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“As notícias falsas são como um novo vírus de computador, que precisa de cura. Urgente”

- 13 de abril de 2018
Daniel Nascimento fala sobre o mito que existe em torno dos hacker e dá detalhes do Fake News Autentica, projeto que desenvolve junto ao Senado para combater as notícias falsas na rede.

 

por Daniel Nascimento

Olá, sou Daniel Nascimento, sou de Bauru, tenho 29 anos, sou empresário especialista em segurança digital. Mas, provavelmente, você tenha ouvido falar ou vá encontrar em uma busca na internet sobre o Daniel Nascimento que sou “um dos maiores hackers do Brasil”. Aquele que invadiu os servidores nacionais e estrangeiros, como os do governo, atacou redes de telefonia, o que deixou a Região Nordeste sem acesso à internet durante uma semana e que foi detido, ainda menor de idade, na operação da Polícia Federal chamada “Ponto Com” em 2005. Sim, sou esse também.

Ser um ex-hacker pode soar para muitos como algo muito mais curioso e com consequências ruins, imagino, pois, pelo menos aqui no Brasil, ignoramos o significado que a palavra “hacker” traz. Hacker é a pessoa com grandes conhecimentos de informática e programação, que se dedica a encontrar falhas em sistemas e redes computacionais (segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa) — mas a adotamos para se referir àquilo que acreditamos que possa ser um “criminoso cibernético”, que invade seu email, rouba suas senhas e até seu dinheiro no banco.

Foi por esse sentimento, e por tudo que ele carrega até hoje, que escrevi meu primeiro livro, em 2015, o Dnpontocom – A Vida Secreta e Glamourosa de Um Ex-hacker. É uma verdadeira ode pessoal, um desabafo e quiçá, o meu melhor divã. Nele, conto absolutamente tudo que envolve as notícias que você vai achar no Google, com uma pitada de dever cumprido em ser ouvido, afinal, ser um hacker nos anos 2000, aos 11 anos, envolve muito mais do que a malícia de um adulto que invade sistemas.

Depois desse livro, resolvi não deixar o preconceito abater o meu trabalho, segui com as empresas que eu já tinha de diferentes segmentos e fundei a DNPontoCom, uma empresa de tecnologia, que discute e traz soluções tecnológicas, a partir do meu conhecimento e de outros técnicos de TI, para explorar e melhorar a segurança digital que você, usuário comum ou não, navega todos os dias.

Parece que o jogo virou, não é mesmo? Sim, ser um ex-hacker-empresário-apaixonado por tecnologia e utilizar esse talento para entregar soluções em tecnologia parece um pouco mais justo, certo?

Mas o que preciso te dizer é que isso já acontece em outros países. Países menos evoluídos economicamente que o Brasil e outros mais avançados, como os EUA. Há anos nos EUA, quando hackers são descobertos eles não são enviados para uma cadeia como no Brasil: são contratados pelo Estado para ocupar cargos na Inteligência do Governo e colaborar com a segurança digital. A minha discussão é sobre o quanto estamos desperdiçando essas oportunidades por aqui.

Recentemente, fui convidado pelo Senado Federal a participar de uma seção que discutiu a questão das Fake News, assunto de suma importância, principalmente se lembrarmos que esse ano teremos eleições no país. Essa nova iniciativa do governo abre a discussão sobre o tema e pode formar o interesse social por informações mais limpas e verídicas. Esse é um primeiro passo, que demorou para acontecer, mas está acontecendo!

Então levei à seção plenária o meu projeto Fake News Autentica, que une tecnologia a uma equipe curadora, formada por jornalistas, para validar as informações que estão sendo publicadas. É um projeto simples, educacional e de infraestrutura menos burocrática, que irá reagir a essa tempestade de notícias falsas que dominam a internet.

Uma das possibilidades imaginadas para o projeto é que um bot seja responsável pela absorção das dúvidas das pessoas sobre determinado conteúdo. Ao utilizarem uma hashtag da campanha, isso torna rastreáveis os conteúdos suspeitos, permitindo a validação de sua veracidade pelo portal. Mas há, também, um trabalho de inteligência artificial a se fazer, em que a partir da coleta de dados dos focos de onde estão sendo espalhadas essas fake news, essas informações poderão ajudar as entidades responsáveis a combater esses crimes da internet.

Como consultor em segurança digital, eu também poderia gravar vídeos ou distribuir pautas pela imprensa dando dicas óbvias de como se proteger de Fake News (tais como “confira a fonte do conteúdo”, “leia o texto até o final e não só o título”) mas não seria suficiente.

Há algo maior a ser feito contra Fake News, que vai além de simplesmente controlar a internet e passar a censurar esses conteúdos. É preciso reeducar as pessoas

O Fake News Autentica objetiva reeducar o usuário da internet, uma conscientização intuitiva com o viés de fazer a população se questionar e nos pedir ajuda para validar aquilo que está sendo divulgado. As notícias falsas são como um novo vírus de computador, que precisa de uma cura, e sua urgência, pelo menos no Brasil, é para que não tenhamos eleições como os EUA viveram na candidatura de Trump.

O projeto ainda está sendo discutido e espero que muito em breve ele receba o apoio necessário para atuar, que se torne um grande case nacional na resolução do problema e também na desmistificação do que hackers, ex-hackers, profissionais de tecnologia ou qualquer outro nome que você prefira denominar, podem fazer para colaborar a partir dos seus conhecimentos.

O caminho foi longo até agora e quero que continue sendo. Por isso, aproveito esse espaço para, também, convocar outras pessoas capazes de colaborar com essa evolução na segurança digital. Que elas se sintam incentivadas a abrir o debate e apresentar cada vez mais capacitação técnica para empresas e entidades. O preconceito é grande e muitas vezes a ideologia e a cultura engessada atrapalham, mas a evolução está acontecendo e não podemos deixar que isso nos atrase ainda mais.

 

 

Daniel Nascimento, 29, é ex-hacker, consultor em segurança digital e CEO da DNPontocom, empresa especializada em segurança e soluções digitais.

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