SPONSORS:

A Meninos da Billings virou uma empresa de turismo náutico para seguir impactando a periferia de São Paulo

- 24 de junho de 2019
Adolfo Duarte criou a Meninos da Billings para manter os projetos sociais que desenvolve no bairro do Grajaú, na Zona Sul de São Paulo (foto: André Bueno).

 

Na São Paulo dos prédios espelhados e das grandes avenidas é possível fazer turismo náutico. Improvável? É esse serviço que oferece a Meninos da Billings, uma operadora de turismo que atua na Represa Billings, Zona Sul da cidade, a cerca de 30 quilômetros do Centro.

As garrafas PET guardadas na sede da empresa e prontas para se transformar em ecopranchas.

Adolfo Duarte, 37, conhecido como Ferrugem pelos amigos, comanda o empreendimento desde 2014, quando criou o projeto Remada na Quebrada após viver um drama pessoal: a morte do filho Miguel, aos 9 anos, por causa de um câncer.

Para ocupar a mente e retomar a vida, começou a remar no trecho da represa que fica no bairro do Grajaú, onde sempre morou.

Dali a um tempo, como forma de engajar e ocupar também as crianças e jovens que frequentavam o local, Adolfo deu início ao projeto com aulas de canoagem e a construção de ecopranchas, feitas com garrafas PET retiradas da represa e usadas durante as aulas. Ele diz:

“Convidamos pesquisadores, professores e pessoas para fazer uma vivência na represa e percebemos que ali havia um potencial turístico ainda não explorado”

O custo para manter o projeto era alto, então ele foi em busca de renda. E assim, colocou de pé a Meninos da Billings, que gera receita por meio do turismo e mantém três projetos sociais na região. Mas antes, teve também que investir na empresa de turismo náutico: cerca de 120 mil reais.

TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA NA REPRESA

Construída em 1927 (inicialmente para gerar energia elétrica), a Billings é um reservatório com capacidade para armazenar 995 milhões de m³ de água, que teve seu uso ampliado e hoje abastece parte de São Paulo e municípios da região metropolitana. É em um trecho dessa represa, onde ainda há Mata Atlântica e uma vida quase rural, que a Meninos da Billings opera com o que chama de turismo de base comunitária.

O negócio oferece dois pacotes turísticos. Um custa 80 reais, tem uma hora de duração e oferece uma “vivência náutica”, com canoagem na represa e uma explanação sobre a história da cidade de São Paulo e suas águas.

Turistas prontos para explorar a região do Grajaú até a Ilha do Bororé, no extremo da Zona Sul de São Paulo.

O outro pacote (150 reais), com três horas de duração, inclui ainda uma travessia de barco até a Ilha do Bororé, um bairro rural, para visitar atrações como uma capela erguida em 1904, um espaço de convivência e permacultura, um bar centenário onde é possível provar cachaça curtida no cambuci e um mirante; o almoço é cobrado à parte.

O trajeto dura cerca de uma hora e é feito em barcos de pesca de borda alta, com capacidade para quatro pessoas, cada. Segundo Adolfo, as embarcações possuem licença e é obrigatório o uso de colete salva-vidas.

A renda obtida com os passeios ajuda a manter três projetos que atendem cerca de 1.500 pessoas: o Remada na Quebrada, com aulas de canoagem para crianças e adolescentes; a Escola de Marcenaria, voltada para mulheres; e as oficinas para construção de lixeiras (com garrafas PET retiradas da represa, que também servem de matéria-prima para as ecopranchas usadas nas aulas de canoagem), instaladas em pontos do Grajaú. Adolfo diz:

“Isso gera uma consciência maior do uso do espaço. E também reflete na identidade. As pessoas gostam de saber que a lixeira e as pranchas foram feitas com o material que elas levaram ou retiraram da represa”

Lidar com lixo foi o caminho encontrado para trabalhar questões de cidadania e pertencimento com os moradores do bairro. Adolfo já organizou alguns mutirões de limpeza e afirma que as pessoas já criaram o hábito de separar o material em casa e levar até a sede da empresa, em vez de descartar em qualquer lugar.

As atividades desenvolvidas pela Meninos da Billings têm impactos positivos na economia local, beneficiando o comércio, os pescadores e a comunidade do entorno. É o caso de Wanderley Ramos, de 40 anos. Há uma década ele aluga um sítio para festas e eventos na região, mas nunca tinha prestado atenção no potencial turístico da represa. Em 2018, resolveu locar um espaço na Ilha do Bororé e passou a oferecer passeios de caiaque e banana-boat. “Esse trabalho de fomento ao turismo aquático está sendo super importante”, diz. “A região tem tudo para ser um polo de ecoturismo dentro da cidade.”

 COMO CONQUISTAR O MORADOR DE SÃO PAULO

A Meninos da Billings realiza em média 20 passeios por mês, todos com agendamento prévio. Hoje, o desafio é ganhar escala sem perder a essência. Mais do que turismo, Adolfo diz que a empresa quer oferecer cidadania, identidade e criar uma comunidade social e economicamente forte naquela região.

E isso tem a ver com a história do empreendedor. Como muitas pessoas que vivem nas bordas da cidade, Adolfo trabalhava no Centro e voltava apenas para dormir: uma rotina cansativa, que pode consumir até duas horas do dia apenas nos deslocamentos.

Essa rotina mudou um pouco quando, na década passada, ele foi trabalhar como técnico de som em uma escola do bairro, a CEU Navegantes. Por seu envolvimento com a região, Adolfo acabou convidado para trabalhar na parte pedagógica da escola. Foi, então, cursar História na Estácio, se tornou professor e, depois, coordenador do colégio por 12 anos. O ensino virou uma ferramenta para valorizar o território. Em 2019, ele decidiu que iria deixar o trabalho na escola para se dedicar integralmente ao Meninos da Billings, mas não quer perder o contato com a educação. “A empresa é educadora”, diz.

 PARA CRESCER, SERÁ PRECISO LIDAR COM O PRECONCEITO

Com um faturamento de 7 mil reais por mês, a Meninos da Billings ainda atende um público formado, principalmente, por professores, estudantes e pesquisadores, sendo 40% da própria região. O objetivo, agora, é alcançar o “cidadão comum”, aquele morador de São Paulo que não conhece muito bem os subúrbios e arredores da cidade. “Nosso maior desafio é entender a necessidade de quem mora em São Paulo. Por que ele sairia de casa para fazer esse passeio?”, diz Adolfo.

Uma das dificuldades é vencer o preconceito em relação à periferia. Para quem conhece a realidade somente pela TV, a Billings pode parecer apenas um lugar sujo, um “cemitério” de carros roubados. De fato, há trechos que são poluídos e assoreados, mas Adolfo afirma que a represa tem muitos pontos navegáveis, beleza natural no entorno e a possibilidade de passeios surpreendentes:

“Não posso oferecer a transformação. Mas posso oferecer a vivência náutica dentro da cidade de São Paulo que vai permitir uma experiência diferente para cada pessoa”

A empresa está recebendo agora um “empurrãozinho” importante: foi selecionada para participar de uma aceleração de oito meses da Anip (Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia). Com isso, além de uma verba de 20 mil reais, Adolfo terá acesso a mentorias, cursos e palestras que devem ajudar a estruturar melhor o negócio.

“A Meninos da Billings surgiu mais pelo coração do que pela razão. Mas agora é hora de olhar para o negócio, investir para manter o projeto e crescer ainda mais.”

1827 Total Views 26 Views Today

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Meninos da Billings
  • O que faz: Oferece turismo náutico de base comunitária em São Paulo.
  • Sócio(s): Adolfo Duarte
  • Funcionários: Não tem (apenas voluntários)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2014
  • Investimento inicial: R$ 120 mil
  • Faturamento: R$ 7 mil/mês
  • Contato: [email protected]
Veja também:

Uma editora orgulhosamente periférica: a LiteraRUA dá voz a quem vive e escreve nas bordas de São Paulo

- 15 de julho de 2019

A Curió organiza e media visitas de crianças e jovens a museus para promover desde cedo o contato com a arte

- 26 de junho de 2019

O Saladorama enxugou a equipe, fechou filiais e adaptou as vendas para voltar a expandir, agora com foco

- 30 de maio de 2019

“Quem já teve a chance de fazer intercâmbio nos EUA sabe que a viagem é muito maior do que aprender inglês”

- 17 de maio de 2019