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“As mulheres não precisam ser mães. E se optarem pela maternidade, não podem ser reduzidas a essa condição”

- 11 de outubro de 2019
Desde 2017, Joice mantém o site Mães que Escrevem com recursos próprios.

 

por Joice Melo

Ser mãe nunca foi meu maior sonho. Acho que talvez o da maioria das mulheres que conheci ao longo dessa jornada que é minha vida. A maternidade é quase que uma imposição social na vida de uma mulher. Se você não é mãe aos 30, ou tem um marido e uma casa, você não está inserida socialmente.

Apesar de termos toda a biologia a nosso favor, não quer dizer que tenhamos de obedecer aos hormônios e gerar

Ouço muitas mulheres que são cobradas pela família a serem mães. É como se isso fosse “o pingo no i” que faltasse na vida dela, senão, ela não é completa. Mas, ao mesmo tempo, quando se é mãe jovem, ser chamada de irresponsável passa a fazer parte da realidade. Ou seja, na vida de uma mulher, nada é 100%.

O julgamento é um pré-requisito que a vida nos dá assim que nascemos, juntamente com nossos brincos na orelha e roupinhas rosa ao sair da maternidade nos braços de… nossas mães.

Fui mãe aos 22 anos. Tinha acabado de me formar em Letras, aliás, estava grávida na minha colação de grau e nem sabia. A partir daí as coisas começaram a mudar para mim. Não era casada, era recém-formada, tinha um emprego estável, mas fora da minha área, e morava com minha tia.

As primeiras palavras que ouvi depois de anunciar a gravidez foram: “Você vai casar agora, não é? ”. E olha só, nem faz tanto tempo assim. Há oito anos, ouvir isso fez com que eu me sentisse em alguma época em que ser “mãe solteira” é algo trágico. É o futuro imitando o passado e vice e versa.

Até que aconteceu. Fui morar com o pai do meu filho. Agora eu estava do jeito que a sociedade gosta, formada, mãe e casada. Mas por dentro, não sabia o que fazer. Não sabia como era ser mãe, o que era estar grávida e como isso afetaria minha vida.

Lembro de todo mês acessar sites sobre desenvolvimento do feto para saber o que estava acontecendo com meu corpo e como o bebê se desenvolvia dentro de mim. Tanto que só me dei conta que estava gerando a partir do 5º mês, quando senti meu filho se mexer. Me sentia estranha, enjoada, meu corpo inchado, hormônios a mil. Azia, então, nem se fala. Como nunca tive muitas amigas e sou órfã, não sabia a quem recorrer em caso de dúvidas. Na verdade, eu nem sabia que dúvidas ter.

Era tudo tão novo para mim, me sentia como se tivessem me colocado no meio de um jogo em que eu não conhecia as regras e nem como começar. Como Alice entrando na toca do coelho. Fui algumas vezes ao hospital (que era público), vários alarmes falsos, até que um dia, como já estava nas semanas ditas certas para o nascimento, decidiram que eu ia ficar.

Me senti totalmente invadida. Era dia de residentes na maternidade e eles me olhavam com as pernas abertas na maca. Mesmo sem dilatação, resolveram que meu filho iria nascer naquele 15 de outubro de 2010

Fui para o tal “soro mágico” e as contrações começaram. Como minha bolsa não estourara de forma natural, senti uma agulha grande me penetrando e a água. Agora sim. Ele vai nascer. Senti muitas dores, passei pela Episiotomia, manobra de Kristeller e o tal Ponto do Marido e, depois de muita força, Juan chegou ao mundo com 4 quilos e 100 gramas, 57 centímetros e olhos abertos olhando tudo. Senti um alívio e, ao mesmo tempo, sangue escorrendo de mim, a sujeira do parto.

Minha terceira fase começou aí. “O que vou fazer agora?”, me perguntei olhando pra aquele menino lindo cheio de cabelo e olhos gigantes. Se eu fosse narrar cada passo da minha vida como mãe até hoje, poderia publicar um livro.

Mas o que mais me marcou era não saber como agir, cuidar do umbigo, dar banho, de mamar, parar de sentir dor nos meus bicos que ficaram em carne viva, fazer o bebê parar de chorar. Só queria um manual de instruções para seguir essa jornada

E, como todo casamento que é baseado em criação de um filho, o meu não durou. Começou a luta pela guarda compartilhada e unilateral. Eu não tinha para quem pedir um colo, um teto. Não tinha rede de apoio para passar por mais aquela fase. Voltei à estaca social zero: mãe solteira.

Os anos foram passando e eu comecei a me engajar mais em causas sociais. Sempre gostei de ajudar as pessoas, me sentia bem dando conselhos. Um dia postei no Facebook a seguinte frase: “Queria juntar algumas mulheres que são mães para fazer um piquenique e conversar sobre maternidade”. Daí surgiu o primeiro encontro do Coletivo Mães Feministas em 2016, no Parque da Água Branca, em São Paulo.

Foi tão bom saber que outras mulheres passavam pelos mesmas dúvidas e medos. Quando me perguntaram quando seria o próximo encontro, decidi organizá-los mensalmente

Cada um deles tinha um tema específico. Comecei a chamar algumas profissionais na área da saúde mental, do direito e da área social para me ajudarem. Falamos sobre a cobrança materna, relacionamento abusivo. Minha vida agora era ajudar aquelas mulheres e aquilo, de certa forma, me ajudou muito também.

A partir daí comecei a ver que outros encontros esporádicos sobre maternidade apareciam. É como se este encontro fosse um chamado: “Vá e façam também, precisamos disso”. Tive alguns percalços no meio do caminho, obviamente. Perdi muitas amizades que andavam comigo por divergência de opiniões.

Chegou um momento que eu tive de parar por alguns meses por causa de crises de ansiedade. Ajudar pessoas estava me adoecendo. Eu lutava pela rede de apoio e não tinha apoio das pessoas. Era como se eu gritasse no meio de uma multidão e ninguém me ouvisse. Então, as pessoas começaram a me procurar e resolvi voltar, mas as mães já não apareciam em quantidade.

Como eu tinha muitas mães adicionadas nas redes sociais, comecei a fazer algumas pesquisas e entendi que a maior parte do tempo, a internet era a maior aliada. Aliás, tinha sido a minha quando descobri que estava grávida. Isso me veio à mente. Então, juntou o que eu amo, que é escrever, e a facilidade do acesso a informações.

Foi assim que criei a revista online Mães que Escrevem, em 20 de junho de 2017, uma rede de apoio virtual em que mulheres podem escrever, seja assinando seus textos ou de forma anônima. Lá elas têm um espaço para falar sobre o que quiserem, quando quiserem.

Recebo textos que me fazem chorar. Relatos que doem, Machuca saber que somos obrigadas a passar pelo que passamos justamente porque não entendem que mulheres não precisam ser mães se elas não quiserem e, se forem, elas não podem ser limitadas à maternidade.

Atualmente, estou fazendo pós-graduação em Marketing Digital e meu filho não mora comigo, o que é uma dor enorme visto os julgamentos que passei e passo por conta disso

Afinal, sempre veem as mães como seres imaculados. Eu chorei muitas vezes no meu dia sentindo que abandonei meu filho, tinha vergonha e medo de falar para as pessoas sobre isso.

Mas essa foi uma escolha minha para poder estudar e trabalhar. Hoje, uma das minhas lutas como mulher é passar a mensagem de que filho não é só da mãe, e que está tudo bem ele não morar com ela, afinal, sua maternidade não é anulada por causa disso.Você já viu alguém perguntando para um pai: “Seu filho não mora com você?”.

Mas voltando à revista, tudo sempre foi feito de forma colaborativa e eu uso do meu tempo e conhecimentos profissionais para seguir com o projeto. É algo que, ao mesmo tempo é gratificante e cansativo.

Hoje, conto com sete colunistas que se disponibilizaram a escrever sobre temas atuais, com os quais se identificam dentro da maternidade e recebemos textos de mulheres que desejam falar sobre algum tema específico no “Quero Escrever”.

Além disso, temos 27 psicólogas parceiras que abraçaram a causa e fazem atendimento a preço social para as nossas leitoras. Em uma área chamada Especialistas, advogadas, nutricionistas, ginecologistas, pessoas que entendem o nosso propósito, se dispõem a passar informações importantes de forma gratuita.

A ideia é não parar por aqui. Por falta de recursos financeiros, eu pago do meu bolso os custos com hospedagem e o domínio do site. Abri uma Vakinha virtual onde coloquei os valores que demandamos, juntamente com o sonho que é fazer uma revista impressa. Mães que Escrevem ainda dará muitos frutos!

 

Joice Melo, 30 anos, é especialista em Comunicação e Marketing Digital. Editora e criadora da revista Mães que Escrevem.

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