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Com calçados veganos artesanais, a Urban Flowers propõe um olhar mais justo para a cadeia de produção

- 8 de abril de 2019
Patrick Lenz e Cecília Weiler decidiram apostar em sapatos veganos com a Urban Flowers.

Urban Flowers, empresa que produz e vende calçados e acessórios veganos e feitos à mão com matéria-prima reciclada, começou a dar os primeiros passos em 2014 como um sonho da gaúcha Cecília Weiler, 22 em seguida, seu namorado, Patrick Lenz, 26, embarcou na aventura. Como muitos empreendedores sociais, eles queriam provar que um bom negócio para o meio ambiente pode também ser vantajoso para o empreendedor.

Com sede em Campo Bom (RS), mas comandada a partir de Florianópolis, onde a dupla reside, a marca hoje enfrenta desafios próprios de uma ideia que já dá frutos, mas precisa se manter fiel aos seus princípios conforme se expande. O faturamento, em 2018, atingiu 1,2 milhão de reais em 2018.

O carro-chefe são os calçados, que variam de 69 a 159 reais o par. No caso dos tecidos utilizados para a produção, muitos vêm de descarte feito por grandes empresas para as quais o processo correto para jogar esses materiais no lixo sairia muito caro. São panos com defeitos (rasgos, cortes ou falhas em estampas) incompatíveis com as escalas e as esteiras da grande produção.

Após pouco mais de dois anos administrando o negócio, Patrick diz que o diferencial para qualquer empreendedor investir em um nicho ligado a uma causa é a identificação: “Só vai ser um bom negócio se você realmente viver aquilo”. Ele prossegue:

“Não adianta oferecer algo com o qual não há minimamente uma identificação. É muito fácil ver pessoas fazendo um negócio só para vender, sem a vivência, e assim perder a credibilidade”

A COMPLEXIDADE DE UMA PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL

Para a operação da Urban Flowers, o mais difícil é descobrir se as matérias-primas são veganas, de fato, já que o conceito de “produto sem origem animal” não é tão difundido. Há cores de tecidos, como o carmim, que são feitas a partir de pigmentos de insetos, o que impede que sejam usados pela empresa.

O cuidado em assegurar uma produção sem sofrimentos tampouco se limita ao quesito animal: Cecília e Patrick se preocupam em acompanhar e estar junto dos artesãos que trabalham para eles. “A gente conhece os ateliês. Alguns artesãos têm carteira assinada e outros ganham de acordo com a produção, já que são funcionários de outras companhias.”

As alpargatas foram os primeiros produtos de fabricação própria feitos pela Urban Flowers.

Hoje, 40% do faturamento da empresa é gasto apenas com mão de obra. O negócio conta com dois ateliês, nove artesãos e três costureiras.

Além disso, há funcionários que auxiliam na manutenção do e-commerce e do blog da empresa em um regime de trabalho majoritariamente home-office.

Patrick afirma: “Alguns colaboradores precisam se deslocar até o escritório em alguns horários, mas eles se organizam para ir no seu próprio tempo, não precisam estar ali de segunda à sexta. A gente consegue fazer um trabalho bem interessante com uma equipe mais enxuta”. Ele, que sempre trabalhou em empresas de segunda a sábado, complementa:

“Mesmo com uma carga horária alta, minha produção era baixa. Quando fundei a Urban Flowers, vi que cada hora que estava ali era bem utilizada, porque não estava pensando só no retorno financeiro, na carreira etc”

Não é à toa que os sócios empreendem um intenso trabalho de pesquisa para garantir, além de um ambiente saudável para os funcionários, a origem correta de seus produtos. Afinal, a marca nasceu a partir da inquietação de Cecília em descobrir de onde vinham os produtos que ela mesmo consumia.

HISTÓRIAS QUE SE CONFUNDEM

Cecília é vegetariana desde os 12 anos e vegana há quatro — em outras palavras, deixou de consumir qualquer produto que tenha origem animal, como ovos, laticínios, mel, incluindo aí cosméticos, roupas e outros itens que contenham pigmentos de origem animal (cera de abelha e seda), ou sejam testados em bichos.

A gaúcha nasceu em Campo Bom, no Vale dos Sinos gaúcho, região conhecida pela produção de calçados, em uma família ligada ao ramo da confecção e venda de roupas. O desejo de ter um negócio próprio veio antes mesmo de ter tido uma experiência profissional “tradicional”, com um chefe, horários a serem cumpridos e um holerite no final do mês.

Pronta para arriscar, ela começou revendendo produtos de outras marcas já aos 16 anos. A empresa nasceu com o nome Urban Flowers, inspirada na paixão da jovem por flores, plantas e natureza. Aos poucos, no entanto, o incômodo de não saber como os produtos eram feitos — com ou sem exploração animal ou humana — começou a crescer.

Foi um breve regresso à tradição que acabou permitindo à Cecília dar o passo da inovação que precisava. Ela conheceu Marcos Santos, 54, um antigo trabalhador de fábrica que tentava se virar depois que os produtos chineses começaram a representar uma concorrência feroz para a produção da região. Ele mesmo confeccionava alpargatas em Sapiranga (RS) e saía para vender em lojas de outras cidades.

Junto ao artesão, Cecília desenvolveu novos desenhos para os sapatos. “Em vários momentos, ele mesmo ficou surpreso com alguns produtos que achava que ia dar errado”, conta Patrick. O produto inicial foram justamente as alpargatas, mas repaginadas a partir das trocas entre Cecília e Marcos.

Como um investimento inicial de 5 mil reais, conseguido com as revendas que fazia desde os 16 anos, Cecília conseguiu encontrar um ateliê pronto e, como se tratava de uma produção manual, não foi necessário investir em maquinário. A jovem buscou mais artesãos para produzirem para a marca, com o cuidado de não envolver processos típicos da grande indústria, reaproveitando tecidos e matérias-primas. Porém, em 2016, quando o negócio prosperava e Cecília cursava Psicologia, surgiu um impasse:

“Ela gostava muito da faculdade, sentia que podia ajudar a sociedade com a Psicologia, mas a loja tomava um tempo da sua vida e ela começava a questionar qual era o sentido da marca. O que ela poderia fazer para ajudar o mundo ou as pessoas?”, afirma Patrick. Foi aí que o então estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas (e hoje namorado) entrou em cena, apresentado por amigos em comum.

Depois de muita conversa entre os dois, Cecília entendeu que a marca poderia, sim, ter um papel importante na sociedade. Patrick começou a fazer parte da equipe da marca oficialmente em 2017, auxiliando nas áreas de Finanças e Marketing. “Cecília sempre teve vontade de ajudar o mundo e as pessoas. Com a Urban Flowers, ela poderia apoiar pessoas na região que precisavam de um trabalho, por exemplo, mas que teriam que se sujeitar a remunerações baixas e condições ruins de trabalho nas fábricas.”

MENOS CONSUMO, MAIS SATISFAÇÃO

Hoje a Urban tem um desafio duplo: manter a essência e os princípios que deram à luz o negócio ao mesmo tempo em que cresce e dá sinais de prosperidade.

O modelo mule da foto é uma das opções de calçados veganos que a Urban Flowers comercializa. Os sapatos da empresa variam de 69 a 159 reais o par.

O negócio, por exemplo, rejeita a ideia de manter estoques: a produção de cada item só começa depois que o cliente efetua o pagamento por meio do site. Na plataforma são divulgados apenas os modelos para os quais há matéria-prima disponível. “O produto só será fabricado quando tiver um destino, não será produzido para ficar em uma prateleira, mofando ou pegando poeira.” A proposta dos produtos da Urban é de que também sejam atemporais e mais duráveis:

“Quanto mais você entra nesse mundo da moda, percebe que as pessoas compram algo por impulso, aí enjoam de uma estampa ou formato. Não é essa a nossa ideia”

Apesar do enfoque vegano, o casal não tem o objetivo de se manter restrito a esse público. “Pensamos no consumidor não-vegano e tentamos fazer com que ele tenha um incentivo para comprar de nós. Não é porque o produto foi feito sem itens de origem animal que ele vai ser mais caro.”

A CEREJA DO BOLO: CONTEÚDO, CONTEÚDO E MAIS CONTEÚDO

Outro diferencial da Urban está em sua proposta de difundir o veganismo e educar as pessoas por meio da marca. A solução tática para isso veio a partir do investimento em conteúdo próprio, veiculado principalmente através das redes sociais e do blog da marca, além de estratégias que envolvem anúncios pagos no Instagram e no Facebook ou mecanismos de busca, como Google, Bing e outros.

Marcos Santos, um dos artesãos que trabalha para a Urban Flowers.

É um trabalho que já dura um ano e demanda 5% do faturamento, um percentual que tende a crescer. Para isso, contam com um funcionário próprio e os serviços de uma agência. Ampliar a pauta para temas interessantes ao público-alvo, indo muito além do produto, foi uma grande mudança.

Hoje em dia, os assuntos do blog vão além do veganismo em si, abordando sustentabilidade, slow fashion, meio ambiente, alimentação saudável, entre outros.

Sustentada pelo comércio online, a Urban Flowers estuda atualmente parcerias extras, mas os sócios ainda não pensam em abrir uma loja física própria.

Nos próximos meses, o negócio deve lançar os kits da linha “Lixo Zero”, com produtos como ecobags feitas de guarda-sol e guarda-chuva reciclados, guardanapos e coadores de pano e canudos de bambu.

A aposta mais certeira para o futuro da empresa, segundo os fundadores, é a de que ela só vai crescer enquanto se manter fiel ao seu propósito inicial. Ou seja, no meio de uma “selva de pedra”, onde a natureza não tem grandes chances de sobreviver, seguir resistentes criando produtos que sejam como flores no meio do asfalto.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Urban Flowers
  • O que faz: Acessórios e calçados veganos
  • Sócio(s): Cecília Weiler e Patrick Lenz
  • Funcionários: 11 (incluindo os sócios)
  • Sede: Campo Bom (RS)
  • Início das atividades: 2014
  • Investimento inicial: R$ 5.000
  • Faturamento: R$ 1,2 milhão (em 2018)
  • Contato: contato@urbanflowers.com.br
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