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A Muda Meu Mundo capacita agricultores familiares no Ceará e torna os alimentos orgânicos mais acessíveis

- 28 de outubro de 2019
Priscilla Veras, criadora da Muda Meu Mundo

Uma agritech que existe para ressignificar a alimentação sustentável através do comércio justo. É assim que Priscilla Veras, 37 anos, define a sua empresa, a Muda Meu Mundo. A empresa capacita agricultores familiares do Ceará na produção sem insumos químicos e escoa os alimentos em um raio máximo de 200 quilômetros, com um preço justo tanto para quem produz quanto para quem consome.

“Hoje, as pessoas não consomem orgânicos pelo preço e por falta de acesso”, diz. Os produtos orgânicos são associados a um mercado elitizado, enquanto quem menos lucra com eles são os agricultores.  “Imagina se a gente desse a eles o poder e a oportunidade de produzir e ganhar dinheiro com essa comida? A transformação que isso ia ser?”. 

No Brasil, cerca de 70% dos alimentos são produzidos pela agricultura familiar (de acordo com dados do Censo Agropecuário de 2006). “Nosso trabalho é fazer com que a pobreza rural acabe de verdade. Trazer dignidade para o agricultor e tornar a alimentação sustentável mais acessível para as pessoas, em termos de preço e disponibilidade”. 

O VALOR PAGO POR ATRAVESSADORES ÀS VEZES INVIABILIZAVA A PRODUÇÃO

Natural de Fortaleza, Priscilla estudou Pedagogia na Universidade Católica de Pernambuco, no Recife, depois se especializou em Administração e Ciência Política e começou a trilhar carreira no terceiro setor. “Descobri meu propósito muito cedo. Eu sabia que existia para fazer as pessoas saírem da pobreza.”

Trabalhando na Compassion International, ela tomou contato com a realidade da agricultura familiar na América Latina. “Conheci muitas famílias em zonas rurais que tinham terra, mas não plantavam”, conta. O problema é que o valor pago pelos atravessadores era tão baixo que às vezes simplesmente não valia o investimento.

“Temos uma situação de exploração muito grande do pequeno agricultor. No Brasil, 80% dos agricultores familiares vive em situação de pobreza ou extrema pobreza. Enquanto isso, a comida que produzem chega na cidade por um preço muito muito alto”

A ideia da Muda Meu Mundo foi tomando forma a partir de 2012, quando Priscilla se tornou mãe. Preocupada em oferecer comida orgânica e saudável ao filho pequeno, ela começou a entender do assunto e percebeu o contraste entre o que sua família comia e o que comiam as famílias dos agricultores que ela visitava pela ONG. 

O MODELO INICIAL PREVIA ESCOAR A PRODUÇÃO EM FEIRAS DE RUA

Decidida a empreender, Priscilla pediu as contas em 2017. A grana da rescisão (“não chegou a R$ 30 mil”) serviria de investimento inicial para a empresa. Junto com a irmã, Deborah, ela foi se aprofundando na realidade e nos entraves da agricultura familiar. 

“Começamos a entender como funciona essa cadeia e como poderíamos fazer a conexão entre os pequenos agricultores e a população”

A participação num programa da Artemisia para negócios de impacto social ajudou as irmãs a estruturar o modelo de negócios. O projeto começou capacitando presencialmente, para a produção agroecológica (sem insumos químicos), agricultores de cerca de 20 municípios cearenses, certificados como Organização de Controle Social pelo Ministério da Agricultura. 

Produzidos a partir da capacitação, os alimentos eram então levados pela Muda Meu Mundo para serem vendidos em feiras de Fortaleza, por um preço mais acessível do que o do supermercado. Do total arrecadado, 60% ficava com o produtor, e os 40% restantes com a empresa. 

“Um alface, por exemplo, custa R$ 5,90 no supermercado. Na feira custa R$ 3,50, no máximo. Apesar do preço menor, o agricultor recebe bem mais do que receberia de um atravessador.” 

COM UM MODELO DE CLUSTER, O NEGÓCIO CHEGOU AOS SUPERMERCADOS

O faturamento, porém, era baixo, e o modelo, cansativo (“fazer feira é desgastante”, diz). Assim, em 2019 ela deu uma reviravolta no negócio para chegar também aos supermercados. 

Na prática, a empresa cria parcerias entre mercados e agricultores, num modelo de cluster em que não há agricultores isolados, e sim agrupados, produzindo com foco no que vão vender. Essa dinâmica reduz perdas e o custo de transporte: nenhum agricultor está a mais de 200 quilômetros de distância da cidade onde o alimento é vendido. “Os agricultores colhem no final da tarde, e no outro dia, de manhã, já está no mercado”. 

A MMM paga ao agricultor entre 60% e 150% a mais do preço de mercado, vendem por 15% a 20% mais barato que o orgânico convencional — e ainda conseguem ter lucro. 

“Tem agricultor que aumentou a renda em 80% em 3 meses! Tem agricultor ganhando 10 mil reais por mês. É um crescimento coletivo: para crescer enquanto empresa, eu preciso que todo mundo cresça — do mercadinho ao agricultor ao cliente que compra por um preço bom”

Segundo Priscilla, o preço dos orgânicos nos supermercados é superfaturado. Havia, portanto, margem para reduzir o valor pago pelo consumidor. Ela dá um exemplo: um alface no Ceasa hoje custa 22 centavos. A MMM paga R$ 1 para o agricultor, e recebe R$ 2,37 do supermercado, que vende o produto por R$ 3,08.

OUTRA NOVIDADE FOI OFERECER CAPACITAÇÃO ONLINE, COM VÍDEO AULAS

A Muda Meu Mundo faz testes químicos todos os meses para validar os produtos, e escoa a produção. “Passamos da venda apenas na feira para o que chamamos de prateleira de mercado justo. Levamos a comida sustentável para dentro dos supermercados”. 

A reviravolta incluiu a capacitação dos produtores. A capacitação presencial permanece, em parceria com o Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará (ao todo, 60 famílias em três cidades já foram capacitadas). Desde janeiro, a MMM oferece capacitação online. 

“Até o ano passado a gente visitava os agricultores. Hoje eles chegam até a gente e estamos criando tecnologias para poder atendê-los. Às vezes o agricultor não sabe ler ou escrever, mas sabe se comunicar muito bem pelo WhatsApp”

Priscilla, como pedagoga, modelou as lições, cujo conteúdo foi produzido por agrônomos e técnicos em agroecologia. “Temos na equipe um especialista em educação rural, além de parcerias com universidades”. Nesse formato, o agricultor se cadastra, assiste às video aulas, e passa pela capacitação com técnicos habilitados. 

Trinta agricultores já foram capacitados nesse formato, e um grupo de 15 (a comunidade Melancias, no município de São Gonçalo) está sendo capacitado agora, com aulas por Skype e vídeos no YouTube.  A MMM desenvolve no momento uma plataforma própria para vídeo aulas que será lançada em junho de 2020.

A EXPECTATIVA É TRIPLICAR O FATURAMENTO E ESCALAR NACIONALMENTE

A Muda Meu Mundo ainda realiza uma única feira de rua, aos sábados, na Praça das Flores, no bairro Aldeota, em Fortaleza. Hoje, os alimentos estão em seis lojas da rede Mercadinhos São Luiz, em Fortaleza. A empresa consegue deixar uma margem de 30% para o supermercado, que se compromete a não superfaturar o produto. 

O processo é ambientalmente sustentável até nos detalhes: os produtos não vêm embalados em plástico. “Fornecemos sacolas de papel para os mercados”.

Com a mudança do modelo B2C para o que chama de B2B2C, Priscilla espera mais que triplicar o faturamento — dos R$ 150 mil em 2018 para R$ 500 mil previstos para 2019. Acelerada pela Quintessa, ela agora quer validar o modelo para escalar nacionalmente. “Pretendemos expandir para todo o Brasil, com grupos de agricultores capacitados online e com assistência offline, que conseguem escoar para cidades num raio de até 200 quilômetros”. 

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  • Projeto: Muda Meu Mundo
  • O que faz: Capacitação de agricultores familiares e escoamento da produção
  • Sócio(s): Priscilla Veras
  • Funcionários: 5
  • Sede: Fortaleza
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 30 mil
  • Faturamento: R$ 500 mil (previsão para 2019)
  • Contato: [email protected]
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