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“A turma dos games era dos excluídos, me identifiquei. Foi um ingrediente da minha paixão pelo eSports”

- 14 de junho de 2019
Depois de diversas experiências profissionais, hoje Daniela Branco é fundadora da agência de eSports CyberStars (foto: Breno Banu).

por Daniela Branco

Meu percurso de vida é contrário ao que as pessoas planejam. Pensando dos meus 18 anos para frente, primeiro eu tive filho, depois separei, aí me casei, fui ter minha casa, aprendi a cuidar da vida e fazer cursos. Depois disso, comecei a pensar na minha carreira. Eu era o clichê “ovelha negra da família” até outro dia…

Fui uma adolescente intensa. Sempre tive uma ânsia de viver e, por isso, meti muito os pés pelas mãos. Não entendam errado. Nem álcool eu bebo! Não sei nem o que é a sensação de um porre.

Minhas loucuras vinham do medo de perder o controle! Que ironia. Demorei muito tempo para entender o que posso e não posso controlar e o que vale a pena ou não. Ainda erro nestas decisões.

Com o passar dos anos, mas principalmente com a maternidade, fui construindo devagarinho minha maturidade e serenidade, a vida foi entrando num lugar mais tranquilo. Deu trabalho: meditação, ioga, leituras, tentativas de religiões, entendimento de consciência e, acima de tudo, psicanálise. Muita psicanálise.

Em 2019, faço 39 anos e hoje consigo ver meus turning points. A separação dos meus pais na infância, o primeiro namorado, meu intercâmbio em Nova York com 18 anos, meu início de trabalho em bancos de investimentos aos 19 anos, minhas férias sem volta para a Califórnia, meu retorno grávida aos 23, meu casamento aos 26, meu segundo filho aos 27, meu divórcio aos 29 (retorno de Saturno).

E mais: a troca de carreira de banco para Publicidade aos 30, a briga com meu pai aos 32, a decisão de fazer home office aos 33 para ser e estar presente com meus filhos, o início da transição da carreira novamente aos 35 de Publicidade para empresária em eSports.

A única coisa que percebo com clareza é que são meus filhos que colocaram meus pés no chão e me deram combustível e sensatez para dar passos mais conscientes e certeiros

Cada um tem sua força motriz, as minha têm nomes: Matheus e Miguel. Eu passei minha vida fazendo escolhas por necessidade. Tive diversos sonhos, desejos e vontades diferentes. Por isso vivi tanta coisa.

Difícil casar propósito com conta para pagar. Senti raiva mil vezes de não poder prover plano de saúde bom para os meninos, roupas bonitinhas, cursos extras que eles queriam fazer, brinquedos e viagens.

Me condenei muito e foram eles, tão pequenos, que me mostraram que eu era a melhor mãe que eu poderia ser. E ainda me tornaram uma pessoa persistente e determinada.

Antes deles, eu já havia trabalhado em várias funções diferentes. Nunca tive medo de colocar a mão na massa, mas sempre fui inconstante. Pulava de galho em galho. Precisava de grana e ia trabalhar. Simples assim.

Na Califórnia, onde fiquei três anos e oito meses, trabalhei como assistente de cozinha em barco de mergulho. Não é fácil ficar em alto-mar por quatro dias com um bando de desconhecidos, sentindo o balanço da água, servindo e sorrindo para que todos os clientes tivessem uma boa experiência. Limpar peixe e lagosta também não é das tarefas mais agradáveis.

Fui peão de obra, de verdade, e aprendi a manusear ferramentas: da chave de fenda à serra elétrica! Fiquei tão hábil que me tornei chefe dos peões em alguns meses. Era curioso e também complicado dar ordem para diversos americanos e mexicanos com 21 anos.

Ser babá de um menino autista me marcou muito pelo seu universo particular que flutuava entre a generosidade e a insegurança. Quando fui contratada por um casal de velhinhos de 80 anos, homossexuais, que ambos se chamavam Don e tinham dois cachorros, o Salt e o Pepper, pude ver o amor que eu queria viver nesta vida! Eles estavam juntos há mais de 50 anos e eu aprendi o significado de companheirismo e gentileza.

Entreguei flyer, limpei mesas em restaurante e fiz faxina em muita casa de gringo. Como bartender, fiz os piores drinques da minha vida. Lembra que eu não bebo?! Fui ainda paras as montanhas e, enquanto vendia ingressos para um resort na neve, me apaixonei pelo snowboard. Enfim, foram tantos trabalhos.

Comecei também diversas faculdades e cursos que não terminei… Administração, Psicologia, Direito, Turismo. Iniciei curso de Nutrição, de Massagem, de professora de ioga, de psicanálise lacaniana, cursinhos de mercado financeiro, economia criativa, leis de incentivo, gestão de projetos, pacote Office (quando isso era um diferencial), ROI, gestão e liderança, gestão estratégica de negócios etc. Vira e mexe faltava tempo ou dinheiro e eu não podia continuar. Ser mãe e trabalhar consome muito das 24 horas e muito das nossas finanças!

No entanto, em 2017, decidi que teria um diploma for fun, para concluir algo, para ser exemplo para meus filhos, mostrar que é importante fazer coisas por nós mesmos

Em 2018, aos 38 anos, me formei em Marketing. Tecnóloga, mas conquistei um diploma, vesti beca, tirei foto, postei. Ufa!

Mas antes disso, trabalhei em banco de investimento. Comecei de atendente de call center bilíngue (porque na época bilíngue era um ponto extra), virei recepcionista, virei secretária de presidente, casei, virei analista de private banking, detestei tudo isso e pedi para sair.

Foram quatro ou cinco anos para ter certeza absoluta que aquilo não era o meu lugar. Hoje percebo como foi importante acompanhar como secretária diretores de private banking, diretores de mesa de operações, presidentes e vice-presidentes de bancos, e anotar o que era dito e acordado nestas reuniões, as atas, os raciocínios destes C-levels.

Quinze dias depois de sair do último banco de investimento, descobri que estava grávida. Voltei arrependida e consegui um acordo que não me deixasse na roubada.

Na gravidez, meu ex-marido (na época marido) viajou muito. Assim que meu caçula nasceu, a gente se separou. Eu, desempregada há um ano e meio, sem faculdade, sem saber o que fazer, lembrei dos tempos da Califórnia e pensei: de fome não morro.

Fui fazer faxina na casa das amigas da minha irmã, tentei trabalhar com uma designer de jóias e consegui entrar para ser assistente de produção executiva de uma produtora bacana de São Paulo. Fiquei três anos lá.

De produtora executiva, usei meus contatos em banco de investimentos para alavancar captações para os conteúdos da produtora. Nunca tinha feito isso antes. De quatro pessoas que trabalharam comigo por um ano, eu fui a única que consegui um deal com a Unilever para um projeto internacional.

Mas eu achava chato, não me sentia respeitada e, desde que eu havia saído de private banking, eu fugia de mesas de negócios. O que me manteve ali durante o último semestre antes da minha saída absoluta deste mercado foi uma head de private banking, a Carmen Guarini. Ela era inteligente, sagaz e bonita.

O fato é que nestas outras mesas de negócios do audiovisual eu continuava desconfortável. Então tive duas oportunidades rápidas e encavaladas, uma de trabalhar em um lançamento do longa-metragem da Paula Trabulsi. Em seguida, fui convidada para fazer pesquisa de elenco real pela diretora Georgia Guerra-Peixe.

Eu não precisava mais ficar sentada em cadeira nenhuma, as pesquisas me levavam pelas ruas, por São Paulo, pelo Brasil, para a América Latina.

Pude entender tanta coisa da amplitude e da pequenez das pessoas que fui me sentindo mais confortável comigo mesma, com minhas histórias, com minhas questões, com meus medos, com minhas ousadias. Aprendi a ouvir os outros e, ouvindo, comecei a me enxergar e ser menos dura comigo mesma.

E foram estes jobs de pesquisa que me levaram ao esporte eletrônico. Coincidentemente, procurando histórias de viradas de vida encontrei a minha. Conheci o Lucas e o Rogério, donos do INTZ eSports Club, hoje o maior da América Latina (na época era um apartamento no Brás de 50 metros quadrados), durante uma pesquisa de elenco. Ele foi indicado pela Branca Galdino no meu Facebook. Curiosamente, na época, a Branca escrevia para blogs de cultura geek e hoje é a PR mais famosa do universo de eSports do Brasil.

O Rogério convidou meu filhos para acompanharem a rotina do time de LOL em um dia de campeonato. O de 6 anos nem ligou muito, já o de 10 pirou. E ele pedia para ir lá na Gaming House de novo, no estúdio de novo, e isso foi me aproximando do Lucas e do Rogério, até que o Lucas me convidou para ser diretora executiva do INTZ.

O clube não existia sequer há um ano e eu aceitei. Lógico que não larguei a produção de elenco, fui atuando com as duas coisas ao mesmo tempo, até porque na época o modelo do INTZ era bem de startup, então todo mundo contribuía com tudo o que podia.

Eu nem salário tinha. Era pela oportunidade de imersão mesmo. E foi o que aconteceu. Depois de aproximadamente um ano com eles, saí e voei solo. Queria trabalhar com os outros clubes e players do cenário. Ainda não tinha muito dinheiro rolando, o mercado como um todo era muito incipiente.

Eu ia nas reuniões e ouvia um monte de besteirol, como “nossa, você deve ser a musa dos nerds” ou “só nerd mesmo para pagar pra assistir outro nerd jogando video game” ou “esses caras fazem isso porque não transam”. E na real, eu ficava puta da vida de ouvir estas coisas.

Muitas pessoas debochavam da cena gamer e da galera que fazia e fez este universo se tornar o que é hoje

Escutava muita asneira, sorria e com muita paciência e seriedade explicava, porque queria que as pessoas entendessem e enxergassem o que eu via também.

A galera dos eSports tem suas peculiaridades, cada um ali é singular, mas isso não é exclusivo do universo gamer. E eu defendia isso, porque não sou o estereótipo, não jogo LOL ou CS. Já tentei, mas não tenho tanta paciência para telas, além do computador com o qual trabalho o dia todo. E isso não significa que o lifestyle dos gamers é ruim ou errado.

A gente pode não curtir determinada coisa, mas não podemos estereotipar por isso! Debochar, desrespeitar, não levar a sério. E, de alguma forma, em diversas situações da minha vida me senti assim: desrespeitada, debochada, estereotipada

A mãe de dois meninos, um de cada pai, solteira, divorciada, mulher, sem diploma universitário, filha de pais separados, logo com uma família desestruturada, que tinha morado na Califórnia, não tinha currículo de carreira, trocava de namorado todo ano, tatuada, que não bebe álcool, faz ioga, ama psicanálise etc etc etc.

Percebi que a turma dos games também era dos excluídos e me identifiquei emocionalmente. Também foi um ingrediente da minha paixão pelo eSports. Eles lutavam por aquilo que amavam e ainda lutam. Querem ser reconhecidos e estão surpresos porque o reconhecimento está aí hoje. Cada dia mais. Em um caminho sem volta.

E, embora eu tenha tido percalços nesta jornada dos últimos quatro anos no eSports e games, há apenas pouco mais de um ano que eu me senti batizada de verdade. Percebi que sou parte desta comunidade, que fui aceita e acolhida. Que a cada dia eu conquisto mais respeito e reconhecimento.

Foram os “nerds enclausurados” que me deram bola. Eles não são fáceis de conquistar também! Há 14 meses que eu deixei de fazer produção de elenco para me dedicar 100% à nova área. Isso de forma alguma significa um fim, pelo contrário. Significa que passei de fase e que agora, como nos games, ficam mais difíceis os desafios.

Está aí uma coisa que aprendi de fato convivendo com quem ama video game: todo ser humano gosta de jogar. Todo mundo joga! Jogos motivam a gente a conquistar coisas! Seja apenas por prazer ou escapismo no dia a dia.

Jogos são divertidos, imersivos, motivacionais, têm a habilidade de manter as pessoas engajadas, constroem relações, desenvolvem potencial criativo e nos levam a fazer coisas para conquistar algo maior. Isso deveria ser transposto para todas as camadas da vidas

A palavra gamificação confunde pelo seu significado tão amplo. Podemos pensar sobre advergames, serious games, in-game ads, gamification by design etc. Por isso, digo hoje que trabalho com eSports e games. Games é muito mais amplo em termos de business.

É a mecânica do game dentro deste segmento que me fez chegar até aqui e são estas mecânicas de gamificação transpostas para o meu cotidiano que me movem a continuar batalhando para conquistar novos níveis profissionais. Rotas novas, mapas, players, destruir dragões, barões e afins para continuar crescendo.

 

Daniela Branco, 38, é fundadora da agência de eSports CyberStars. Foi consultora do projeto Vivo Game Changers na Vice e do Expo Influenciador Digital – Games Edition para a YDreams. Participa ativamente do desenvolvimento do mercado de esportes eletrônicos do Brasil ao lado dos principais players do ecossistema gamer: ESL, TeamOne, INTZ, RedCanids,ABCDE, Max5, Twitch, Razer, DxRacer, LG e Ubisoft.

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