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Ao trocar a área de TI pela cosmética vegana, o fundador da Biozenthi precisou de paciência para crescer

- 2 de agosto de 2018
Marcio (à direita) e Elton atuavam em uma empresa de software antes de decidirem empreender na Biozenthi.

Respeito aos animais e ao meio ambiente, paciência e muita pesquisa são as premissas por trás da Biozenthi, uma marca catarinense de dermocosméticos 100% veganos, sem parabenos e sulfato (e, alguns, ainda, sem glúten). Fundada em Criciúma, Santa Catarina, em 2010, pelo biólogo geneticista Marcio Figueiredo Accordi, 45, e seu sócio, o administrador Elton Dagostin, 35, a empresa só começou a produzir a partir de 2013 (os outros três anos foram dedicados à pesquisa). É que, até então, os dois sócios trabalhavam em outra empresa de Marcio, a Consulti Tecnologia, que fazia software de gestão empresarial.

O processo de mudar completamente de área levou, objetivamente, três anos, mas para Marcio a jornada foi bem mais longa do que isso. Desde criança, ele se interessava pela natureza e se preocupava com o fato de que “só estar vivo já polui”. Esse amor pelo meio ambiente e pelos animais o levou a cursar Biologia na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc).

Mas essa não era a única paixão de Marcio. Aos 11 anos, ganhou do pai um computador MSX, de 8 bits, coisa que hoje seria quase uma relíquia. Fascinado, passava horas investigando e aprendendo a mexer na máquina. Aos 12, começou a fazer softwares e, como naquela época poucas pessoas tinham conhecimento de informática, aos 14 já conseguiu um emprego na prefeitura da cidade. Três anos depois, enquanto cursava faculdade, foi promovido a gerente de informática — e passou os 12 anos seguintes no cargo. “Cheguei a me formar em Biologia, mas naquela época, na década de 1990, o curso era muito voltado para dar aulas e eu não queria ser professor”, conta.

Marcio só saiu da prefeitura para trabalhar com o ex-secretário de Planejamento em uma fábrica de cerâmica local (Criciúma é um dos maiores pólos de cerâmica do Brasil). Lá, passou três anos desenvolvendo um software de gestão empresarial, algo que era pouco comum na época. Na metade do ano 2000, terminado o desafio, decidiu que era hora de voltar para a Biologia e fazer um mestrado na área. Não seria dessa vez: o chefe propôs que, em vez do mestrado, os dois criassem a própria empresa de softwares de gestão, a Consulti Tecnologia. Ele topou, certo de que o mestrado e a Biologia poderiam esperar.

COMO ESCOLHER ENTRE DUAS PAIXÕES

A parceria durou até 2003, quando o sócio deixou Marcio sozinho para ir trabalhar no Governo do Estado em Florianópolis.  Ele resolveu, então, levar a empresa para o braço local do MIDI Tecnológico, uma das maiores incubadoras do país, que na época também estava dando seus primeiros passos. Ficou lá até 2007, período em que, além de aprender muito sobre como fazer negócios — até ali ele sempre tinha sido responsável pela parte técnica — conheceu muita gente. Saiu para a sede própria com uma equipe de 20 pessoas, uma delas o atual sócio, Elton.

Em 2009, com a empresa a todo o vapor, recebeu a visita de uma consultora argentina. “Ela me falou: ‘a bola da vez é a biotecnologia, o mercado de software está cada vez mais escasso, só as grandes vão sobreviver’”, lembra. Aquilo reacendeu seu lado biólogo e, dessa vez, ele resolveu não deixar a chama se apagar: em 2010, fundou a Biozenthi. Ele fala: “Passei o ano seguinte só fazendo pesquisas em genoma, fármacos, cosmética para saber como atuar”. E continua:

“Sabia que queria fazer produtos veganos, hipoalergênicos e com origem vegetal”

De 2011 a 2012, fez uma pós-graduação em cosmetologia clínica no ICostmetologia, em Campinas. Tudo isso paralelamente ao trabalho de “faz tudo” na Consulti, que continuava faturando cerca de 40 mil por mês. Foi só em 2012 que ele oficialmente fechou a empresa e passou a se dedicar exclusivamente à Biozenthi.

FOI PRECISO JOGO DE CINTURA PARA MUDAR DE ÁREA E TAMBÉM SE DIFERENCIAR

A paciência que Marcio teve durante toda a transição talvez tenha sido crucial para o sucesso atual da empresa de cosméticos. Isso porque esse mercado é extremamente competitivo, cenário bem diferente daquele que encontrou quando começou a empreender no de softwares. Dessa vez, ele pegou “o bonde andando” e teve que saber se diferenciar para ganhar destaque em meio às milhares de ofertas do mundo todo nas prateleiras das lojas.

Para completar, a tecnologia e os equipamentos necessários para fabricar cosméticos são caros, com princípios ativos que chegam a custar 10 mil reais. E pior: para fazer os produtos com o diferencial que ele queria (uma filosofia vegana de verdade) era ainda mais caro. Ele diz:

“Outras indústrias também fazem produtos veganos, mas a maioria é só pelo apelo comercial. Nós não compramos nenhum princípio ativo que tenha sido testado em animais”

O buraco é bem mais embaixo do que os consumidores imaginam. Para conseguir pigmentos laranjas/avermelhados, por exemplo, ele conta que a grande maioria dos produtores usam um corante extraído da cochonilha, um pequeno inseto prensado. A alternativa é usar pigmentos de pedras ou vegetais, que encarecem o produto final e passam quase imperceptíveis na lista de ingredientes.

A Biozenthi conta com 50 produtos. Entre eles, uma base facial hipoalergênica (33 reais).

No total, Marcio investiu cerca de 1 milhão de reais para comprar equipamentos e princípios ativos e começar, de fato, a fabricar os produtos. Para isso, raspou todas as economias e contou com a ajuda de Elton, que investiu cerca de 5% do total e veio para comandar a parte administrativa.

“Entrar neste mercado é um processo bastante desafiador, que requer competência, persistência e dinheiro”, fala. “Os dois primeiros nós tínhamos, faltava o terceiro.” Afinal, além de fabricar o produto, é necessário distribuí-lo e fazê-lo chegar às prateleiras.

Em 2013, outras duas pessoas entraram na sociedade só com este objetivo. Não deu certo. Marcio resolveu “voltar às origens” e visitou distribuidores pessoalmente, apostando no bom e velho “QI” (quem indica). “Nós não tínhamos mais dinheiro, mas tínhamos muita boa vontade.”

A LUTA ERA CHEGAR ÀS PRATELEIRAS. AGORA, ESTARÃO ATÉ EM OUTROS PAÍSES

O tête-à-tête funcionou e os produtos começaram a ter saída. Em 2016, um desodorante para os pés da empresa ganhou um prêmio da Associação Brasileira da Indústria de Higiene pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec). Os sócios também apostaram em ganhar visibilidade na mídia, tanto se posicionando como especialistas em cosmetologia vegana quanto mostrando os produtos em revistas, sites, entre outros. A ideia é desmistificar o assunto que é a essência da empresa, como diz o empreendedor, que atualmente se considera um vegano restrito, pois ainda consome alguns derivados de animais:

“O processo de transição para o veganismo é algo bem difícil para muita gente e nós buscamos fazer isso sem ser chato”

Com sete pessoas na equipe, a Biozenthi fatura cerca de 80 mil reais mensais. A linha, com mais de 50 produtos, inclui desde tratamentos para doenças de pele a shampoos e algumas opções de cosméticos sem glúten (muitos celíacos não podem nem ter contato com a substância).

O sabonete adstringente de lama vulcânica, por exemplo, sai por 26,60 reais. Já a base facial hipoalergênica, 33 reais. Os itens são vendidos na loja online, em farmácias de manipulação, lojas de produtos naturais e em algumas drogarias. “Hoje vejo que a gente plantou, plantou e agora começou a colher.”

E a colheita está indo longe. Em breve, os produtos da marca vão começar a ser comercializados também na Austrália, na Nova Zelândia e na Espanha, resultado de parcerias com investidores que procuraram pela Biozenthi. “A gente faz o fornecimento e eles ficam responsáveis por toda a burocracia”, diz Marcio.

Até o fim do ano, a empresa também quer expandir sua linha, criando produtos com base na epigenética (estudo da modificações das funções genéticas que são herdadas, mas que por sua vez não alteram a sequência do DNA do indivíduo), outra pós-graduação que o fundador da marca concluiu recentemente. “Sempre fui muito pé no chão, gosto de planejar tudo certinho antes de orquestrar”, fala sobre o projeto futuro. A estratégia, pelo visto, funciona.

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  • Projeto: Biozenthi
  • O que faz: Dermocosméticos veganos
  • Sócio(s): Marcio Figueiredo Accordi e Elton Dagostin
  • Funcionários: 7
  • Sede: Criciúma (SC)
  • Início das atividades: 2010
  • Investimento inicial: R$ 1 milhão
  • Faturamento: R$ 80.000 por mês, em média
  • Contato: sac@biozenthi.com.br ou (48) 4102-3322
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