empresas pela FGV e trabalhou 17 anos no mercado financeiro, sempre com o incômodo de ver a desigualdade social. Em 2014, decidiu empreender e fundou a startup Cambiare, um marketplace de compra e venda de móveis usados de alta qualidade. “A empresa era pequena e ia super bem. Dava para conciliar com o meu dia a dia familiar. Mas com o tempo, nos transformamos em uma empresa de logística porque transportávamos os móveis. Decidi sair, em 2016, para me dedicar a outros projetos que tivessem mais impacto”, conta.

Em novembro do mesmo ano, Regina acompanhava o marido em uma viagem a Washington, nos Estados Unidos. Lá, teve a oportunidade de ouvir uma apresentação de Mariana, que já era uma empreendedora parceira do BID. A partir de então, a ideia de trazer a iniciativa para seu país natal e, finalmente, poder impactar jovens no que tange ao acesso ao mercado de trabalho, perseguiu Regina. Ela visitou a Laboratoria de Lima e do Chile para ver de perto como as coisas funcionavam. Depois foi ao México. Precisava provar também aos sócios a seriedade de suas intenções e a viabilidade do Brasil, que, segundo ela, assusta os demais latino-americanos por seu tamanho, burocracia e complexidade. Regina conta que precisou construir uma relação de confiança:

“A Laboratoria tem um plano de expansão bem ambicioso. A nossa visão é ser o maior pool de talento tech da América Latina. Naquele momento, o Brasil não estava entre as prioridades, mas a gente passou um pouco na frente”

Mariana complementa: “Já sabíamos que o programa funcionava em Santiago, México e Lima. Olhávamos para cá, mas nunca escalaríamos a empresa para o Brasil sozinhos, devido à diferença da língua e do mercado. Ela (Regina) acelerou isso”.

Em meados de 2017, a decisão de parceria foi definida e Regina se tornou sócia de metade da operação brasileira. Ela passou a alinhavar uma série de parcerias que viabilizaram o início por aqui. Começou aproximando-se de ONGs que já tinham experiência com o perfil de público-alvo da Laboratoria, afinal, precisava comunicar o objetivo da organização às pessoas certas.

As alunas selecionadas pela Laboratoria em São Paulo durante um dos encontros da organização.

Em seguida, foi atrás de um local que acolhesse as alunas e, ao mesmo tempo, já as colocasse em contato com o novo mundo dos negócios do qual elas fariam parte. As conversas com o Ibmec avançaram e um contrato de um ano foi firmado. Depois, buscou quem se comprometesse a dar aulas (em esquema remunerado) e também voluntários para preencher de forma rica a carga horária educativa.

Em paralelo, seguiu em negociação com empresas e startups: “Nós temos um orçamento com recursos que vêm dos investidores filantrópicos globais da Laboratoria, mas nossa intenção é construir parceiras locais, com pessoas alinhadas com o propósito da Laboratoria. Ainda não tivemos investimento de parceiros, mas tivemos várias contribuições de serviços”.

É fato que existe um gap enorme entre os profissionais disponíveis e as necessidades das empresas no que já está sendo chamado de 4ª revolução industrial. Por isso, o tipo de formação proposto pela Laboratoria mostra-se uma ótima oportunidade de diminuir essa lacuna e preparar as mulheres – as mais afetadas pelos processos de automação – a assumirem essas vagas.

Regina fala a respeito do que está sendo conquistado com alegria: “Por ser um período de formação curto, você vê resultados reais em muito pouco tempo. E a gente também consegue medir esse impacto mais rápido.” Apesar de chamar essa turma de piloto, ela e seu time de sete pessoas já se colocam o desafio de pensar como escalar a Laboratoria em nosso país, que é grande, burocrático, caro, mas tem uma demanda enorme tanto por parte das mulheres quanto das empresas. Se depender da empolgação das alunas, isso não será um empecilho.

DRAFT CARD

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  • Projeto: Laboratoria
  • O que faz: Forma mulheres que tiveram menos oportunidades em programação
  • Sócio(s): Mariana Costa Checa, Herman Marin, Rodulfo Prieto, Gabriela Rocha, Ana Maria Martinez Franklin, Marisol Alarcón e Regina Acher
  • Funcionários: 83, sendo 7 deles em São Paulo
  • Sede: Lima, Peru, e outros centros de estudo na Cidade do México, Guadalajara, Santiago do Chile e São Paulo
  • Início das atividades: Abril de 2014
  • Investimento inicial: Não teve
  • Faturamento: US$ 2.000.000 (entre doações e receita própria)
  • Contato: infosp@laboratoria.la 
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