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“Aprendi que a dança tem o poder de atuar nas feridas mais profundas, transformando dor em vigor”

- 4 de janeiro de 2019
Samya na van que adotou como lar e morou por dois anos, na Austrália.

 

por Samya Fraxe

Uma alma selvagem, nômade e artística: foi assim que vim ao mundo. Aos 10 anos, eu já falava: “Quando crescer, vou ter cinco filhas, morar num trailer e rodar o mundo dançando”. Bom, a parte das cinco filhas achei melhor reformular, mas morar em uma casa móvel e dançar pelo mundo eram ideias fixas.

Eu não sabia como isso seria feito, mas tinha uma certeza dentro de mim que esse era o caminho. Intimamente, entendia que a dança tem o poder de nos conduzir ao nosso interior e fazer as transformações necessárias, mas, até então, eu achava que isso era algo muito pessoal e naquele momento guardei para mim, pois não queria ser vista como “a menina doida que dança sozinha no quarto”.

Essa falta de clareza e insegurança inicial (mais as críticas e os julgamentos do meio em que eu vivia) deu espaço para frases como: “Pare de sonhar! Desça das nuvens! Lá vem você com as sua maluquices. Você vive no mundo da Lua. Isso não vai dar certo! Desiste! Procure algo normal como todo mundo e pronto! Não invente moda!”.

Isso doeu muito, principalmente porque essas frases vieram de pessoas muito próximas. Na época, eu não tinha maturidade para lidar com críticas. Ou eu ficava agressiva ou chorava. Para piorar, acreditei no que me falaram e, por um tempo, parei de dançar. Aí, foi tudo ladeira abaixo. Quando eu tinha por volta de 15 anos, entrei em depressão, não via mais cor na vida, não me encaixava em nenhum grupo. Sentia falta de um espaço de aceitação e suporte das minhas ideia tidas como “malucas”. Com isso, fui me calando e suprimindo muitas emoções, até porque, convenhamos:

Vivemos em um mundo em que, se você não tem um trauma brutal ou um problema de subsistência, é socialmente diagnosticado com “frescurite aguda”

Afinal de contas, eu tinha tudo: casa para morar, comida na mesa, família, estudei em colégios particulares e estava sofrendo? Sem dúvida suprir necessidade básicas de subsistência é fundamental e essencial para que possamos trilhar o nosso propósito de vida, porém isso não é tudo. A barriga estava cheia e sempre fui muito grata por isso, mas o coração e o brilho nos olhos estavam fracos.

Foi entre muito choro e um vazio no peito que uma vez eu ouvi: “Samya, você é mais alternativa que o seu meio. Não tem nada de errado com você e nem com eles. Volte a dançar!”. Passei, então, a repetir para mim mesma: “Está tudo certo, só estou expondo minhas ideias no lugar errado”. Essa foi sem duvida uma lição muito importante: não expor ideias em estágio inicial em ambientes hostis, pois elas não teriam como sobreviver. Era preciso amadurecê-las e nutri-las. Aí, sim, estariam prontas para serem lapidadas e não massacradas.

Com o coração voltando a pulsar forte, muita coisa começou a se movimentar e essa foi a segunda lição: alimente o seu coração pois, com ele bem nutrido, você terá a energia necessária para alcançar tudo o que precisar. Fui trabalhando a minha confiança e crescendo, mas foi uma jornada difícil.

O caminho do autoconhecimento e da espiritualidade é solitário

Mesmo tendo vários colegas, eu não me sentia parte do grupo. Os meus primeiros 15 anos de vida estavam me preparando para o que viria mais tarde, me ensinando a cair, a levantar, a lidar com críticas e a fortalecer minhas próprias convicções. Ao longo dessa primeira fase da vida, o que sustentou o meu coração aberto, sem dúvidas, foi a dança, o bom humor e uma certa inocência. Eu nunca acho que vai da errado, até que dá. Aí eu choro, danço, faço piada e é vida que segue.

A partir do entendimento de que é preciso experimentar e ir adiante sem medo, tudo foi ficando um pouco mais claro. Veja bem, eu disse claro, não fácil! Quanto mais forte você fica, os desafios crescem (afinal, são eles os nossos grandes mestres).

Me formei em Ciências Sociais, integrei uma escola de Filosofia clássica, fiz mestrado em Antropologia e, claro, sempre estive dançando tanto nos espaços das casas que morei como em apresentações dos grupos de dança que fiz parte. No mestrado, tive a honra de conviver com o grupo indígena Waiwai por quase dois meses na Floresta Amazônica, no Norte do Brasil, para aprender sobre a importância da dança na vida deles. Foi aí que entendi que tudo o que eu sentia dançando desde criança tinha uma tradição riquíssima. Muitas gerações daquela tribo utilizavam essa arte como uma ferramenta para acessar os seus corpos e transformar suas vidas.

Samya durante aulas do The Healing Dancing Program- Refugees, na Tailândia, com o grupo étnico Kayan, de Myanmar.

Nesse momento, entendi que cada vez que me punha em movimento, acessava informações através do meu corpo e isso me auxiliava ao longo da minha jornada.

Compreendi que era preciso me permitir explorar lugares de luz e de sombra dentro mim, pois isso me conduziria à transformação e à ressignificação de qualquer experiência de dor.

Ver, ouvir e sentir tudo aquilo foi uma momento muito importante na minha vida pessoal e profissional. Eu estava no meio de pessoas que falavam pouco português, mas eram fluentes na linguagem da dança, o que tornava nossa conexão muito forte e profunda. Esse era apenas o começo do meu novo ciclo e o que mais tarde seria a minha entrada no mundo do empreendedorismo.

Com fim do mestrado, resolvi continuar no meio acadêmico, pois essa era a única forma que conhecia, até então, de continuar pesquisando sobre a dança. O próximo passo seria o doutorado, certo? Errado! Mas descobrir isso só depois. Reduzi todos os meus bens materiais em duas malas e investi minhas economias em uma viagem para a Austrália, onde pretendia conseguir uma bolsa de doutorado para pesquisar a dança aborígene. Morei na terra dos cangurus por quatro anos.

Não consegui a bolsa do doutorado, mas aprimorei o meu inglês, fiz muita faxina, lavei muito prato, dei muita aula de zumba

E comecei a empreender o Maracass Holistic Dance & Healing. Através de uma metodologia própria chamada YourDance, eu ensinava dança e dava workshops com o propósito de trazer autoconhecimento e cura. Nesse momento, entrei de cabeça em um estudo prático de como é viver o movimento e se conectar profundamente com o nosso corpo, adotando uma van como lar. Morei sozinha nessa casa móvel por dois anos e isso me proporcionou um entendimento mais aprofundado do corpo, da mente, do coletivo e da dinâmica da vida que eu certamente levaria mais tempo para compreender caso tivesse seguido um caminho convencional.

Acredite, TUDO muda quando você não pode mais se dar ao luxo de entrar no piloto automático. No começo, foi estressante tomar decisões simples como, por exemplo, onde iria tomar banho. Eu usava os banheiro públicos e tinha toda uma logística e dinâmica própria. Com o tempo, fui ficando mais alinhada comigo mesma, com a van e com o meio em que estava inserida, entendendo o ritmo daquilo tudo e iniciando uma nova dança.

Percebi que, à medida que reduzia os meus pertences ao que de fato iria fazer uso, mais leve e abundante eu ficava

Nesse momento, fiz uma síntese de tudo o que já havia aprendido e concluí que já estava pronta para ir mais longe e dar suporte a outras pessoas. Foi aí que nasceu o The Healing Dance Program, um projeto social que, inicialmente, escrevi para dançar com os aborígenes na Austrália durante o doutorado, mas como a bolsa foi negada, resolvi implementá-lo sozinha em um outro tipo de trabalho.

Samya Fraxe criou uma metodologia que usa a dança para ajudar pessoas com traumas emocionais.

Assim que tomei essa decisão, conheci uma organização que dá suporte para refugiados em Perth, capital da Austrália Ocidental, e demos início ao programa com dois grupos de refugiados, da Síria e de Myanmar, que moram no país.

Ainda na Austrália, foquei em fazer o máximo de faxina e aulas de dança que podia para levantar recursos financeiros suficientes e continuar a jornada (meu visto estava acabando e tinha apenas quatro meses para deixar o país).

Tive muita dificuldade, mas consegui implementar o The Healing Dance Program — Refugees em três países (Austrália, Tailândia e Grécia) em diferentes contextos de assentamento e também dei treinamentos a facilitadores locais para que o programa continuasse depois que eu seguisse minha caminhada.

E, assim, venho compartilhando esse movimento ao redor do mundo: dançando com mulheres que sofreram abuso físicos e emocionais; com homens que não se permitiam chorar; com crianças que tiveram sua infâncias perdidas; com idosos sem o direito ao descanso; com grupos étnicos de diferentes parte do mundo; com pessoas comuns tentando encontrar a si mesmas e o sentido da sua própria existência; além daqueles que querem dançar para celebrar a vida.

A dança tem o poder de atuar nas feridas mais profundas de uma forma sutil e poderosa, transformando dor em vigor

Ao final das aulas, tanto no programa com os refugiados como nos workshops, era notório o sorriso no rosto, o entusiasmo e a vida pulsando nos corpos ali presentes. Isso, sem dúvida, é a minha grande motivação, além da minha própria transformação, pois, a cada dança e a cada encontro, aprendo mais e mais.

Os passos que dei não foram planejados na ponta do lápis. Venho aprendendo cada vez mais a ouvir a minha voz interior e silenciar a voz externa. Entendo que a opinião dos outros e os demais desafios são importantes para colocar à prova a minha vontade e negociar o preço que estou disposta a pagar para seguir o caminho do meu chamado, mas a voz externa não pode jamais ditar a realidade. Não é fácil viver dessa forma, é necessário muito desprendimento, uma vigilância constante e uma surdez seletiva, além de bom humor, disciplina, resiliência e vontade.

Hoje, não tenho uma base fixa, pois faz parte do meu ser estar em movimento. Vivo a vida que sempre sonhei, criando arte, compartilhando dança e autoconhecimento com trabalhos presenciais e online. Isso tudo só é possível porque vivemos em uma era muito dinâmica. Acredito que é exatamente esta a característica que favorece o empreendedorismo no momento atual: além de sermos empreendedores, somos, também, criadores e realizadores. E, para mim, existe uma concepção de que a dança nunca para, só muda o ritmo, por isso, precisamos nos adaptar às coreografias da vida.

 

Samya Fraxe, 32, é antropóloga, fundadora do Maracass Holistic Dance & Healing, criadora do método YourDance e do The Healing Dance Program.

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