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Pesquisador brasileiro conta como foi viajar à Áustria para repatriar amostras de plantas do século 18

- 15 de maio de 2018
O doutor Rubens Luiz Gayoso Coelho

O doutor Rubens Luiz Gayoso Coelho, 34 anos, foi um dos brasileiros contemplados com a bolsa do Projeto Reflora, que permitiu o envio de pesquisadores a herbários internacionais para fazer o trabalho de digitalização e repatriamento de amostras da flora brasileira coletadas por botânicos estrangeiros nos séculos 18 e 19.

Ele viajou em 2014 e passou seis meses em Viena, capital da Áustria, onde enfrentou o desafio de encontrar amostras brasileiras em uma coleção com cerca de 5,5 milhões de registros. No seguinte depoimento, Rubens conta um pouco sobre esse processo, e como foi enriquecedora a experiência de entrar em contato com preciosidades da botânica, que remontam aos pioneiros dessa atividade:

“Logo que eu terminei meu doutorado, abriu o edital do Reflora para interessados em trabalhar em três instituições fora do Brasil: os herbários de Missouri e de Nova York, nos Estados Unidos, e de Viena, na Áustria.

Eu trabalho com taxonomia de plantas, e estava à procura de algo legal para fazer, algo que eu desse importância e que sentia que faria sentido para mim naquele momento.

Meu orientador do doutorado trabalha próximo à Rafaela Forzza, do Jardim Botânico (coordenadora do Reflora), e quando vi o edital aberto, me interessei e fiz a inscrição, me colocando à disposição para trabalhar em qualquer uma daquelas instituições.

Mas, após a seleção, durante a entrevista, a Rafaela me pediu para ir a Viena, pois o trabalho lá seria um pouco mais complicado. Como eu já tinha terminado o meu doutorado, passaria um pouco mais de segurança. A seleção ocorreu em agosto de 2014, e em novembro eu estava viajando para Viena.

Lá, o herbário não é organizado por geografia, como acontece com outros grandes herbários do mundo, onde você encontra as amostras divididas por localidade, como a América do Sul. Em Viena, a divisão é feita por família, gênero e espécie, então teríamos que passar por toda a coleção à procura dos materiais coletados no Brasil. São cerca de 5,5 milhões de amostras, para se ter uma ideia do tamanho do desafio.

O acervo do herbário de Viena

Eles também precisavam que usássemos nosso tempo para fazer um trabalho curatorial, de identificação de peças degradadas, fazer limpeza, numeração e tombamento dos materiais que não eram tombados desde os anos 1800. Então, essa era outra parte complicada do trabalho em Viena.

Chegando lá, conhecemos o nosso líder dos trabalhos no herbário, e criamos um fluxo de trabalho. Graças a essa sistematização, conseguimos manter um ritmo de trabalho bastante coeso, que se manteve ao longo dos seis meses da minha estadia.

Além de mim, havia um outro estudante brasileiro, que havia concluído o seu mestrado, e o herbário também se comprometeu bastante, com pessoal e equipamento, pois eles também estavam em um processo de digitalização do acervo. Então, eles tinham uma equipe que fazia isso com materiais não brasileiros. Trabalhávamos diretamente com o diretor do departamento de botânica e com o curador da coleção de angiospermas.

O processo era o seguinte: passávamos pela coleção, separando o que era do Brasil. O que precisava de um cuidado, enviávamos para a curadoria, que nos nos retornava com número de tombo, então colocávamos em caixas, fotografávamos os materiais e devolvíamos à coleção. Trabalhávamos com três caixas por vez, cada uma delas com 200 materiais. Quando terminávamos um “lote”, reiniciávamos o ciclo. Assim, digitalizamos em média 200 amostras por dia, mas havia dias da semana separados para cada uma das etapas do processo.

A experiência em Viena foi maravilhosa. Ficamos em um apartamento de uma antropóloga do museu, em um lugar muito bom da cidade. 

O herbário de Viena tem de tudo. Desde fungos até angiospermas. Por ser uma instituição dos anos 1730, havia muita coisa interessante. Encontrávamos coisas preciosíssimas. O Império Austro-Húngaro e a Alemanha eram núcleos fortes de pesquisadores naturalistas.

Quando a comitiva do Império veio ao Brasil para casar a Princesa Leopoldina com Dom Pedro II, três naturalistas vieram fazer coletas no Brasil. Encontramos muito da coleção deles por lá. Então existem muitas histórias interessantes, pois o caderno de registro de coletas deles ainda está preservado. Temos relatos de caminhadas de coleta do Jardim Botânico até a restinga de Jacarepaguá, na Barra da Tijuca, e detalhes do percurso que durava horas, até dias. Então havia vários materiais importantes, de coletores renomados da época, ingleses, alemães…

Além disso, o Reflora permitiu que visitássemos coleções de outros herbários da Europa. Fui para Berlim, que tem uma história incrível, pois o herbário foi destruído na Segunda Guerra Mundial, para Munique e para o herbário de Copenhague, na Dinamarca.

Rubens trabalha na digitalização de amostras

São necessário muitos recursos para passar três meses na Europa. Então, o projeto Reflora é de uma importância extrema. O país economiza muito dinheiro. Temos coleções maravilhosas no Brasil, também, mas começamos um pouco mais tarde.
Para os pesquisadores, você consegue solucionar muitos problemas olhando para essas imagens de alta qualidade.

Pessoalmente, trabalhei com pessoas maravilhosas, fiz amigos. O projeto só melhorou a minha perspectiva científica e o meu conhecimento acadêmico. Foi maravilhoso.”

Esta matéria pode ser encontrada no portal Natura Campus. Confira o site para ficar por dentro do que acontece no mundo da inovação cosmética.

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