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Cabeça a mil: Carla Mayumi e a “vontade de não se acomodar”

- 1 de junho de 2018
Adriano Silva, do Draft, e Carla Mayumi: na pirâmide de influência, os inovadores criativos ocupam o topo e inspiram a base

 

Uma barulheira semelhante àquela das turbinas de avião, quando você aterrissa e é obrigado(a) a desembarcar na pista e pegar o ônibus até o terminal, sem direito a finger: esse é ruído produzido pelo climatizador. Talvez seja exagero meu, confesso (sou sensível a barulho). São duas e pouco da tarde da quinta-feira pré-Páscoa e o vapor do aparelho alivia a redoma de ar quente que repousa no terraço do Civi-co, o coworking de negócios de impacto em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo.

A entrevistada ainda não chegou. A equipe técnica cuida de ajeitar os equipamentos, testar a luz, o som; o figurino todo preto lembra o uniforme de um time de barmen de alguma balada descoladinha e contrasta com a camisa supercolorida de Adriano Silva, publisher do Projeto Draft e responsável por conduzir as entrevistas de DNA: Nova Economia (série com a curadoria do Draft, apresentada pelo Sebrae, veiculada nos canais Globosat e produzida e dirigida por Bond Filmes e Storyland). Sentado, mãos nas coxas, olhos fechados, ele submete-se docilmente ao trabalho da maquiadora.

Aproveito para espiar o trânsito, que flui bem na véspera de feriadão (mas há uma promessa de chuva no céu abafado que pode complicar o tráfego). O Civi-co está praticamente na esquina de uma das principais vias do bairro – o acesso a pé exige alguns degraus de escada devido a um desnível no terreno.

Para quem é de fora de São Paulo, é interessante saber que essa região de Pinheiros traça uma fronteira curiosa entre o novo e o antigo, diferentes facetas da cidade e de sua economia. A pacata Rua Doutor Virgílio de Carvalho Pinto floresce com coworkings (Civi-co, ImpactHub, House of Work); enquanto isso, na movimentada Teodoro Sampaio resistem os camelôs e um comércio mais tradicional, com redes de varejo e utilidades domésticas na parte baixa, móveis e colchões no pedaço do meio e lojas de instrumentos musicais rua acima.

Chegou a entrevistada: Carla Mayumi. É uma daquelas pessoas de cabeça a mil, nascidas para engajar gente nesses tempos digitais. Pesquisadora-ativista, ela ajudou a criar a Box1824, onde foi sócia por uma década e co-realizou O Sonho Brasileiro, estudo que investigou os anseios de mudança dos jovens do país, isso lá em 2011 (bem antes do William Bonner perguntar: que Brasil você quer para o futuro?). É também diretora da TalkInc, curadora de conteúdo (The Mob e KES.do), co-organizadora da Virada Política, co-autora do livro Volta ao Mundo em 13 Escolas e palestrante TEDx. Entre outras coisas.

Assim que põe os pés no terraço, Carla começa a ser maquiada. Eu me apresento logo, querendo evitar atrasos na gravação. Ela ouve, sorri, não me vê – agora é ela quem está de olhos fechados. Gaúcha de ascendência japonesa, tem uma carinha de menina (nerd) que engana, um semblante de eterna juventude. A maquiadora, minuciosa, dedica uns belos 15 minutos ao trabalho, finaliza ajeitando a franjinha de Carla, que traz o cabelo preso num coque. “Vou de óculos? Sem óculos?”, pergunta. De óculos.

Adriano trocou a camisa por outra ligeiramente mais discreta e está pronto para dar início à entrevista. Alguém silencia o climatizador; ainda assim, a voz de Carla é parcialmente sufocada pelo ronco dos ônibus subindo a rua. As perguntas se sucedem, uma, duas, três, até que o entrevistador levanta a bola: o que ela gostaria de fazer diferente, se pudesse voltar atrás?

Carla conta de um empreendimento que não deu certo – e é interrompida pelo diretor, que pede para ela repetir porque o vruuuum de uma moto invadiu o áudio. Sorte que no vídeo, ao contrário da vida, voltar atrás é fácil.

Ela recomeça, explicando que o negócio era ligado a educação. O GPX – Global Project Experience tinha a proposta de oferecer um aprendizado imersivo de seis meses a jovens em busca de um caminho pessoal e profissional (e foi tema de uma matéria assinada pelo Adriano nos primórdios do Draft, em outubro de 2014). Durou um ano. “Acho que nasceu um pouco antes do tempo”, diz Carla. “Hoje, talvez tivesse mercado.”

Desbravar um cenário novo é assim mesmo, às vezes dá errado, ‘bora tentar outra coisa. Adriano aborda a oposição entre a economia criativa vista como alternativa ao emprego industrial e a pressão para que as startups consigam escalar. Pergunta: o negócio pode ser bom e eventualmente pequeno?

Carla não é fã da palavra “escala”, prefere a ideia do craft, o trabalho pensado de forma particular para cada projeto. “Mas o mundo está aí para mostrar que dá para fazer dos dois jeitos. E acho que a própria indústria criativa exige uma nova maneira de escalar também.”

A filmagem é transferida para a escada interna do coworking. A pausa entre sets é o tempo de Carla indicar um restaurante a Adriano e descobrir que Larissa Freitas, da Globosat, que acompanha a gravação, é amiga de infância da designer da Virada Política, organizada por Carla. Mundo pequeno. A edição mais recente, aliás, rolou no próprio Civi-co, em novembro. Ela revela que neste ano o evento suprapartidário ocorrerá cerca de duas semanas antes das eleições (“já estamos trabalhando, tivemos reunião dia desses!”).

Na pirâmide de influência da Nova Economia, Carla compõe o time de inovadores que ocupa o topo e inspira a base. Adriano quer saber que energia é essa para concretizar projetos e empresas em série.

“Acho que é uma vontade de não se acomodar. Aquele incômodo de perceber que você está indo para um lugar de acomodação e te faz levantar, sacudir e dizer: não é isso, gente! Na essência, talvez seja isso: a vontade de aprender uma coisa nova.”

A tarde avançou, as nuvens estão menos carregadas, a chuva parece que hoje não cai. No céu da Nova Economia, o limite quem define são os criativos, como Carla.

 

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