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“A maior riqueza de uma comunidade residirá na capacidade individual de criar e na coletiva de realizar”

- 30 de agosto de 2019
Bruno viajou para a China, Israel, Alemanha e Estados Unidos e conta sobre sua experiência em alguns polos de inovação desses países.
Bruno viajou para a China, Israel, Alemanha e Estados Unidos e conta sobre sua experiência em alguns polos de inovação desses países.

 

por Bruno Tataren

A necessidade pode criar um forte poder transformacional na vida de um indivíduo ou mesmo em uma sociedade. Foi assim com China, Israel e Alemanha, que por meio de condições adversas começaram a se reinventar e hoje são reconhecidas como polos mundiais para startups. Já Austin, no Texas, sempre foi um lugar de vanguarda. Veja um pouco mais sobre esses lugares altamente disruptivos:

O Vale do Silício chinês

Estive na China no mês de abril e o país como conhecíamos mudou muito nos últimos anos.

O país deixou de ser a região que copiava produtos globais, conhecida como “Made in China”, e passou a criar novas soluções e tecnologias, capitaneando inovações para desenhar o futuro, o que estamos chamando de “Created in China”

Shenzhen foi a primeira Zona Econômica Especial (ZEE) criada na China. Há 40 anos atrás, a cidade portuária não passava de uma vila de pescadores, com cerca de 22 mil habitantes. Hoje, com seus quase 12,5 milhões de moradores, é apelidado de “Vale do Silício chinês” e se transformou num local endêmico para a produção criativa e pesquisa em inovação no país asiático.

Fato consumado e probatório disso é o avanço das taxas de crescimento na província, de 8,8%, uma das mais altas da China. A expectativa é que a cidade supere a terra dos gigantes, Hong Kong, até 2025. Em 2017, o PIB ultrapassou os US$ 338 bilhões, batendo de frente com o tamanho da economia irlandesa, por exemplo, que gira na casa dos US$ 339 bilhões.

Os “Shenzhenianos”, filhos de um mesmo sonho Shenzhen, possuem uma característica peculiar quanto ao resto da China: o abraço aos migrantes e imigrantes. A província é um dos raros lugares onde não se ouve as palavras “bendiren” (local) e “waidiren” (forasteiro). As políticas da ZZE levaram muitas pessoas com o sonho de enriquecimento para a região.

A cidade chinesa se transformou num hub de inovação dentro da Ásia, principalmente no aspecto de desenvolvimento de tecnologia e pesquisa, motivo do apelido postiço em referência ao Vale do Silício. A região gasta quase 4,3% do seu PIB só nessas duas áreas, um dos mais altos índices do país.

O leque de oportunidades gerado por esse investimento serviu como ponto de atração global para um segmento específico dentro da cultura de inovação: os makers

Esses fatores somados fazem da cidade a terra prometida para qualquer um com uma ideia em mente e esforço para produzir. Um pesqueiro certeiro para os grandes tubarões do mercado global, Shenzhen é o ponto perfeito para fisgar novas ideias sem um grande custo.

Gigantes como a Amazon ou a Taobao costumam enviar olheiros atrás de novos gadgets ou soluções que encaixem como upgrade para seus modelos de venda online. Todo maker na cidade sonha com uma oportunidade desse quilate, querem que suas invenções sejam descobertas e muita gente trabalha para conectar essas novas ideias com o exterior. Empresas de dentro e fora da China buscam mão de obra especializada em Shenzhen para montagem de diversos produtos, mais precisamente réplicas de marcas conhecidas e renomadas.

A dificuldade criou a potência de Israel

Após 70 anos de sua independência, Israel conta com cerca de 7,8 milhões de pessoas. Devido às dificuldades, acessibilidade e por ser uma pequena região no meio do deserto, a população precisa criar soluções globais. Basta olhar os cases do Waze, Wix e Moovit Waze, Wix e Moovit, negócios tiveram início no oásis de Tel Aviv.

Ao contrário do Brasil, em que as startups estão mais voltadas a negócios e ao mercado interno, a comunidade israelense desenvolve tecnologias para atender o mundo. Um dos motivos é por conta do seu reduzido mercado interno. Israel é do tamanho do estado de Sergipe e com população menor que o estado de São Paulo, mas, mesmo assim, anos-luz à frente do gigante verde e amarelo quando o assunto é cultura de inovação.

Devido às histórias de escassez de recursos, dos conflitos e do ecossistema instável, no foco do país estão as áreas de segurança, cyber security e agrotech

A AII, Autoridade de Inovação de Israel, é a entidade pública responsável pela gestão dos valores cedidos pelo governo para investimento em tecnologia, pesquisa e startups — cerca de meio bilhão de dólares, em 2018. O país é a nação que mais investe no mundo em pesquisa e desenvolvimento, destinando 4,3% do seu PIB (cerca de US$ 13 bilhões por ano) para esse fim.

Mais uma vez, esse volume suntuoso é fruto de uma mentalidade de empreender voltada para o global. Toda startup no país nasce com a necessidade de estar aberta para o mundo e não somente para o consumo local.

No Brasil, quantas startups oferecem um site em inglês? Uma versão legendada de sua produção e cases? Quantas pensam somente no mindset do consumidor brasileiro e não nas lacunas de comportamento do consumidor global?

Entre nós e Israel existe uma distância enorme quando o assunto é inovação, e não nos atendo a alguns desses principais pilares de desenvolvimento esse abismo só tende a crescer ainda mais.

Das cinzas e escombros ao pedestal mais alto da Europa

O conturbado passado de Berlim no século 20 não impediu a cidade de se reinventar e consolidar-se como um dos grandes centros criativos do velho continente

O Muro de Berlim, símbolo do período de desfecho da Segunda Guerra e reflexo da bipolaridade da Guerra Fria, tornou-se uma das maiores muralhas ao ar livre do mundo — com mensagens que ressoam outros períodos, diversos  países e centros — tudo isso a partir da arte, cultura e colaboração.

A reunificação alemã pós Guerra Fria trouxe frutos para a cidade. As comunidades criativas da cidade formaram lobbies para promover seus espaços em torno da inclusão, colaboração, segurança e acessibilidade.

A Bienal de Berlim de Arte Contemporânea, o Festival de Berlim Flash Film, Semana Verde Internacional, Transmediale, Improfestival, Invasão Comic, Open Air Gallery, Worldtronics, e Jazz Festival de Berlim são exemplos de alguns eventos que surgiram ao longo dessa construção criativa.

Essa transformação posicionou a capital alemã como um dos principais centros de startups na Europa, abrigando negócios notáveis como SoundCloud e Babel.

São 500 novas startups por ano, gerando um giro de quase 15% em novos empregos dentro da economia digital – um crescimento quatro vezes maior se comparado aos demais setores

A aura criativa de Berlim foi a fragrância que atraiu diversos empreendedores através do globo para a cidade, sendo responsável por abrigar o primeiro espaço de coworking da Europa, o Betahaus. Além disso, o centro de inovação Factory Berlin propicia a união de startups, times corporativos e incubadoras — contando com a presença de peixes grandes como Deutsche Bank, Audi, Google, Siemens e SoundCloud.

Em 2018, o Ministério de Negócios e Energia da Alemanha instalou no local um hub de economia digital, acessível a partir de um processo seletivo duríssimo. Essa integração é orientada através do MatchMarketing, ou seja, a combinação entre as grandes companhias e as novas soluções trazidas por startups. Novamente, a cooperação através da acessibilidade.

Aproveitar o potencial de inovação e agilidade que as startups trazem é fundamental para as grandes corporações se manterem vivas no cenário digital, que por sua vez, emprestam sua estrutura global para dar uma visão ampla aos talentos que podem oferecer algo diferente. E em Berlim isso já foi bem entendido.

Austin é o polo de inovação que conecta o mundo

Austin já é considerada por muitos a cidade da inovação. Ela virou um importante polo de novas empresas e foi eleita pela Forbes como a cidade número um para startups nos EUA. No ano passado, foi a que deu o maior salto no ranking das 50 cidades mais inovadoras do mundo, subindo 18 posições e aparecendo em 29º lugar. A capital do Texas é berço de companhias como Dell e Whole Foods e abriga grandes empresas, como Samsung, Intel e HP.

O South by Southwest, ou SXSW, o maior evento de inovação do mundo, que acontece desde 1987 no local, é uma excelente oportunidade para conexão de pessoas de todas as partes do mundo.

O Texas é historicamente reconhecido como um estado conservador e Austin, que adota o slogan Keep Austin Weird, é vista como uma cidade de vanguarda. No SXSW, temos a oportunidade de visitar todos estes pólos citados ao mesmo tempo

Por isso, é preciso estar aberto ao novo para explorar ao máximo o festival. Por lá, você vai encontrar pessoas diferentes com ideias únicas. Com certeza é o primeiro lugar que você deveria ir antes de desbravar os polos mundiais para as startups.

Quem pensar melhor sobreviverá melhor

No jogo do futuro cada vez mais próximo, a maior riqueza de uma comunidade residirá na capacidade individual de criar e na capacidade coletiva de realizar. Com mais máquinas substituindo seres humanos na reprodução do conhecimento existente, a nova elite será aquela capaz de produzir coisas novas, exercitando um dos super poderes que o homo sapiens ainda mantém diante do avanço das inteligências artificiais: a criatividade.

A vantagem que países como Israel, tão pequeno, detêm diante dos grandes é a compreensão dessa mudança que vai ocorrer muito rapidamente. Ele sabe que é estratégico aprender a pensar e a trabalhar em conjunto na construção inovadora. Entende que nesse caminho é preciso aprender a errar e a replanejar rapidamente, e também que é preciso investir pesadamente na formação dos que manterão esse ciclo ativo no futuro.

O problema é que o cenário mundial conta com um player gigante fazendo o mesmo: a China. Quem vai ganhar essa guerra? O Golias oriental é o franco favorito, mas não vai vencer a batalha sem enfrentar umas boas pedradas dos menores, que contam com um belo jogo de cintura e uma boa pontaria. Sem falar em Austin, Berlim e tantos outros polos que ainda podem despontar no mapa mundi.

 

Bruno Tataren, 28, é sócio da Organica e Head da BU de Conhecimento; e cofundador da Aceleradora de Marketing Digital Brifô. Antes, foi cofundador e COO do negócio social Atados, marketplace de voluntariado e consultoria de voluntariado empresarial da América Latina. Formado em Administração pela USP com extensão na Universidad de Chile.

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