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“Ao fazer as malas, senti vergonha. Quanto tempo perdi acumulando tantas coisas inúteis?”

- 3 de fevereiro de 2017
Antes de se mudar para a Nova Zelândia, às pressas, Fabiane Ormerod teve que empacotar a própria vida. Foi quando conheceu suas fraquezas, medos, e aprendeu sobre o que realmente importa.
Antes de se mudar para a Nova Zelândia, às pressas, Fabiane Ormerod teve que empacotar a própria vida. Foi quando conheceu suas fraquezas, medos, e aprendeu sobre o que realmente importa.

 

por Fabiane Ormerod

Desde que conheci meu marido, falamos em viajar o mundo. Não somente viajar, mas pensávamos em viver alguns meses por ano em países diferentes. Só não sabíamos como viabilizar isso com a nossa rotina, filhos etc. Então sempre brincamos que este seria nosso projeto aposentadoria. Nunca achei que esses sonhos fossem me fazer morar na Nova Zelândia. Foi tudo tão rápido que me surpreendo sempre que paro e penso sobre isso.

Por que mudar para fora do país?

A verdade nua e crua é que não fizemos um planejamento longo nem avaliamos diversos países para tomar essa decisão. Eu estava na Europa e, após sete dias sem falar com meu marido, quando desembarquei em Teneriffe, para a minha surpresa no celular há um grupo novo no WhatsApp, chamado “NZ” com mais de 100 mensagens. A última dizia algo como: “não, ela está embarcada. Vou falar com ela e depois compro a passagem“. Depois do choque inicial, li todas as mensagens e não acreditava no que estava acontecendo: tinha surgido uma oportunidade de viver na NZ, fruto de conversas entre meu marido e meu cunhado.

A gente se mudaria não daqui dez, quinze anos, mas em um mês! Eu não sabia se ria, se chorava, então fiz tudo ao mesmo tempo

Quando voltei, ele me explicou tudo e não precisou muito para me convencer. A crise no país, nossa vontade de morar fora e conhecer outra cultura, o ensino de qualidade a custo zero para nosso filho, a segurança, e a possibilidade de ele se mudar antes da família para testar, ver como é.

Me mudar de país não foi uma loucura, um surto. Foi — e está sendo — um teste. Mas com riscos calculados. Pensamos juntos: sempre sonhamos com isso, porque não fazer? Tanta gente deixa de viver seus sonhos por medo. Medo nós temos, mas seguimos em frente.

E assim foi. Nos separamos e esta foi a fase mais difícil da jornada. Meu marido veio para cá em junho de 2016. Eu fiquei em Curitiba por mais cinco meses, até dia 30 de novembro, quando finalmente embarquei com o nosso filho, Pedro, de 10 anos. Vivi um turbilhão de emoções durante esses meses. Sempre brinco que as pessoas só veem as caipirinhas que eu tomo, mas nunca os meus tombos.

Foram vários tombos! O primeiro e pior foi perceber, aos 41 anos, que eu nunca aprendi a fazer coisas básicas que um adulto deveria saber

No primeiro mês sem meu marido, aprendi a trocar fusível de carro, desmontar o parachoque para trocar luz queimada, avaliar se a bateria do carro estava ok (ou vazando, ou rachada como foi o caso!), e até tentei consertar um cano que vazava no banheiro.

Não é drama, mas no dia a dia a gente corre tanto que nem se dá conta que não sabe fazer algumas coisas. E não é sempre que se acha um profissional para resolver o problema no horário que temos disponível.

Outro aprendizado foi o de estar mais atenta, já que sempre fui muito distraída. Essa lição veio depois de um susto imenso. Lembro da minha agonia ao ser parada na estrada e considerada suspeita de roubar meu próprio carro! O documento estava no nome do meu marido, eu tinha esquecido minha carteira de motorista em casa e, para a minha surpresa, o licenciamento estava vencido.

Sempre me achei muito independente e esperta, mas nesses meses percebi minha própria vulnerabilidade

Passada essa fase inicial de ajustes, tudo começou a fluir relativamente bem. A gente se acostuma com a ausência. Organiza uma nova rotina. Até que, conforme se aproxima o momento da partida, começa o desespero de desmontar não uma casa, mas toda uma vida!

A melhor forma de definir essa fase é partilhar o que meu filho de 10 anos fez ao arrumar as malas. Chorando e com muita raiva, ele gritava: “por que vocês estão fazendo isso comigo? Como vou colocar uma década de vida em duas malas?”.

Chega a ser cômico, mas foi o mesmo que eu senti. Eu tinha que desmontar 12 anos de casamento. A casa ia ficando vazia, eu ali, sozinha com o Pedro. Foi muito estranho.

Aos poucos, fui me desfazendo de muitas coisas. O que mais me doeu não foi o apego nem ver tudo indo embora. Pelo contrário, me doeu a vergonha de ver tanta coisa acumulada. Cada vez que eu via tudo aquilo, me perguntava: quanto de vida foi investido em acumular dinheiro para adquirir tudo isso?

Chorei muito. Perdi a conta de quantas vezes. Foi muito desgastante, física e emocionalmente. Só quem já passou por algo igual entende. Lembro de uma tarde em especial, com a minha mãe, em que tiramos oito sacolas de lixo de 100 litros da casa! E olha que isso foi depois de muita coisa já ter sido vendida, doada… faltando somente 10 dias para a minha viagem…

Chorei de medo da nova vida, de cansaço, de raiva por meu marido não estar me ajudando. Muitos amigos se afastaram e viviam cobrando minha presença, em vez de mostrar empatia

Com tanto cansaço, quando eu não estava cuidando da mudança ou trabalhando, priorizava estar com quem me fazia bem.

O maior aprendizado que tirei dessa mudança não é cultural nem de como organizar a vida em outro país. A grande lição, apesar de clichê, é que perdemos tempo demais à toa. Deixamos para depois muitas coisas que realmente importam. Acumulamos coisas demais e momentos de menos.

Em uma das madrugadas de conversa e desabafos, meu marido disse que o que estávamos fazendo era apertando o botão de reset das nossas vidas. Iríamos recomeçar, mas diferente. Com menos coisas e com mais momentos.

Na primeira manhã de janeiro, o primeiro ano de nossa jornada aqui em Wellington, meu marido me acordou com um beijo e disse: “Feliz ano novo, feliz casa nova, feliz país novo e feliz vida nova pra gente”.

Neste primeiro mês completo de NZ, muitas coisas novas, um país lindo a explorar, novos costumes para aprender. Não me arrependo de nada. E, se me arrepender, tudo bem. Recomeçamos de novo. Porque coragem eu sei que temos de sobra. Estar aqui, hoje, é a prova disso.

 

 

Fabiane Ormerod, 41, é farmacêutica por graduação, pós-graduada em marketing. Em 2015, deixou a vida de executiva em multinacional para tornar-se coach. Apaixonada por viajar, correr e escrever; acredita que sonhos existem para serem realizados. No final de 2016 deixou o Brasil para viver na Nova Zelândia. 

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