SPONSORS:

“Com a palavra, sete bilhões de pessoas no mundo (e durma-se com um barulho desses)”

- 1 de março de 2019
Rene faz uma reflexão, dura, sobre o sonho versus a realidade do mundo com o advento da internet.

 

por René de Paula Jr.

A gente dura muito, é uma coisa louca. A gente dura muito e um dia você olha em volta e cadê aquele mundo que te criou, que te aninhou, o mundo que era seu e falava a sua língua e te abraçava todo dia? Já era.

Aquele mundo se foi e sobrou você, procurando nos olhos alheios a mesma fagulha, o mesmo incêndio, a mesma fome que no teu tempo era a regra. Você, que sem perceber assusta os mais novos com a tua intensidade arcaica.

A gente dura muito, dura mais que a própria inocência perdida aos poucos, perdida em trancos, barrancos, perdida tarde demais e já foi tarde, já me fez errar a vida inteira e quem me dera saber antes que eu não sabia nada mas não faria diferença, eu não teria escutado, teria me apegado ao meu erro porque era meu e só meu e eu nem perceberia que a lição maior era essa, que a teimosia é um sistema imunológico que bloqueia e neutraliza qualquer vírus de pensamento que ameace o castelo de tolices construído com tanto empenho, e que teimosia mesmo foi achar que isso era teima, que tudo aquilo que rechaçava minhas certezas de araque só podiam ser teimas sem nunca imaginar que tolo era eu e todos os que esperam das pessoas o que elas com toda razão não querem dar porque nossas certezas não têm pé nem cabeça e muito menos temos a educação de perguntar se elas são bem-vindas na vida alheia.

Certezas duram muito, certezas erradas ainda mais e a gente se apega, mas a vida não acaba e elas se vão e olhar para trás é não entender como pudemos ser tão crédulos, tão cheios de si mesmo com tão pouco e hoje, sem norte nem prumo. Lembro, sem entender, a convicção juvenil que enchia o peito e me incendiava as palavras. Hoje o que dura muito são dúvidas, elas não passam mais.

Eu me lembro de poder dizer I have a dream, o sonho de que a internet, antes privilégio de nerds, chegasse às mãos de todos com a simplicidade de um radinho de pilha e com a potência de um megafone

Eu sonhava com o fim de impérios e com um paraíso criado por todos nós à nossa imagem e semelhança, frase bonita que repeti com gosto sem perceber o pecado original de desconhecer que imagem é essa e que a semelhança seria um retrato de Dorian Gray, um espelho quebrado em sete bilhões de cacos num caleidoscópio sem fim de paraísos pessoais que não se encaixam.

Adoraria voltar no tempo e mostrar para mim mesmo que não há utopia possível, que não somos como os libertários sonharam, que não existem soluções universais, que é irresponsável esperar que pessoas se comportem como cérebros, que é cruel vender o sonho da felicidade contínua e, sobretudo, que é um pecado esquecermos que somos criaturas sociais, tribais, afetivas, inseguras e movidas a estórias e que nossas emoções mais plenas e profundas e sagradas vêm de dentro, vêm de longe e isso há de durar muito, e os iluministas e transumanistas e ciberotimistas e platonistas e utópicos e revolucionários e disruptivos deveriam ouvir a mensagem clara, uníssona e gritante escondida nessa cacofonia que só cresce: na minha vida mando eu, e é por isso que eu não conseguiria convencer o meu jovem eu e que os gurus nunca vão arredar pé e descer do salto alto.

A mensagem é clara, só não ouve quem quer, mas nossa teimosia dura muito, é uma coisa louca.

 

 

René de Paula Jr., 54, trabalhou 23 anos no mercado digital brasileiro, em empresas como Microsoft, Sony, Yahoo, Wunderman e Locaweb. É consultor certificado em Tecnologias Exponenciais e Head de Pensamento Exponencial na BRQ.

3698 Total Views 1 Views Today
Veja também: