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Biosolvit, a startup que descobriu, na palmeira, um absorvedor orgânico de petróleo

- 22 de janeiro de 2019
Na foto, Guilhermo e Walter estão na etapa brasileira do Startup World Cup (realizado em agosto de 2018), quando foram escolhidos para representar o Brasil na final, que acontecerá em maio deste ano.

Este 2019 será mais um ano de mudanças na vida do analista de sistemas fluminense Guilhermo Pinheiro de Queiroz, 44, fundador e CEO da Biosolvit, startup de biotecnologia especialista em remediação ambiental que desenvolveu um absorvedor orgânico de petróleo tido como o melhor do mundo a partir do resíduo de palmeira. “Já concluímos a construção da nova fábrica e vamos começar a produzir em fevereiro”, conta o empreendedor.

Sócio da operação da Totvs no sul do estado do Rio de Janeiro desde 2002, Guilhermo articulou sua saída gradual do negócio de tecnologia em softwares para assumir de vez a empreitada que vem gestando desde 2012, quando resolveu retomar um antigo negócio da família. “Foi preciso entender que, na área de tecnologia, os mais jovens chegam com mais gás e conteúdo, então, eu precisava abrir espaço para o meu time. E eu tinha que ter um projeto de futuro”, diz.

Sem vocação para a aposentadoria, o analista descreve o raciocínio que o levou a criar a startup de desenvolvimento de novas tecnologias e materiais, a partir de resíduos descartados em lavouras ou processos industriais. 

Acima, uma das apresentações do absorvedor orgânico da Biosolvit, da linha Bioblue. O saco com 10 quilos sai 275 reais. O produto pode ser jogado, por exemplo, em estradas onde houve derramamento de óleo diesel ou gasolina.

“Preciso ter alguma coisa para fazer daqui alguns anos, porque não gosto de ficar à toda. Não sou ligado em passeio, gato, cachorro, periquito, papagaio, nada disso… Gosto de trabalhar. E me recuso a parar de sonhar”, conta.

A primeira ideia de negócio que lhe brotou na cabeça foi, então, a retomada da produção de palmitos em conserva, negócio em que seu pai trabalhou em Volta Redonda (RJ) por 35 anos. O empreendimento garantiu o sustento da família até 1998, quando a atividade foi encerrada.

O foco da empresa resgatada seria o mercado internacional, usando como matéria-prima um tipo de palmeira real australiana cultivada, sem necessidade de extração da palmeira juçara, espécie nativa ameaçada de extinção.

Para tomar pé das tecnologias que estavam sendo empregadas no ramo palmiteiro brasileiro, que o é o maior do mundo, Guilhermo começou a visitar algumas fábricas e acabou se deparando com algo que chamou mais sua atenção do que o maquinário de obtenção da iguaria.

“Descobri que existe um grande desperdício de massa orgânica em uma lavoura de palmito, porque apenas 3% da palmeira se aproveita e os outros 97% de biomassa são descartados”, diz. Diariamente, conta, o volume de resíduos em uma fábrica de palmito pode atingir 50 toneladas de matéria orgânica, o equivalente a cerca de 2 mil árvores por dia. Além disso, cada palmeira resulta em um vidro e meio de conserva, rendendo cerca de 35 reais, no mercado normal. A margem de contribuição da atividade, tirando os custos, é de 40%. A conta não fechava.

Na cabeça de Guilhermo: usar uma planta que leva três anos para crescer sob cuidados de manejo e que passa por um processamento industrial, para gerar 750 gramas de produto, mais de 25 quilos de resíduos e cerca de 14 reais de lucro, não lhe parecia o melhor negócio ao qual se dedicar nos anos seguintes de vida.

NINGUÉM SABE O DURO QUE EU DEI

Na lida desde os 14 anos, o empreendedor começou como office boy. Cursando o ensino médio técnico, descolou o primeiro bom emprego na área de tecnologia como gerente de TI de um parque de lazer da região, aos 20 anos, comandando uma equipe de nove pessoas. Aos 22, abria seus dois primeiros negócios próprios: uma escola de educação infantil, que administrava à noite, e uma loja de informática, em parceria com um amigo.

No ano seguinte, abria uma empresa de telemarketing para recuperação de títulos de parques de lazer, encerrada dois anos depois, quando foi contratado como analista de sistemas da Microsiga, desenvolvedora de tecnologia e software que um dia viria a ser a Totvs. Se desfez da sociedade com o amigo na loja e permaneceu apoiando na escola até 2002, quando também vendeu sua parte. A partir da experiência que viria, o empresário passou a adotar uma frase que gosta de repetir:

“Toda vez que tive uma oportunidade na vida, ela veio fantasiada de trabalho muito duro, nunca vestida de oportunidade”

De analista a coordenador e, novamente, gerente, Guilhermo mostrava resultado e era convidado para ser sócio da operação sul-fluminense da Microsiga, que havia quase falido em 2002. Em 2003, conta, praticamente triplicava o faturamento. Em 2004, crescia mais de 65%. Idem, em 2005, enquanto ainda apenas concluía uma pós-graduação em gestão empresarial na Fundação Getúlio Vargas. No ano seguinte, adquiria a operação da mesma marca em São José dos Campos (SP). Duas vezes maior que a do sul-fluminense, a operação joseense foi adquirida com o dinheiro do próprio resultado dos negócios.

Administrando as duas unidades de desenvolvimento de softwares até 2010, Guilhermo passou por novas mudanças com o término do primeiro casamento e a venda das atividades no território paulista. Depois de quatro anos por lá, retornava a Volta Redonda e iniciava sua busca por outros rumos. “Eu sempre quis deixar uma marca, ter um projeto meu, um negócio grande, desde pequeno, sempre tive essa ideia de gerar muito emprego, de ter um negócio de amplitude mundial”, diz.

AO RESGATAR UM NEGÓCIO DE FAMÍLIA ELE DESCOBRIU UM POTE DE OURO

Nos anos seguintes, já em um novo casamento, ele amadureceria a ideia de retomar, então, o negócio familiar de produção de palmito, que o levaria a patentear o absorvedor de petróleo mais eficiente do mundo — segundo testes realizados pelo instituto francês Cedre.

A partir de 2012, com as visitas às fábricas de palmito e o espanto com o desperdício de resíduos, Guilhermo começou a pesquisar possíveis usos para o refugo do produto. De cara, criou uma forma de produzir vasos de plantas, feitos de fibra aglutinada semelhante ao xaxim, outra espécie em extinção da Mata Atlântica. Substrato vegetal para jardins foi outra boa pedida.

A pesquisa de uma forma de usar a fibra da palmeira como xaxim acabou levando à descoberta das propriedades absorvedoras de petróleo do material. Isso mudaria a história.

Em 2013, ele levou o material a uma faculdade da região e articulou com uma pesquisadora o envolvimento de seus alunos na pesquisa de aplicações para a fibra. Entre as opções que surgiram, uma chamaria a atenção do empreendedor: um dos alunos, que também trabalhava em uma fábrica de material absorvedor de petróleo, havia identificado o alto potencial absorvente da fibra de palmeira para essa finalidade de retirar o óleo de locais afetados por vazamentos, tanto na terra, quanto na água.

Novos desenvolvimentos seriam necessários, mas o potencial do material estava claro, e Guilhermo decidiu convidar o descobridor da propriedade da palmeira para entrar de sócio no novo negócio, aportando como capital a tecnologia que concebera. Assim, Wagner Martins, 33, mestre em materiais, se tornaria cofundador e diretor comercial da Biosolvit, enquanto aprimorava a descoberta saída de sua bancada, ainda na graduação. Com a renda da venda dos vasos, que geram margem de 70% sobre o processamento de cada palmeira, e também de substrato de terra vegetal, comercializados hoje em 11 estados, a obra-prima do resíduo do palmito ia sendo lapidada. Até testes em piscinas, para simular vazamentos de óleo, foram conduzidos.

Dispostos a investir no ramo dos absorvedores, os dois arremataram, em 2017, os equipamentos industriais da antiga empresa onde Wagner trabalhava, que havia falido, preparando-se para iniciar a produção de absorvedores de poliuretano, um derivado do próprio petróleo. Amplamente empregado na captura de óleo em várias situações, o absorvedor de poliuretano vira fonte calorífica e é queimado, depois de cumprir sua missão, dando origem a um processo chamado retro-contaminação, que não retira o material do ambiente, apenas o reduz a CO2 lançado na atmosfera.

“Quase 6 milhões de toneladas de petróleo e seus derivados foram derramados apenas em nossos mares desde 1970, um problema que traz altos custos de remediação e ainda mais altos, em penalidades”, contou Wagner, durante o pitch da InovAtiva Brasilrealizado pelo Sebrae em dezembro passado.

MUITOS PRÊMIOS E A EXPECTATIVA REAL DE EXPANSÃO

Com seis prêmios conquistados entre 2017 e 2018, figurando no ranking das 100 startups to watch e escolhida para representar o país no Startout Brasil na França e em Portugal, a Biosolvit é dona do absorvedor natural “mais eficiente, mais rápido e mais econômico do planeta, o único que permite a reutilização do óleo e o único natural que faz absorção offshore (no mar)”, afirma Wagner, que vai, ao lado de Guilhermo, representar o Brasil na Startup World Cup 2019, em maio deste ano, em São Francisco, nos Estados Unidos.

Até lá já terão inaugurado a nova fábrica, que permitirá, a cada mês, a produção de seis toneladas de absorvedores, 44 mil metros de barreiras de contenção, 16 mil vasos e 10 a 12 mil sacos de terra vegetal: tudo a partir do resíduo da palmeira. As instalações permitirão que a empresa amplie sua atuação em um mercado que, segundo Wagner, chegará a 180 milhões de dólares, em 2025.

Localizada em Porto Belo (SC), a nova unidade está próxima à fábrica da Natupalm, uma das mais importantes produtoras de palmito em conserva do estado, cujo proprietário, Edson Fantini, também tornou-se sócio da Biosolvit e passará a fornecer toda a matéria-prima necessária à produção da startup. Wagner falou desse potencial, também no InovAtiva:

“Nossos produtos atendem desde petrolíferas até postos de gasolina, solucionando vazamentos que acontecem em diferentes empresas”

Ele prosseguiu: “Praticamente toda empresa que possui uma máquina precisa de um absorvedor para sanar um problema de vazamento, por menor que seja”. Há basicamente duas linhas de produto: a Bioblue, carro-chefe, traz inúmeras apresentações dos produtos absorvedores de petróleo (e qualquer de seus derivados) para realizar a remediação ambiental; e a Biogreen, que comercializa o substrato e o xaxim de palmeira.  

Com pouco mais de 1 milhão de reais faturados em 2018, a Biosolvit estima alcançar os 3,6 milhões de reais, em 2019, possuindo contratos com a mineradora Vale, que emprega seu produto em ferrovias, e com a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), além de já atender também a Petrobras.

“A Biosolvit preencheu meu desejo de ter uma empresa grande, com potencial de internacionalização e de me levar mundo afora, algo que eu sempre quis”, conta Guilhermo, que já patenteou no Brasil, Estados Unidos, Canadá e Comunidade Européia o absorvedor natural de petróleo mais eficiente do mundo — e também muito rentável: a mesma palmeira agora produz um vidro e meio de palmito (que vale cerca de 35 reais), pode produzir seis xaxins (mais 60 reais) ou até 500 litros de absorvedor (mais 800 reais).

“A área de biotecnologia veio por acaso, foi uma paixão que me pegou aos poucos. Eu fui vendo aquele reaproveitamento de resíduos, fui entendendo a dinâmica de criar soluções e fazer um mundo melhor ganhando dinheiro, sem ser ‘natureba’, com muito orgulho do que a gente é: somos uma empresa de biotecnologia aplicada, que desenvolve novos materiais a partir fontes renováveis, preservando a flora e as águas”, conclui o empreendedor, indicando novas apostas em soluções a partir de outras espécies, para aplicação em biomedicina e pesquisas em nanotecnologia.

DRAFT CARD

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  • Projeto: Biosolvit
  • O que faz: Soluções biotecnológicas a partir de fontes renováveis
  • Sócio(s): Edson Fantini, Guilhermo de Queiroz e Wagner Martins
  • Funcionários: 14 (incluindo os sócios)
  • Sede: Volta Redonda (RJ)
  • Início das atividades: 2014
  • Investimento inicial: R$ 4,3 milhões (até o momento)
  • Faturamento: R$ 1 milhão (em 2018)
  • Contato: [email protected]
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