"A maioria tem medo e não sobe a 'quebrada', deixando os moradores sem acesso ao serviço" | Sebrae | Projeto Draft


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“A maioria tem medo e não sobe a ‘quebrada’, deixando os moradores sem acesso ao serviço”

- 9 de agosto de 2018
Alvimar da Silva, criador da Jaubra: o app conecta motoristas e passageiros em Brasilândia, na periferia de São Paulo.

Alvimar da Silva, 50 anos, chega ao estúdio acompanhado da filha Aline, 28. Ele veio dirigindo seu próprio carro, mas liga o aplicativo a pedido da reportagem. E mostra: para percorrer os 21 quilômetros entre sua casa e o local da gravação do Sebraecast (na Vila Mariana, Zona Sul São Paulo), ele teria gasto uns 50 reais embarcando em uma corrida da Jaubra. Mais em conta do que na concorrência.

A Jaubra é um aplicativo que conecta motoristas e passageiros de Brasilândia, bairro da zona norte da capital paulista, onde vive Alvimar. Ele sempre trabalhou como motorista para terceiros e, em 2016, decidiu dirigir para a Uber rodando com seu Honda Fit 2010. Rapidamente se deu conta que a demanda local por transporte via aplicativo superava a oferta. O motivo é a sensação de insegurança, que afasta muitos motoristas.

“A maioria tem medo e não sobe a ‘quebrada’, deixando os moradores da periferia praticamente sem acesso ao serviço”, diz Alvimar. Em vez de dirigir suas atenções para a região central da cidade, ele preferiu se concentrar no seu pedaço. “Fui na direção contrária”, diz.

Envolvido com a realização de campeonatos de futebol da garotada no bairro, Alvimar já era conhecido na área. Imprimiu e distribuiu 500 cartões de visita, que se somaram ao boca-a-boca para alavancar suas corridas. Logo, precisava repassar viagens para motoristas amigos – aos clientes, explicava que a pessoa indicada era de confiança e cobraria o mesmo precinho camarada.

“O preço era fixo e tinha de ser acessível e satisfatório para o passageiro. Eu calculava da minha cabeça. Para destinos como o aeroporto, por exemplo, se os taxistas cobravam 80, eu cobrava 55.”

Em fevereiro de 2017, Alvimar largou a Uber, decidido inicialmente a montar uma cooperativa de transporte. Com mesa, cadeira e um computador emprestado da filha, Aline, improvisou uma pequena central na garagem de um amigo, encarregado do contato com os fregueses (por telefone e WhatsApp); o Google Maps ajudava a calcular o valor das corridas – cada quilômetro rodado custava 2 reais.

Na primeira semana, além do próprio Alvimar havia dois motoristas dos quais ele cobrava um real por corrida que custasse mais de 15 reais. A comissão “baratinha” era uma forma de cativar e fidelizar os condutores. Em 20 dias, Alvimar já contava com seis motoristas, todos moradores da região, acostumados a circular pela área.

Naquelas semanas pré-Carnaval, o público que ensaiava em escolas de samba da região (como Mocidade Alegre, Rosas de Ouro e Império de Casa Verde) acabou virando cliente. Alvimar fechou o primeiro mês com duas mil chamadas. E assim nascia a Ubra, abreviação de “União da Brasilândia”; mais tarde, o nome recebeu o prefixo “já” para dar ideia de agilidade e evitar possíveis pendengas com a Uber.

Além do valor baixo, Alvimar teve a sacada de oferecer um serviço mais flexível, adaptando-se às necessidades dos fregueses. Naquela época, por exemplo, quem fazia uma viagem podia pedir ao motorista para ficar aguardando; se a espera não ultrapassasse uma hora, a corrida de volta saía pela metade do preço. Esse tipo de comodidade ajudava os clientes a dar conta de tarefas como ir ao supermercado e voltar para casa com as compras.

Em julho de 2017, Aline, a filha, pediu demissão do banco onde trabalhava para se dedicar em tempo integral à Jaubra. Pôs também dinheiro no negócio: 20 mil reais, que possibilitaram a compra de equipamentos e a saída da informalidade.

Assim, em setembro, com oito meses de operação, a empresa adotou um aplicativo terceirizado (sem abrir mão do WhatsApp, importante ainda hoje) para otimizar o seu funcionamento. Com o app, os condutores passaram a pagar à empresa 15% do valor da corrida. Foram 13 mil chamadas em dezembro de 2017.

Hoje, há 50 motoristas cadastrados e outros 500 aguardando a chance de se cadastrar. A espera é em função do novo aplicativo, encomendado pela Jaubra a uma empresa de tecnologia e prestes a ficar pronto. Alvimar diz que a inclusão dos novos condutores será gradual, conforme o aumento de chamadas.

Mesmo com o novo aplicativo, o atendimento por WhatsApp não será descontinuado – o app de mensagens instantâneas responde por 25% do movimento da empresa, que hoje contabiliza cerca de 13.200 clientes registrados.

Alvimar espera quintuplicar de tamanho com a nova tecnologia. Se a estimativa se concretizar, ele precisará alugar um escritório e contratar mais atendentes — hoje, três funcionários desempenham esse papel, incluindo seu filho caçula, Rodrigo, de 26 anos. A central funciona na sala da casa onde Alvimar vive com a esposa, Laura.

“Estou me estruturando financeiramente para ter um espaço físico e atender melhor os motoristas”, diz Alvimar. A Jaubra vem sendo acelerada pela Artemisia e recebeu 21 mil reais de capital semente, além de outros 5 mil reais do Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto.

O impacto transcende a mobilidade. Alvimar fechou parcerias com donos de salões de cabeleireiro, lava-jatos e lojas de autopeças para oferecer descontos aos clientes – uma forma de irradiar benefícios e movimentar o comércio local. E, ao atrair jovens para trabalhar como motoristas, a empresa oferece oportunidade a quem corria o risco de vir a ser recrutado pelo crime.

Hoje, Alvimar recebe convites para pitches, palestras e eventos em empresas e faculdades. “Até pouco tempo eu não conhecia a palavra ‘startup’. “Agora, sou palestrante e faço transformação social”, diz, emocionado. E completa. “Isso me deixa muito feliz. Eu achava que iria ter um negócio mais caseiro, como as lotações… Minha vida se transformou totalmente.”

Tomara que a vida da Brasilândia se transforme junto, na mesma direção.

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O Sebraecast apresenta uma série de entrevistas com empreendedores sobre startups, negócios criativos, negócios sociais, inovação corporativa e lifehacking. Confira a websérie em youtube.com/sebrae e o podcast em soundcloud.com/sebrae!

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Charles-Henry Calfat Salem é meio francês, meio brasileiro e há dois anos empreende no país.