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Campus Party Brasil 2015 – o melhor do dia #1

- 5 de fevereiro de 2015
Palco "Terra", o principal da Campus Party, recebeu ontem palestras como a de Camille François, sobre ciberwar.
Palco "Terra", o principal da Campus Party, recebeu ontem palestras como a de Camille François, sobre ciberwar.

A essa altura, você já deve ter ouvido falar na Campus Party. O evento, que gosta de se apresentar como um dos maiores de tecnologia do mundo, chega à sua oitava edição e acontece esta semana na Expo São Paulo. Criada na Espanha, a feira chegou ao Brasil em 2008 e, de lá para cá, conquistou seu espaço e relevância.

Tenho uma amiga que gosta de comparar o evento à internet: o tempo todo estão acontecendo várias coisas, há muito conhecimento sendo transmitido, você pode conhecer alguém muito interessante a qualquer momento, é fácil se entediar, e você sempre está com a sensação de estar perdendo algo. Que atire a primeira pedra quem não se sente assim cada vez que abre o Facebook ou o Twitter.

Falando em conhecimento e conteúdo, esqueça o que você costuma ver por aí sobre a Campus Party. Ela é diferente do que se vende: um monte de nerds, com computadores personalizados, utilizando uma internet ultrarrápida etc. É claro que há tudo isso lá, mas há também muito mais.

Vamos voltar à comparação com a internet: assim como a “rede mundial de computadores”, a Campus Party também amadureceu bastante no país. Se antes ela era, basicamente, uma lan house gigante e com uma super internet, hoje se apresenta como um celeiro dos empreendedores e inovadores do presente e do futuro.

Como é a sexta vez que cubro o evento, pude ver tais mudanças de perto. É verdade que muita gente ainda vai para se divertir, ver os amigos, baixar coisas, ficar jogando games etc. E o evento incentiva isso na medida em que não se limita ao empreendedorismo e não é composto apenas por geeks.

Da mesma forma, o nerd não é mais uma figura estranha, mas sim um estereótipo cada vez mais comum e interessante à sociedade – afinal de contas, ele representa o potencial de mudança pela tecnologia. E é esse potencial que a feira busca alimentar e incentivar.

Estarei essa semana, até sábado, cobrindo o evento pelo Draft e compartilharei um pouco da experiência e do conhecimento absorvido por aqui.

Paco Ragageles, o organizador do evento, dá boas vindas aos participantes na abertura da Campus Party

Paco Ragageles, o organizador do evento, dá boas vindas aos participantes na abertura da Campus Party

Antes do dia #1, na verdade, aconteceu o dia zero, terça-feira. Mas, não há muito o que se falar dela: rolou apenas uma coletiva de imprensa, a abertura oficial da feira às 21h, e uma única palestra.

O grosso e interessante começou mesmo às 10h dessa quarta-feira, com as palestras se iniciando simultaneamente nos mais de dez palcos da feira – isso sem contar todos os expositores, startups, e apresentações na área aberta e gratuita.

Com nomes de corpos do nosso sistema solar, os palcos são divididos entre os seguintes temas: desenvolvimento, jogos/simulação, redes sociais, segurança e redes, makers, ciência, software livre, criatividade e empreendedorismo. Esse último, no palco Lua, o segundo maior depois do Terra, onde ficam os principais sobre todos os temas.

Minhas primeiras impressões ao chegar: o lugar está estranhamente mais silencioso (talvez por ser a manhã do primeiro dia), mais bonito (até ano passado acontecia no Anhembi), e parece mais organizado. Ah, sim! Este ano, finalmente há ar condicionado e as pessoas não ficam pingando de suor.

Logo pela manhã, o palco Lua era o mais lotado. Lá estava Flávio Augusto da Silva, criador da escola de inglês Wise Up, vendida por 1 bilhão de reais à Editora Abril; dono de um time de futebol em Orlando (EUA); e criador da Geração de Valor, publicação que transmite ideias de empreendedorismo a milhões de pessoas. Um bom indicativo de como os “nerds da Campus Party” estavam lá à procura de algo além de brindes e internet rápida. A palestra era mais focada em motivar as pessoas em relação a empreender, uma proposta bem executada, mas nada que me prendesse muito.

Logo chegou a hora de um magistral interessante: Miguel Nicolelis, um dos neurocientistas mais respeitados do Brasil e responsável pelo Projeto Andar de novo, o exoesqueleto que ajudou Juliano, um garoto paraplégico a dar o chute inicial da Copa do Mundo.

Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro, contraria todos os dias a tese de que não existe inovação no Brasil.

Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro, contraria todos os dias a tese de que não existe inovação no Brasil.

Durante a palestra, Nicolelis foi contando a evolução de suas pesquisas com as características típicas de um geek: entusiasmo, confiança, e visão de que algo pode mudar completamente o futuro.

Quando apresentou experimentos de tecnologias, como a “interface cérebro-máquina”, que permitiu macacos reconhecerem braços robóticos ou virtuais, ou a “interface cérebro-cérebro”, que levou ratos a se comunicarem mentalmente, o neurocientista mostrou que acredita em um futuro onde nos comunicaremos e controlaremos dispositivos ao nosso redor apenas com o pensamento.

Antes de ir a futuros mais distantes, ele está trabalhando tecnologias para resolver problemas prementes. Sua interface cérebro-máquina é capaz de digitalizar um comando cerebral e transferi-lo a um corpo robótico, que executa o movimento e devolve um sinal ao cérebro.
Foi assim, com inovações, piadinhas aqui e ali, se emocionando sempre que mostrava uma descoberta, e se mostrando bastante confiante em seu trabalho, que o cientista defendeu a inovação brasileira:

“Se alguém te falar que não dá para inovar no Brasil, que sonhos impossíveis só acontecem lá fora, diga para eles que há o Campus do Cérebro, sendo construído em Natal, onde você poderá ser um geek forever”

Nicolelis apresentou o centro, que tem investimento do Ministério da Educação, e abrigará espaços de educação científica e promoverá pesquisas robóticas e de neurociência capitaneados por ele. “Einstein dizia que só se consegue o impossível perseguindo o absurdo. Estamos fazendo isso, deixando um legado para os passos que o Brasil mude a neurociência”, finalizou.

Outra grande apresentação do dia foi de Chris Anderson, ex-editor chefe da Wired e autor de best-sellers como The Long Tail: Why the Future of Business Is Selling, Free: The Future of a Radical Price, e Makers: The New Industrial Revolution. Este último, praticamente um manifesto do movimento maker, foi o tema da palestra.

Chris Anderson, ex-editor da Wired e um dos visionários do movimento maker.

Chris Anderson, ex-editor da Wired e um dos visionários do movimento maker.

Anderson também é CEO da 3DRobotics, uma das maiores fabricantes de drones do mundo. Ele conta como tudo começou, em 2007, quando queria montar aviõezinhos com seus filhos e, pesquisando na internet, conseguiu montar, com Lego, um que realmente voava. “Vi muitas coisas na minha vida, inclusive o surgimento da web, mas poucas foram tão empolgantes quanto poder montar aquilo”, conta.

Para ele, inovar com hardware, está se tornando tão simples quanto com software – e esse é o pulo do movimento maker, onde qualquer um é capaz de inovar no mundo físico. “Veja meu relógio o Pebble Watch (um dos primeiros smartwatches, financiado por crowdfunding), ele não foi criado por uma indústria, mas por três caras. Não foi desenvolvido para servir empresas ou governos, mas para servir pessoas”, diz. Assim como as possibilidades de criar algo estão mais acessíveis, o mesmo acontece com a educação:

“A educação formal te dá um senso de como trabalhar, uma disciplina; a informal desenvolve sua curiosidade; e há uma terceira, que te dá acesso e permite compartilhar conhecimento com comunidades”

Partidário da ideia de que “se for fracassar, faça isso rápido”, Anderson diz: “Não espere quatro anos para saber que você estava aprendendo a coisa errada, não levante 1 milhão de dólares para descobrir que sua ideia não era boa”.

O melhor exemplo do que Anderson falava e defendia era Shubham Banerjee, um garoto de 13 anos que palestrou no mesmo palco horas antes.

Shubham Banerjee, de 13 anos, criador de uma empresa que fabrica impressoras 3D para cegos.

Shubham Banerjee, de 13 anos, criador de uma empresa que fabrica impressoras 3D para cegos.

Nervoso e tímido, ele contava, com extrema simplicidade, como criou uma impressora 3D que transformava textos em braile. “Perguntei a meus pais como um deficiente visual fazia para ler e fui ao Google. Depois, com algumas peças de Lego e um microcomputador, desenvolvi uma impressora barata que escrevesse em braile”, conta.

Um verdadeiro maker, sem precisar de muito conhecimento técnico, o garoto criou a BraigoLabs, sua empresa de impressoras de baixo custo para cegos, que recebeu investimentos da Intel Capital.

Mas essas inovações todas… de onde vêm? Fábio Akita, fundador da CodeMiner42 e palestrante da Campus Party, mostra que nem tudo o que se vende como inovador de fato o é. “Estamos vendo muita ‘Airbnbização’ das coisas: alguém pega um serviço que já existe e adapta para outro mercado. Para mim, isso é, no máximo, microevolução de ideias”, diz ele.

Para Fábio, inovação não é seguir tendências, é antecipá-las. Durante a apresentação, ele mostrou várias fórmulas matemáticas, com algoritmos criados há quase um século, como a Lei de Markov, Elo Rating System, entre outros, que hoje são base para a maioria das empresas e tecnologia de sucesso que conhecemos. Ele resumiu o que pensa sobre:

“Inovar é transformar o que é impossível hoje no que será possível amanhã. Mas algo não é impossível por ser fisicamente impossível, é assim porque hoje somos mentalmente incapazes de colocar aquilo em prática. Você só vai inovar quando tirar o pó dos livros, estudar e trouxer esse conhecimento para o mundo real”

Falando em mundo real, Camille François, pesquisadora de Harvard que se apresentou no palco principal, veio nos mostrar que a ciberguerra já é realidade. “A partir do momento em que as nações já treinam ciberexércitos, e existe uma lógica de ataque, isso já é uma realidade.

Camille François, estudiosa de Harvard e especialista em ciberwar e ciberpaz

Camille François, estudiosa de Harvard e especialista em ciberwar e ciberpaz.

O problema é que ninguém consegue definir uma ciberguerra, quem ataca fica facilmente oculto, e não há regras ou ética nesse campo”, disse. Apesar do tema, a apresentação acabou com sua definição de ciberpaz: “Organização do estado de paz no ciberespaço, de forma transparente e negociada em um debate público envolvendo todos os membros em busca de um acordo”.

Ainda rolou um debate bacaninha sobre desenvolvimento independente de jogos brasileiros. Basicamente, a discussão girou em torno de mostrar, para outros desenvolvedores, que antes de ser um artista, eles são uma empresa e que devem entender quais são suas limitações. Mesmo assim, é curioso notar que alguns dos integrantes do debate, conseguiram sucesso em seus jogos sem sequer montar um plano de negócios.

Saí da Campus Party por volta das 22h30, enquanto na maioria dos palcos ainda rolavam palestras, mas, o mais cheio, era o do Jovem Nerd, onde acontecia uma partida de Street Fighter. Em breve, a bagunça começaria no evento, com o barulho aumentando, a galera tomando energético e virando a noite jogando, conversando, ou fazendo qualquer outra coisa.

Hoje tem mais.

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