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brfHub: um convite para startups, empresas e universidades criarem soluções em parceria com a BRF

- 4 de abril de 2019
O gerente-executivo de inovação Sérgio Pinto fala sobre o lançamento de uma chamada para ajudar a empresa a resolver cinco desafios internos.

Houve um tempo em que as estratégias de negócios e desenvolvimento de produtos eram trancadas a sete chaves. No caso das fábricas existe até nome próprio para isso: segredo industrial. Mas parece que o mote da transparência atravessou as corporações de uma ponta a outra e atingiu os departamentos de inovação.

No fim de fevereiro, a BRF, detentora de marcas do ramo da alimentação como Sadia, Perdigão e Qualy, lançou o portal brfHub, uma plataforma online que convida startups, empresas dos mais variados portes e universidades a se cadastrarem para trabalhar em parceria com a indústria. O objetivo da chamada é identificar soluções para problemas em áreas como recursos humanos, suprimentos e desenvolvimento de produtos.

Com 80 anos de história, mais de 90 mil funcionários e presença em 140 países, a BRF sabe que precisa olhar para além do próprio umbigo. Sérgio Pinto, 37, gerente-executivo de inovação da empresa, afirma: “Se não falo para fora o que preciso resolver, continuo aceitando que todas as respostas, competências e habilidades estão dentro da empresa”. E prossegue:

“Por maior que seja a companhia, há coisas que não conseguiremos fazer, seja por ordem de prioridade ou porque, de fato, não temos a tecnologia internamente. Daí nasce essa necessidade de diálogo”

Essa é a segunda passagem de Sérgio pela BRF. “Sou reincidente”, brinca. O executivo começou a carreira cedo, empreendendo em agência de publicidade aos 17 anos. Depois, trabalhou com planejamento estratégico e revezou-se entre corporações e startups.

A receita “alimentos + inovação” o levou a cargos na PepsiCo e à sua primeira empreitada na BRF. “Saí no começo de 2017 porque estava investindo em duas startups, uma aceleradora de alimentos e bebidas e outra de cerveja”, afirma. De volta à companhia no ano passado, Sérgio logo entrou na incumbência de criar, digamos, uma versão 2.0 de um projeto já existente na empresa.

O brfHub é uma evolução do portal b.Connect, lançado pela BRF em 2016, que se concentrava na captação de startups para parcerias. Funcionou: hoje a companhia já tem nove startups parceiras no Brasil. Mas chegou um momento em que a plataforma precisava de um upgrade, como conta Sérgio:

“Quando se fala em nova economia não se pode considerar apenas as startups, mas também as indústrias de tecnologia, tradicionais ou emergentes, instituições de ensino superior e seus parceiros”

A máxima de que é preciso dizimar a concorrência (mesmo que isso signifique comprá-la) é, então, substituída pelo mote da colaboração. “As empresas de modo geral estão indo nessa direção.” Por isso, a decisão de tornar públicas as necessidades da BRF na internet pareceu certeira. “São dores de toda a indústria, não somente nossas.”

OS CINCO DESAFIOS PROPOSTOS PARA INDÚSTRIA ALIMENTAR

Quem acessa o portal brfHub encontra a lista com os cinco atuais desafios propostos pelo programa. O primeiro é a automatização do processo de homologação de fornecedores. A BRF hoje contrata serviços e adquire insumos de um total aproximado de 35 mil empresas. Quinzenalmente são realizadas análises de checagem de riscos socioambientais, contábeis e jurídicos desses parceiros. Além da questão de qualidade e segurança, essa é uma resposta a quem compra os produtos da empresa:

“O consumidor tornou-se um cidadão alimentar: quer saber de onde vem a comida, como é produzida, seu impacto no meio ambiente”

O segundo desafio, denominado Match Profile, remete a outra “dor” das companhias na era da transformação digital: encontrar funcionários que se encaixem bem em sua cultura interna. A busca, nesse caso, é por uma ferramenta que mensure a probabilidade de acerto entre os candidatos e as vagas na hora da contratação.

Captação de dados do consumidor nos pontos de venda físicos são outro alvo. “Conseguimos falar com as pessoas por mídias sociais, pela televisão, jornais, no ponto de venda e até depois que ela consumiu o produto. Mas o que acontece na hora em que ela está em frente à prateleira ou o que a levou até meu corredor? Nem o supermercadista tem essa informação. Ele sabe o que a pessoa comprou, mas entre entrar na loja e chegar ao caixa, ninguém tem essa visão.”

Uso de câmeras nas gôndolas e sensores que rastreiam o movimento dos olhos dos consumidores são algumas das práticas já existentes no mercado, segundo Sérgio. Os supermercados digitais — em que todos os produtos são escaneados e podem ser pagos com o celular, facilitando a coleta de dados via aplicativos — também já deixaram de ser uma utopia (como mostram o Hema, do Alibaba, e a Amazon Go). A BRF faria parceria com eles? “Com certeza. Hoje consideramos até um possível consórcio com alguma indústria que até um passado recente seria considerada concorrente.”

O quarto e o quinto desafios autoimpostos pela companhia são ligados a alimentação e saúde, dois temas que estão hoje entre as tendências mais quentes do ecossistema de inovação. “Quando olhamos para as primeiras rodadas de venture capital no mundo, as fintechs chamaram muita atenção. A segunda rodada foi muito focada em transportes, lazer e turismo. O que vemos nessa terceira rodada são as healthtechs e foodtechs.”

PROTEÍNAS MAIS DURADOURAS E BIOMATERIAIS PARA A ÁREA DA SAÚDE

Com o desafio “Protein to Go”, a companhia quer encontrar uma forma de transformar os produtos de marcas como Sadia e Perdigão (hoje, em sua maioria refrigerados ou congelados) em comidinhas portáteis que qualquer pessoa possa levar na mochila ou na bolsa. A companhia já possui um item com esse conceito, o Salamitos (um snack de salame que não precisa ser mantido na geladeira). A ideia é desenvolver novos produtos à base de carne que preservem estabilidade por no mínimo quatro meses em temperatura ambiente.

“Comemos muito carboidrato em formas de snacks, mas como fazer isso com proteínas?”, questiona Sérgio. Quando perguntado sobre as carnes de laboratório, ele diz que estão interessados e indica que esse pode ser um dos futuros desafios do programa.

A potencial criação de biomateriais para a área de saúde a partir de ossos de aves e suínos descartados pela indústria — os rejeitos somam cerca de 20 mil toneladas mensais — pode ser a solução mais hi-tech a surgir dessa primeira fase do projeto. Os parâmetros são altos para o desafio “Biotech Bones”: os biomateriais precisam ser inofensivos à saúde humana e devem ter qualidade comprovada em pesquisas feitas por instituições científicas (atestado de eficácia é um pré-requisito geral para todas as soluções apresentadas por parceiros).

Com esse grau de exigência, é preciso equilibrar expectativas. “Não é porque temos um desafio aberto que necessariamente teremos uma solução. As pessoas dentro da empresa precisam ser tolerantes com isso e entender que, eventualmente, um desafio terá uma solução mais pronta do que outra, e isso não é pela qualidade da busca, mas, muitas vezes, pela qualidade da oferta.”

COLABORAÇÃO EM TODAS AS INSTÂNCIAS

As empresas, startups e universidades interessadas colocar seus projetos na plataforma têm até 12 de abril para se inscrever. As fases seguintes — seleção, apresentação, definição do escopo, contratação, desenvolvimento e avaliação final das selecionadas — se estenderão em sequência até 16 de agosto. Não há nada pré-definido quanto à forma como esses serviços e produtos serão contratados. Pode variar de um tradicional pagamento por serviço à aquisição ou compartilhamento de uma tecnologia (além de, quem sabe, criação de patentes).

Em Uberlândia (MG) e Chapecó (SC), a BRF já mantém dois hubs de inovação que fazem parcerias com instituições de ensino e empresas locais; há, inclusive, alunos de universidades trabalhando nos times:

“Temos, assim, o compartilhamento dos estudos da academia lado a lado com o que fazemos na indústria. Isso facilita identificar quais são os atores de fora que podem nos ajudar com desafios que não conseguimos resolver internamente”

Para chegar aos primeiros desafios, cerca de cem pessoas de diferentes áreas foram envolvidas no projeto, com o departamento de inovação funcionando como um facilitador. Metodologia ágil, workshops e diálogos ajudaram a viabilizar o processo.

“Temos um fórum quinzenal dentro da companhia onde escutamos as pessoas para ajudar a desmembrar um desafio”, afirma Sérgio, que também trabalha com multiplicadores, pessoas de diversos departamentos incumbidas de fazer essa ponte entre uma área específica e a inovação.

As questões foram lapidadas conjuntamente até se tornarem um desafio preciso para ser colocado no mercado. “Buscamos canalizar as conversas. Imagina se abrimos as portas e falamos: ‘startups, empresas de tecnologia, venham, queremos ouvir vocês’. Não teríamos capital humano e financeiro suficiente para conseguir receber todo esse universo de pessoas e sequer articular.”

Em agosto terá início um segundo ciclo com novos desafios na plataforma. Não que a equipe de inovação esteja esperando de braços cruzados. Duas semanas após o lançamento do brfHub, o time colocou no ar um site interno chamado Olheiros da Inovação, que os funcionários são convidados a acessar e a sugerir tecnologias e produtos promissores.

Essa sugestão pode nascer de uma experiência gastronômica ou de alguma sacada que o colaborador teve durante uma viagem, por exemplo. “Nunca podemos deixar de escanteio o fato de que existem mais de 90 mil pessoas trabalhando na BRF no mundo inteiro”, diz Sérgio. “Essas pessoas também têm voz, comem no mínimo três vezes ao dia, vão ao supermercado, têm desejos.”

Trinta iniciativas já se cadastraram no portal brfHub, entre startups, empresas e acadêmicos. Mesmo lançado apenas em português (as versões em inglês e espanhol estão a caminho), o site já despertou a atenção lá fora. “A notícia corre rápido. Recebemos contatos de Israel, Portugal, Colômbia e Estados Unidos.” Faz sentido: comida é um tema universal — e a fome de inovação também não conhece fronteiras.

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