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Como funciona a Change, a rede de abaixo-assinados online que mais cresce no mundo

- 28 de outubro de 2014
Rafael, Graziela e Pedro: a equipe Change.org Brasil, no escritório em São Paulo

Números são algo muito importante para uma plataforma de petições online como a Change, que surgiu nos EUA e chegou ao Brasil em outubro de 2012. Por aqui, já são 2,5 milhões de brasileiros sugerindo e encampando campanhas de abaixo-assinados online (no mundo, são 78 milhões de usuários). Apesar dos números grandiosos, o maior valor da Change é outro: a capacidade de empoderar individualmente qualquer pessoa.

Um exemplo prático deste poder está em uma notícia publicada ontem. A Justiça acaba de proibir a PM de usar balas de borracha para reprimir manifestações. O fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu o olho esquerdo ao ser atingido pelo artefato enquanto cobria as manifestações do ano passado, criou a petição dentro da Change — já reuniu mais de 45 mil assinaturas, e esta pressão levou aos desdobramentos agora noticiados.

A Change é uma empresa social que proporciona a indivíduos mobilizarem suas próprias demandas, embasadas muitas vezes em histórias pessoais. É diferente da Avaaz, ONG que escolhe apenas causas políticas e sociais para pleitear e levanta um número gigantesco de assinaturas. “É como se falássemos para as pessoas que, mesmo não pertencendo a um movimento, uma organização ou não tendo assessoria de imprensa, ainda assim elas têm poder de mudança”, afirma o carioca Pedro Prata, 30, diretor de comunicação da Change no Brasil.

“É uma ideia que estamos construindo aos poucos e que está crescendo. Acreditamos que vai haver cada vez mais cobrança a governos e empresas via petição online”, diz ele. Mais de 800 mil pessoas já assinaram pelo menos uma petição vitoriosa nos dois anos em que a plataforma funciona no Brasil.

Desde que não viole algum tipo de direito, na Change qualquer petição pode ser criada, gratuitamente, por qualquer um. Basta que haja uma demanda (que pode ser, até mesmo, pela fabricação de um determinado tipo de sutiã), um alvo (nesse caso, empresas que fabricam o produto), email do destinatário (é assim que conhecerá a demanda e será pressionado) e email do demandante, para fazer o cadastro e acompanhar o processo.

FUNCIONAMENTO SIMPLES PARA CAUSAS COMUNS

Até as primeiras 100 assinaturas o alvo recebe um email por adesão. Depois, um a cada 500 e, então, um a cada mil. O exemplo acima não é fictício: uma brasileira, filha e irmã de mulheres que tiveram câncer de mama, criou a petição para que oito marcas produzissem um sutiã bonito para pacientes de mastectomia já que os modelos existentes eram hospitalares e feiosos. Até agora, obteve mais de 14 mil assinaturas e o comprometimento de duas marcas — a petição segue aberta para que as outras fabricantes se pronunciem. “Deixamos a cargo de cada pessoa fechar suas petições, quase nunca interferimos”, conta Pedro.

Mais de 15 mil assinaram pela liberação da venda de acarajé na Fonte Nova. Deu certo

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Em sete meses no cargo, Pedro deletou apenas uma, que pedia para a que Polícia Militar batesse em prostitutas. Tinha quatro assinaturas. “Majoritariamente as demandas são positivas e deixamos rolar, independentemente da causa, posição política ou religião”, conta.

Urbanização é o tema que mais mobiliza os brasileiros a entrarem na plataforma Change para criarem petições. Duas estão no ar, com desejos opostos para a cidade de São Paulo: uma é a que quer a construção de um parque em cima do Minhocão (tem 3.800 apoiadores), outra pede que o Minhocão seja derrubado, e tem 400 apoiadores.

Se engana quem pensa que um número alto de assinaturas é fator decisório. Com 700 delas um designer de São Paulo conseguiu, em questão de dias, com que a prefeitura consertasse um semáforo desregulado na rua onde trabalha, no bairro paulistano da Lapa. Feliz com o resultado, elaborou uma segunda petição, em seguida, pedindo que a praça em frente ao semáforo fosse iluminada. Nessa, recebeu cerca de 8.476 assinaturas — graças ao intermédio da própria Change, que levou o caso à TV.

Das cerca de 300 petições criadas na plataforma brasileira todo mês, 10% são escolhidas para serem melhor direcionadas, viralizadas e divulgadas para a imprensa. Este é o trabalho da equipe da Change no Brasil que, além de Pedro, é composta pelos paulistas Graziela Tanaka, 34 e Rafael Sampaio, 30. Diretora e coordenador de campanhas, respectivamente, eles fazem a triagem, o contato com o autor e eventuais ajustes como indicação de um alvo menos genérico ou melhora do texto. “Nosso trabalho é de bastidores, pois a campanha é do peticionário”, diz Graziela.

Há três critérios para escolha das petições que serão “turbinadas” pela Change: que o peticionário seja uma pessoa dedicada e não a abandone a causa, que a petição tenha apelo social forte ou objetivo concreto e que tenha chance de obter vitória rápida.

“Acredito que a mobilização online é uma ferramenta para pressão ágil e direta. Questiono seu uso para campanhas de longo prazo”

Em seguida, entra a comunicação, feita por Pedro. Além de divulgar para a imprensa, ele posta a petição nas redes sociais e a envia para usuários da plataforma que tenham assinado causas similares. “Esse é um trabalho que ainda precisa ser feito bastante no Brasil. Nos Estados Unidos e na Espanha, por exemplo, isso já acontece de uma forma muito mais autônoma por parte do público”, diz Pedro. Ao menos uma vez por semana algum órgão da grande imprensa conta uma história postada na Change, conta.

MANIFESTAÇÕES TURBINARAM A CHEGADA AO BRASIL

Quando chega a um país, a Change geralmente já tem usuários ativos. Por aqui, já havia 227 mil usuários ativos na plataforma, um número considerado alto para os padrões da empresa. Mas o que realmente surpreendeu a Change mundial foi a curva de crescimento brasileira: 646% ou 1,5 milhão de usuários apenas no primeiro ano. Devido, em grande parte, às manifestações de junho de 2013. “Foi um crescimento muito exponencial. Chegamos ao primeiro milhão muito rapidamente e isso foi fenomenal”, conta Graziela.

Para entender como isso se deu, é preciso voltar a dezembro de 2012, quando foi criada a primeira petição brasileira na plataforma, contra a PEC 37, que tirava o poder de investigação dos Ministérios Públicos Estadual e Federal. Endereçada a deputados federais e senadores, tinha como autor o Ministério Público do Estado de São Paulo e viralizou apenas a partir de abril, quando, depois de campanha do próprio MP, passou a ser veiculada na imprensa. A petição contra a PEC 37 reuniu 460.877 assinaturas em oito meses, e foi a segunda maior petição da Change no mundo.

O pedido pode ser para a indústria criar um sutiã para mulheres que tiveram câncer de mama. Também deu certo

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A petição viralizou de vez em junho, com as manifestações. Elas se espelharam em outros abaixo-assinados, tanto de pautas genéricas (pedindo o fim da corrupção) como específicas (pelo fim do uso da bala de borracha pela PM de São Paulo), e levaram a Change ao seu primeiro pico de crescimento: um milhão de usuários em oito meses de Brasil.

Nestas eleições a Change teve uma petição vitoriosa: pedia ao Ministério Público Federal, à Procuradoria Geral Eleitoral e ao Ministério Público Federal que abrissem um processo de cassação da candidatura do Levy Fidelix por conta das declarações homofóbicas que fez em um debate. Em apenas dois dias, já tinha 16 mil assinaturas e o Ministério Público afirmou que abriria o processo como resposta a duas pressões: a da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e a petição da Change. “Essa história é considerada um case tanto pela velocidade, como pelo contexto e pelo retorno”, diz Pedro.

A Copa do Mundo é outro momento do país que se refletiu em aumento de usuários e petições. Teve a história das baianas, que tinham sido proibidas pela Fifa de vender acarajé no estádio Fonte Nova. Elas não só reverteram a situação (16.206 apoiadores) como inspiraram as também vitoriosas tapioqueiras de Recife (16.102 apoiadores). A filha de um dos trabalhadores mortos nas obras de construção do Itaquerão pede que seja erguida uma homenagem ao pai no local, e tem 183.826 assinaturas.

MODELO DE NEGÓCIO

Classificada como empresa do Sistema B, certificação americana para empresas que não têm lucro e reinvestem toda a receita em melhorias, a Change tem seu modelo de negócio voltado, como eles dizem, para o bem social. Há duas formas de geração de renda: campanhas patrocinadas e contribuições em dinheiro (de 5 a 100 reais). Grandes organizações, como Greenpeace, WWF, Anistia Internacional, patrocinam campanhas e, a cada assinatura conquistada, a Change é remunerada. Este modelo de negócios está começando agora na Inglaterra e na Espanha, e até bem pouco tempo só existia nos Estados Unidos (a matriz distribui a receita para os 20 países em que há equipes da Change).

É um passo importante para a consolidação da Change, que nasceu de um blog do californiano Ben Rattray, 34, criado em 2007 para resolver o bullying que um dos seus irmãos sofria na escola por ser gay. Houve retratação e deu tão certo que ele programou para que aquilo virasse uma rede de blogs para transformação social. Em pouco tempo estava criada uma startup no Vale do Silício e Ben, o CEO, foi eleito em 2013 pela Time como uma das pessoas mais influentes do mundo.

A Change tem 78 milhões de usuários em todo o mundo. São pessoas assinando petições em 196 países, até mesmo na Coréia do Norte. “Fico imaginando quem é esse cara e espero que não seja descoberto”, brinca Pedro.

draft card change

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